10/05/2008
Número - 580



ARQUIVO
SARITA BARROS

 

Sarita Barros



Parábola

A espada foi feita para cortar, decepar, aparar. Esse é seu dharma. A espada não deve florir, nem costurar ou assar pães. A espada não pode suavizar seu corte. Nem deixar de ferir fundo. Cortar o que excede. Cortar para produzir vida e crescimento, ou para aleijar e matar. A espada comum é amorosa quando extirpa um câncer, um membro podre. A espada comum é maldosa quando corta o sustentáculo do outro, decepa cabeça ou membros sadios. Assim constrói seu karma, bom ou mau. Não importa se o piano, a rosa, o forno ou a agulha não a entendam. São outros instrumentos. Têm outros Karmas e Dharmas. Não importa se a repudiem ou aplaudam, que a amem ou caluniem. Cumpre sua missão – dharma.

Discernir o que deve ser cortado e o que deve ser preservado não é trabalho da espada. Esse trabalho é feito pela mão que a governa. A espada é o instrumento. O instrumento deve ser dócil à mão que o maneja. A espada comum não pode escolher a mão, é a mão que a escolhe. Porém pode mudar. Transformar-se em Espada Mágica.

Para essa ascensão terá de sofrer os duros golpes da marreta sobre a bigorna, passar pelo fogo da fornalha. Só nessa hora lhe é permitido ser flexível. A martelo e fogo a espada comum transmuta-se em Espada Magica. Transforma-se, não para deixar de cortar, mas para cortar mais fundo e com melhor precisão. Esse é seu Dharma.

O prêmio do seu esforço e sacrifício é o discernimento. O poder de escolha. Poderá escolher quem a governe. Excalibur só é dócil ao Guerreiro. Ao Senhor. Se mãos outras a quiserem segurar, recusa-se. Firma-se à pedra numa aparente inércia, porém está fundamentada em ahimsa. Em ativa paz. Só lhe interessa repousar nas mãos do seu mestre Guerreiro. Serví-lo com mestria. Sua amorosidade reside na docilidade da entrega. Velar para não cair em mãos outras. Em mãos erradas faz seu Karma, segue amarrada à roda das reencarnações – Samsara. Em mãos certas cumpre seu Dharma. Atinge o Samadhi, liberta-se.



(10 de maio/2008)
CooJornal no 580


Sarita Barros
instrutora de yoga, escritora
Bagé