Sarita Barros
Existem heróis |
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Heróis anônimos.
Guerreiros do cotidiano. Hoje vou falar de um. Ele é adolescente. Pouco
mais que menino. Mas possui a garra, a determinação e a força de vontade
do Hércules mitológico.
Quando o conheci teria cinco ou seis anos. Magrinho, vivaz, serelepe,
inteligência aguda. Nasceu com um problema na medula. Caso raríssimo e sem
volta. Muita possibilidade de não chegar ao primeiro mês de vida. O
moleque corria claudicando, manquitolando e parecia não se importar com o
desconforto. Enquanto crescia as dores aumentavam e com elas adensava-se a
dificuldade em acompanhar os jogos infantis. Enfrentou, bravamente, várias
cirurgias.
Porém não estava só nessa guerra. Seus pais e irmãos o assistiam com
cuidado e firmeza. Sempre contou com o apoio da família, tanto a restrita
como a abrangente. Eis que chega o momento crucial em plena adolescência:
ficar preso a uma cadeira de rodas ou sofrer dores terríveis até o fim dos
dias. Dores para as quais calmantes, acompanhamento e amor eram
insuficientes. Após dias, meses de revolta, dores e frustrações Beto se
decide pela, talvez última, intervenção.
Segue-se um período de trevas. Depressão, angústia e mais revolta.
Sente-se um pássaro de asas cortadas. Quer alçar vôo e não consegue. Só
ele pode falar do inferno que atravessou. A família em busca de melhor
assistência translada-se de Bagé para Florianópolis. A mãe e o pai
transmutam-se em esteio, abnegação e carinho. Não sei se pelas orações,
pelo amor, quiçá por algum milagre, Beto encontra forças no centro de si
mesmo para aceitar-se tal qual é: um jovem que para realizar-se,
expressar-se neste mundo, não necessita ser igual aos outros.
Hoje, aos dezesseis, Beto é o cadeirante Roberto Alcalde Rodrigues,
componente da Seleção Brasileira que representará o Brasil nos Estados
Unidos. Pertence à equipe de natação. Cheio de alegria, confiança e luz
levará consigo nossa bandeira e nossos corações. Não importa que lugar
conquiste, é vencedor. Venceu seus medos. Seus preconceitos. Superou-se.
Transformou olhares de comiseração em olhares de respeito. Não desperta dó
e sim admiração.
Esse adolescente, sem o saber, colocou-me frente a frente comigo mesma. Eu
que me julgava mente aberta e sem preconceitos, constatei que não me
sentia confortável ao assistir competições desse gênero. Eu olhava o que
era diferente, não enxergava o ser humano além das diferenças. Não via o
ardor, a felicidade, a aceitação. Tão apegada a normosidade, como diz o
Prof. Hermógenes, não percebia a singularidade que compõe a diversidade e
leva à unidade no plano do Criador. Quero agradecer ao Beto e seus pares
por terem me ajudado a ser uma pessoa um pouco melhor, ou menos pior.
Namaste .
(19 de abril/2008)
CooJornal
no 577