05/04/2008
Número - 575



ARQUIVO
SARITA BARROS

 

Sarita Barros



CACHORRO-QUENTE

Ontem sonhei que parava em um acostamento. Tudo asfaltado. Nenhuma árvore por perto, nenhuma poça de água. Pensei: como os pássaros vão beber? Voltei ao carro e peguei minha garrafa de mineral. Coloquei água em um pote. Logo apareceu um passarinho, logo outro e mais outro. Beberam.

Ao acordar lembrei um fato acontecido com Márcia (uma das minhas cunhadas). Na época ela estava desempregada. Visitava empresas, deixava currículos e fazia entrevistas. Essas coisas que todos já enfrentamos alguma vez na vida. Nesse dia, quase a zero, pensou em voltar para casa. Apesar do cansaço e do adiantado da hora resolveu cumprir a agenda. Deu uma geral na bolsa e encontrou, além do dinheiro da passagem, alguns trocados que davam exatamente para um cachorro-quente. Sem almoço, recordou a lasanha da mãe, suspirou e disse baixinho: quando chegar como tudo o que sobrou.

Comprou o dog e ao levá-lo à boca, seus olhos encontram os de um cão faminto. O bicho parecia suplicar um pedaço. Era uma cadela sarnosa de mamas murchas e caídas. Coitada, não tem nem leite para os filhotes! E o cachorro-quente ali cheiroso. O estômago reclamando, a boca salivando, os olhos súplices da cadela. Basta eu pegar o trem e dentro de uma hora tenho banho, carinho, comida e cama quente, e ela? Algum pontapé. Foi se abaixando e ofereceu o petisco ao animal que recuou, olhou desconfiado, baixou mais a cola e encenou um passo. Criou confiança deu o primeiro passo e logo outro. A mão continuava estendida. A cadela olhou incerta, com medo de armadilha, de uma má ação. Estremeceu e avançou a cabeça tomando a iguaria. Assim que a teve entre os dentes, agradeceu com os olhos e saiu correndo de cola em pé.

Márcia suspirou erguendo-se. Era observada por uma mulher, de aproximadamente 40 anos, que começou a vociferar contra “essas riquinhas metidas a bestas que só para se exibirem dão comida de gente pra cachorro de rua fedido e sarnoso que a carrocinha devia pegar para fazer sabão criança pede esmola e ninguém dá nada e bicho pulguento ganha”. A mulher continuou falando, dedo em riste e as pessoas se aproximando. Márcia saiu de fininho.

Hoje, carrega uma garrafa com água e ração. Quando vislumbra algum cão necessitado estaciona, coloca água em um pote plástico que faz parte do socorro e põe um pouco de ração ao lado. Isso quando o trânsito, o tempo e o trabalho permitem. Ela me disse: “sei que não vou resolver o problema, mas pelo menos nessa hora ele come e bebe. Sei que não é o ideal, porém é o possível que consigo fazer.

Devem existir outras Márcias por aí. Pessoas que tornam o mundo melhor. Pessoas que têm atitude, que solitária e anonimamente vão espalhando amor e misericórdia por onde passam. São perfeitas, superiores, santas? Não. Apenas pessoas que se importam e assim fazem a diferença.




(05 de abril/2008)
CooJornal no 575


Sarita Barros
produtora cultural, escritora
Bagé