24/04/2010
Ano 13 - Número 681

 

ARQUIVO
SARITA BARROS


Sarita Barros


Sanguessuga


Sarita Barros, colunista - CooJornal

A sanguessuga é um bicho muito velho. Contemporânea dos dinossauros. Existem centenas de espécies. Algumas venenosas. A última etapa do nosso curso foi a aula sobre rakta Moksha (sangria). Diversos métodos. O mais tradicional, em Kerala, com auxílio desses anelídeos.


O principal motivo de serem usadas (as não venenosas, claro) é que têm um incrível poder de não serem contaminadas. Em Boston há uma equipe de cientistas muito interessada nela. É que o bichinho não se contamina nem sendo usada em aidéticos. Querem isolar o fator “imunidade”. Até começos do século passado foi comum o seu uso na Europa. Na Inglaterra ela (a sanguessuga) nunca perdeu o prestígio, de todo. Alguns médicos ainda as carregam em suas maletas, pois, também cauterizam a ferida. Aqui é proibido, por lei.

Depois da aula teórica, veio a pergunta: quem se habilita? Duas corajosas voluntárias surgiram. Espanto. Da nossa parte e da equipe. Normalmente não aparece voluntário e um membro do hospital é que se sujeita à demonstração. O problema é que só uma sanguessuga se apresentou. As candidatas ao procedimento começaram a elencar motivos para. Nunca uma sanguessuga sentiu-se tão importante! O grupo dividiu-se. Fulana merece, desde o começo esperava por este momento. Sicrana também. Fulana precisa mais... Veio a turma da conciliação. Como uma das candidatas ficaria por lá alguns meses, declinou em favor da que voltaria conosco.

Na hora aprazada todos de máquinas em mãos. A bichinha seria posta na perna, próximo a uma mancha. A médica deu um pique e colocou a ventosa sobre a gotinha de sangue. A sanguessuga ficou mamando.
– Dói?
– Nem um pouquinho.
Logo a seguir a terapeuta fez um cobertorzinho de algodão, embebeu em água pura e colocou sobre a sanguessuga. Ela não sobrevive fora dágua. Ficou parecendo uma noiva envolta em véus. E foi inchando e agrandando. Depois de algum tempo, estava com o corpo dobrado e a moça sentiu uma coceira. Hora de terminar. Para que se desgrudasse foi colocado açafrão em pó na cabecinha dela. São alérgicas a açafrão, então, tonteou e se desgrudou caindo sobre o recipiente que a esperava.


A médica colocou uma gaze com esparadrapo na perna da nossa colega e mais açafrão na sanguessuga que começou a vomitar o ingerido. Foi se arrastando e perdendo sangue. Parecia um combatente ferido mortalmente. O rastro foi sendo desenhado e mais pó na representante da classe dos Hirudíneos, até que todo o sangue fosse expelido. Com uma pinça a colocaram em outra cuba para que se limpasse e depois transferida para o vidro com água limpa de onde viera. Vidro esse que foi etiquetado com data e hora.




(24 de abril/2010)
CooJornal no 681


Sarita Barros
escritora, instrutora de yoga
Bagé, RS

sarita.b@terra.com.br
www.culturasulbage.com.br 
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/sarita-barros.htm



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