
26/07/2008
Número - 591 
ARQUIVO
SARITA BARROS
|
Sarita Barros
Jantar inesquecível |
 |
Quando criança não podia entender por que Dona Mozinha chorava por não ter
mais pai. Comentei com meu mano: uma velha só pode não ter pai, por que
chora?
Vai vê... ora sei lá! Que guria chata essa, tenho de treinar meus biroços!
E lá fui eu para o galho de meditação que ficava no limoeiro. Onde eu
procurava entender a vida.
Pai. Eu tinha um orgulho danado do meu. Era forte, alto, bonito, elegante
e tudo o mais. Sim. A Da. Mozinha só podia mesmo chorar. Coitada! Eu tinha
o amor do meu pai. Quando caía e abria o berreiro, ele me socorria. Fazia
um curativo, ou dizia: não é nada; quando casar, sara. Nesse momento é que
eu me lavava chorando. Quando casar! Quando casar? Então ele me punha no
colo e contava uma história. Ótimo contador de histórias. A maioria,
inventadas por ele. A mãe dizia: Osvaldo, estás deixando essa guria muito
manhosa. Só chora quando estás por perto.
- Ora, deixa a minha beleza chorar, com essas lágrimas o pai vai fazer o
colar mais bonito do mundo, não é princesinha? Vamos colocar esse colar
mais brilhante que as estrelas no pescoço da mãe? Ela vai ficar linda com
ele, não é? Eu ria. Gargalhava, batia palmas. Choro? Cadê choro?
Ele passava o dia no quartel. Sargento. Ganhava o estritamente necessário.
Tínhamos apenas dois pares de sapatos. Um para o inverno e outro para o
verão. Roupas a mãe mesmo cozia. Mesa farta era um dos luxos. O outro era
o amor. Eu sempre me senti sob um enorme guarda-chuva de amor.
Certa vez passou pela minha rua uma coleguinha puxando o pai dela pela
mão. Na escola não brincávamos com ela. Roupa desalinhada, sapato cambão e
olhos de desespero. A mãe me disse que ajudava a família dela. Eu não
sabia.
- O pai dela não trabalha?
- Não. Ele bebe. Pega o dinheiro dos doces, que a mulher faz, e só volta
quando bebeu tudo. Até bate neles. Fiquei com uma pena danada. Como eu era
feliz! No outro dia fui brincar com ela. Foi um dos sorrisos mais bonitos
que já recebi. Valeu a quarentena que as outras me impuseram.
Tive uma amiga que não tinha pai. Não que houvesse morrido. Ela não sabia
quem era. Esse caso me valeu muito tempo no galho de meditação. Como
alguém podia não saber como era o pai? Nunca ter visto o pai? Não
entendia. Meu irmão me mandou catar qualquer coisa. Perguntei pro pai.
- A vida tem muitos mistérios minha filha. Alguns só o tempo elucida. Esse
é um.
- Mas, ela diz que sente falta do beijo de pai, não sabe como é.
- Diz que venha me beijar. Eu disse e ela veio. Se jogou nos braços do
meu pai e chorou, chorou, chorou. Ganhou beijos, sorrisos e uma bala de menta.
- De hoje em diante o senhor vai ser meu pai. Vou dizer pra mãe. Antes de
sair pulou no pescoço dele para mais um beijo. Senti uma pontada no peito.
Uma raiva danada. Um aperto na garganta. Um calor subindo pelo corpo. Toda
eu inchava.
- Meu bem, acompanha tua amiguinha. Fui de má vontade e bati com a porta.
Ele sorriu, se abaixou, me apanhou e colocou no sofá ao seu lado. Minha
filha tu és a minha princesa, meu tudo, o pai morre por ti. Não precisas
ficar com ciúmes. Foste egoísta e mal educada. Que culpa tem ela? Esse
abraço e beijo foi Deus quem deu através de mim. Ele é o Pai de todos nós.
Vai convidar a menina para jantar com a gente. Fui. Jantamos. Ela rindo
feliz. Eu fazendo o possível. Que janta demorada!
(26 de julho/2008)
CooJornal no 591
Sarita Barros
instrutora de yoga,
escritora
Bagé
Direitos Reservados
|
|