07/06/2008
Número - 584



ARQUIVO
SARITA BARROS

 

Sarita Barros



Na contra-mão

Não, não vou falar sobre a mulher aquela que guiou nove quilômetros na pista contrária. Faz tempo ando pensando em não dar força à violência. Não colocar minha energia nela. Hoje lembrei uma frase atribuída à irmã Tereza de Calcutá. Dizem que uma vez inquirida sobre determinada passeata contra não sei qual guerra, respondeu: “jamais eu participaria de uma passeata contra a guerra, se fosse a favor da paz, sim”. Não sei se realmente aconteceu tal diálogo, porém é uma resposta sábia.

Eu de Madre Tereza nada tenho, a não ser, talvez, essa ojeriza pela violência. Então tomei a resolução: não mais falarei nela. Farei o possível para manter-me fiel ao mandado. Se isso for alienação, serei alienada.

Cá pra nós, que ninguém nos ouça, o assunto fica mais difícil. Porque jornais e a mídia em geral, veiculam notícias ruins. Parece que felicidade e bom caratismo não dão ibope. A centenária salva na China saiu rapidinho do centro das atenções. Estamos viciados em tragédias. Dizem que o Governo pagou a dívida externa que se arrastava desde o Império. Ouvi uma só vez e ninguém aplaudiu. Não espocaram foguetes e fogos de artifício não enfeitaram os céus. Fico pensando: será que ouvi certo? Tanto que nem comentei com quem quer que seja, vai ver que não é. Não era para o próprio Governo estar se pavoneando? Não foi comemorado por quê?

Isso é que nem amor. Ninguém considera que um amor é grande, lindo, maravilhoso se não houver choro, lágrimas e ais. Para ser um verdadeiro e inabalável amor um tem de humilhar-se e arrastar-se em função do outro. Tem de haver submissão, vítima e vitimador. Bodas de ouro é caretice. Respeito, carinho, compreensão e solidariedade não qualificam, com cinco estrelas, uma relação. Porém se houver traição, barraco e arranca rabo com mega-dose de ciúme, esse sim é um verdadeiro e único amor. Mirem-se nas novelas da Globo e outras tais.

O cidadão que levanta às cinco e chega em casa por volta das vinte e duas, será considerado bom pai de família e esposo? Periga a sogra chamá-lo de paspalho e sem visão. E enaltecer as virtudes de um pilantra qualquer desde que tenha os bolsos cheios de reais, bem havidos ou não.

Viram só como é difícil? Estou matraqueando adoidado e, por enquanto só malhei. Não enalteci neguinho algum. Mas qualquer dia tomo jeito. O negócio é saber olhar e escutar. Treinar os sentidos para as coisas agradáveis, sadias e histórias com finais felizes, meios felizes e inícios felizes.

 

(07 de junho/2008)
CooJornal no 584


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Sarita Barros
instrutora de yoga, escritora
Bagé