Sarita Barros
PARÁBOLA II |
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Era uma vez... um tigre na floresta. Circulava à vontade
pela mata, dormia no cimo das árvores, bebia água límpida e se banhava na
cachoeira. Nunca faltou caça. Abençoado por Tupã, que era. Todos o
respeitavam. Encantava-se com os sons da natureza. Sentia enorme alegria
ao ouvir o matraquear das gralhas, o canto dos sábias, o rouge-rouge
das folhas, o zumbido dos insetos. Era um com o ambiente.
Um dia algo inusitado aconteceu. Chegaram animais estranhos com peles
sobre peles, trocadas a bel prazer. Sua companheira, linda tigresa de pele
brilhante e movimentos graciosos, ficou muito curiosa e quis fazer contato
com a nova espécie. Ele a advertiu. Convinha esperar mais alguns dias.
Achava que era cedo para estabelecer contato. Precisavam saber mais acerca
desses animais que em vez de usarem garras, utilizavam um pau de fogo para
caçar. E abatiam mais do que precisavam. Precisava investigar. Estava
estabelecendo uma relação entre eles e as enormes clareiras que surgiam
inesperadamente. Em pouco tempo o índice de mortalidade na floresta, tanto
da fauna como da flora, aumentara de forma assustadora. O êxodo também...
Ela insistiu, disse não haver problema, que os observara e viu não
possuírem garras. Que eram frágeis sem os acessórios. Que não se acercaria
demasiado. Ficaria de longe, só na espreita. Estendeu-se no ar como uma
mola e saltou para outra árvore. Pouco depois o tigre ouviu o trovão dos
visitantes. Sentiu um aperto no coração. Contemplou sua amada
despencando-se na clareira. Os bichos fizeram uma algaravia enorme e
puseram-se em volta dela pulando e dançando. Um deles aproximou-se
levantando o pau de fogo. Trovejou três vezes. O tigre soube quem matara
sua consorte. Assistiu outro animal aproximar-se com uma lâmina brilhante
e rasgar aquele belo corpo de cima a baixo. Fechou os olhos. Desviou a
cabeça. Sentiu imensa ira. Um ódio que nunca experimentara antes.
Nascera com o dom de caçador. Precisava cuidar da família. Carnívoros
comem herbívoros. Todos sabem disso. Agora sentia enorme desejo de matar.
Esperou. Viu aquela preciosa pele ser desprendida dos músculos. Pele macia
de pêlo lustroso. Pele sem marca ou cortes. Pele íntegra e perfeita que
foi estaqueada num cruzeiro, para secar ao sol. Anoiteceu.
O dia encontrou aos pés da cruz dois corpos dilacerados. Seus donos
tiveram as gargantas rasgadas por dentes afiados. Junto a eles estavam um
fuzil e um punhal. As roupas esfrangalhadas jaziam amontoadas. Quando os
rapazes levantaram puseram-se a vociferar indignados. Choraram abraçados
aos corpos do pai e do amigo. Atiraram a esmo. Raivosamente. Clamavam ante
a injustiça. Uivaram de dor.
(05 de julho/2008)
CooJornal no 588