19/04/2008
Número - 577



ARQUIVO
SARITA BARROS

 

Sarita Barros



Existem heróis

Heróis anônimos. Guerreiros do cotidiano. Hoje vou falar de um. Ele é adolescente. Pouco mais que menino. Mas possui a garra, a determinação e a força de vontade do Hércules mitológico.

Quando o conheci teria cinco ou seis anos. Magrinho, vivaz, serelepe, inteligência aguda. Nasceu com um problema na medula. Caso raríssimo e sem volta. Muita possibilidade de não chegar ao primeiro mês de vida. O moleque corria claudicando, manquitolando e parecia não se importar com o desconforto. Enquanto crescia as dores aumentavam e com elas adensava-se a dificuldade em acompanhar os jogos infantis. Enfrentou, bravamente, várias cirurgias.

Porém não estava só nessa guerra. Seus pais e irmãos o assistiam com cuidado e firmeza. Sempre contou com o apoio da família, tanto a restrita como a abrangente. Eis que chega o momento crucial em plena adolescência: ficar preso a uma cadeira de rodas ou sofrer dores terríveis até o fim dos dias. Dores para as quais calmantes, acompanhamento e amor eram insuficientes. Após dias, meses de revolta, dores e frustrações Beto se decide pela, talvez última, intervenção.

Segue-se um período de trevas. Depressão, angústia e mais revolta. Sente-se um pássaro de asas cortadas. Quer alçar vôo e não consegue. Só ele pode falar do inferno que atravessou. A família em busca de melhor assistência translada-se de Bagé para Florianópolis. A mãe e o pai transmutam-se em esteio, abnegação e carinho. Não sei se pelas orações, pelo amor, quiçá por algum milagre, Beto encontra forças no centro de si mesmo para aceitar-se tal qual é: um jovem que para realizar-se, expressar-se neste mundo, não necessita ser igual aos outros.

Hoje, aos dezesseis, Beto é o cadeirante Roberto Alcalde Rodrigues, componente da Seleção Brasileira que representará o Brasil nos Estados Unidos. Pertence à equipe de natação. Cheio de alegria, confiança e luz levará consigo nossa bandeira e nossos corações. Não importa que lugar conquiste, é vencedor. Venceu seus medos. Seus preconceitos. Superou-se. Transformou olhares de comiseração em olhares de respeito. Não desperta dó e sim admiração.

Esse adolescente, sem o saber, colocou-me frente a frente comigo mesma. Eu que me julgava mente aberta e sem preconceitos, constatei que não me sentia confortável ao assistir competições desse gênero. Eu olhava o que era diferente, não enxergava o ser humano além das diferenças. Não via o ardor, a felicidade, a aceitação. Tão apegada a normosidade, como diz o Prof. Hermógenes, não percebia a singularidade que compõe a diversidade e leva à unidade no plano do Criador. Quero agradecer ao Beto e seus pares por terem me ajudado a ser uma pessoa um pouco melhor, ou menos pior. Namaste .




(19 de abril/2008)
CooJornal no 577


Sarita Barros
produtora cultural, escritora
Bagé