Sarita Barros
Cães humanos x humanos cães |
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Lendo a crônica do Simões, (07/6/08), me deparei com um
tema que às vezes também entra em minhas cogitações. Seremos tão racionais
como nos jactamos? Ou nos chamamos “racionais” porque não conseguimos
decifrar o código das outras espécies?
Um dos meus sobrinhos tem uma beagle que é
apaixonada por ele. Basta ele chegar em casa que a cadelinha vem correndo
e se aboleta no colo. Se ele a corre, fica a dois metros olhando-o
fascinada. Não sai da adoração nem para comer. Só se ele a levar ao prato.
Sozinha em casa trata de se aninhar no lado em que ele dorme, ou em um
chinelo ou peça de roupa. Se fica um instante sem ninguém no carro, pula
para o banco do motorista. Minha sobrinha foi quem sempre se ocupou da
Lua, mas a cachorrinha só quer saber dele. Outro dia a June me disse “tia
com aquela manhã linda de ontem (depois de uma semana cinza) chamei a Lua
para tomar sol e brincar um pouco na grama, quem diz que a cadela sem
vergonha veio? O sol dela é o meu marido”.
Tive a oportunidade de conhecer um vira-lata, em Porto
Alegre, que só atravessava as ruas nas faixas de segurança e quando o
sinal abria. Quem o ensinou? Possivelmente a observação e a experiência.
Outro dia freei em cima de um cachorro de rua, pude ver o olhar de pânico
com que ele me olhou e o de agradecimento quando consegui parar sem
feri-lo. Nunca pensei que um bicho pudesse manifestar sentimentos tão
claramente. O olhar de pavor ante a morte anunciada até posso entender,
mas, e aqueles olhos doces e agradecidos? De certa forma soube que eu o
havia poupado. Foi um dos olhares mais eloqüentes que já recebi.
Semelhante ao que me endereçou uma viúva em Vindravana (Índia) quando lhe
dei dez rúpias. Na época o real valia 15 rúpias. Ela deu um grito, um
salto e caiu de joelhos querendo beijar meus pés. Fiquei paralisada e o
guia me puxou para dentro de uma loja e me retirou pela porta dos fundos.
Saímos por uma travessa. Ele brigando comigo. Já nos recomendara não dar
esmolas, para não sermos cercados. Deveríamos passar pelos pedintes “como
se não existissem”. “Não os olhem, não deixem que os olhos deles
encarem os de vocês, se perceberem algum sentimento de piedade estamos
perdidos, porque uma multidão nos seguirá o tempo todo”. Essas
recomendações eram dadas a todo o momento. É justo? É racional? É humano?
Até hoje não sei se o cão me olhou com sentimento humano, ou aquela anciã,
magra e famélica, me olhou com sentimento canino.
Onde há vida há movimento e inteligência. Daniel Goldman
abriu a discussão sobre outras formas de inteligência com o seu livro
“Inteligência Emocional”. Quem somos nós para decretarmos que só nosso
ponto de vista é o verdadeiro? Seremos racionais quando exaurimos o
planeta? Quando colocamos qualquer bem acima da vida humana? A nossa razão
beira à loucura. Muitas vezes é mais insana que a desrazão (os iraquianos
que o digam).
(14 de junho/2008)
CooJornal no 585