05/07/2008
Número - 588



ARQUIVO
SARITA BARROS

 

Sarita Barros

 

PARÁBOLA II

Era uma vez... um tigre na floresta. Circulava à vontade pela mata, dormia no cimo das árvores, bebia água límpida e se banhava na cachoeira. Nunca faltou caça. Abençoado por Tupã, que era. Todos o respeitavam. Encantava-se com os sons da natureza. Sentia enorme alegria ao ouvir o matraquear das gralhas, o canto dos sábias, o rouge-rouge das folhas, o zumbido dos insetos. Era um com o ambiente.

Um dia algo inusitado aconteceu. Chegaram animais estranhos com peles sobre peles, trocadas a bel prazer. Sua companheira, linda tigresa de pele brilhante e movimentos graciosos, ficou muito curiosa e quis fazer contato com a nova espécie. Ele a advertiu. Convinha esperar mais alguns dias. Achava que era cedo para estabelecer contato. Precisavam saber mais acerca desses animais que em vez de usarem garras, utilizavam um pau de fogo para caçar. E abatiam mais do que precisavam. Precisava investigar. Estava estabelecendo uma relação entre eles e as enormes clareiras que surgiam inesperadamente. Em pouco tempo o índice de mortalidade na floresta, tanto da fauna como da flora, aumentara de forma assustadora. O êxodo também...

Ela insistiu, disse não haver problema, que os observara e viu não possuírem garras. Que eram frágeis sem os acessórios. Que não se acercaria demasiado. Ficaria de longe, só na espreita. Estendeu-se no ar como uma mola e saltou para outra árvore. Pouco depois o tigre ouviu o trovão dos visitantes. Sentiu um aperto no coração. Contemplou sua amada despencando-se na clareira. Os bichos fizeram uma algaravia enorme e puseram-se em volta dela pulando e dançando. Um deles aproximou-se levantando o pau de fogo. Trovejou três vezes. O tigre soube quem matara sua consorte. Assistiu outro animal aproximar-se com uma lâmina brilhante e rasgar aquele belo corpo de cima a baixo. Fechou os olhos. Desviou a cabeça. Sentiu imensa ira. Um ódio que nunca experimentara antes.

Nascera com o dom de caçador. Precisava cuidar da família. Carnívoros comem herbívoros. Todos sabem disso. Agora sentia enorme desejo de matar. Esperou. Viu aquela preciosa pele ser desprendida dos músculos. Pele macia de pêlo lustroso. Pele sem marca ou cortes. Pele íntegra e perfeita que foi estaqueada num cruzeiro, para secar ao sol. Anoiteceu.

O dia encontrou aos pés da cruz dois corpos dilacerados. Seus donos tiveram as gargantas rasgadas por dentes afiados. Junto a eles estavam um fuzil e um punhal. As roupas esfrangalhadas jaziam amontoadas. Quando os rapazes levantaram puseram-se a vociferar indignados. Choraram abraçados aos corpos do pai e do amigo. Atiraram a esmo. Raivosamente. Clamavam ante a injustiça. Uivaram de dor.

 

(05 de julho/2008)
CooJornal no 588


Sarita Barros
instrutora de yoga, escritora
Bagé


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