Sarita Barros
CACHORRO-QUENTE |
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Ontem sonhei que parava em um acostamento. Tudo asfaltado.
Nenhuma árvore por perto, nenhuma poça de água. Pensei: como os pássaros
vão beber? Voltei ao carro e peguei minha garrafa de mineral. Coloquei
água em um pote. Logo apareceu um passarinho, logo outro e mais outro.
Beberam.
Ao acordar lembrei um fato acontecido com Márcia (uma das
minhas cunhadas). Na época ela estava desempregada. Visitava empresas,
deixava currículos e fazia entrevistas. Essas coisas que todos já
enfrentamos alguma vez na vida. Nesse dia, quase a zero, pensou em voltar
para casa. Apesar do cansaço e do adiantado da hora resolveu cumprir a
agenda. Deu uma geral na bolsa e encontrou, além do dinheiro da passagem,
alguns trocados que davam exatamente para um cachorro-quente. Sem almoço,
recordou a lasanha da mãe, suspirou e disse baixinho: quando chegar como
tudo o que sobrou.
Comprou o dog e ao levá-lo à boca, seus olhos
encontram os de um cão faminto. O bicho parecia suplicar um pedaço. Era
uma cadela sarnosa de mamas murchas e caídas. Coitada, não tem nem leite
para os filhotes! E o cachorro-quente ali cheiroso. O estômago reclamando,
a boca salivando, os olhos súplices da cadela. Basta eu pegar o trem e
dentro de uma hora tenho banho, carinho, comida e cama quente, e ela?
Algum pontapé. Foi se abaixando e ofereceu o petisco ao animal que recuou,
olhou desconfiado, baixou mais a cola e encenou um passo. Criou confiança
deu o primeiro passo e logo outro. A mão continuava estendida. A cadela
olhou incerta, com medo de armadilha, de uma má ação. Estremeceu e avançou
a cabeça tomando a iguaria. Assim que a teve entre os dentes, agradeceu
com os olhos e saiu correndo de cola em pé.
Márcia suspirou erguendo-se. Era observada por uma mulher,
de aproximadamente 40 anos, que começou a vociferar contra “essas
riquinhas metidas a bestas que só para se exibirem dão comida de gente pra
cachorro de rua fedido e sarnoso que a carrocinha devia pegar para fazer
sabão criança pede esmola e ninguém dá nada e bicho pulguento ganha”.
A mulher continuou falando, dedo em riste e as pessoas se aproximando.
Márcia saiu de fininho.
Hoje, carrega uma garrafa com água e ração. Quando
vislumbra algum cão necessitado estaciona, coloca água em um pote plástico
que faz parte do socorro e põe um pouco de ração ao lado. Isso quando o
trânsito, o tempo e o trabalho permitem. Ela me disse: “sei que não vou
resolver o problema, mas pelo menos nessa hora ele come e bebe. Sei que
não é o ideal, porém é o possível que consigo fazer.”
Devem existir outras Márcias por aí. Pessoas que tornam o
mundo melhor. Pessoas que têm atitude, que solitária e anonimamente vão
espalhando amor e misericórdia por onde passam. São perfeitas, superiores,
santas? Não. Apenas pessoas que se importam e assim fazem a diferença.
(05 de abril/2008)
CooJornal
no 575