A sanguessuga é um bicho muito velho. Contemporânea dos dinossauros. Existem
centenas de espécies. Algumas venenosas. A última etapa do nosso curso foi a
aula sobre rakta Moksha (sangria). Diversos métodos. O mais tradicional, em
Kerala, com auxílio desses anelídeos.

O principal motivo de serem usadas (as não venenosas, claro) é que têm um
incrível poder de não serem contaminadas. Em Boston há uma equipe de
cientistas muito interessada nela. É que o bichinho não se contamina nem
sendo usada em aidéticos. Querem isolar o fator “imunidade”. Até começos do
século passado foi comum o seu uso na Europa. Na Inglaterra ela (a
sanguessuga) nunca perdeu o prestígio, de todo. Alguns médicos ainda as
carregam em suas maletas, pois, também cauterizam a ferida. Aqui é proibido,
por lei.
Depois da aula teórica, veio a pergunta: quem se habilita? Duas corajosas
voluntárias surgiram. Espanto. Da nossa parte e da equipe. Normalmente não
aparece voluntário e um membro do hospital é que se sujeita à demonstração.
O problema é que só uma sanguessuga se apresentou. As candidatas ao
procedimento começaram a elencar motivos para. Nunca uma sanguessuga
sentiu-se tão importante! O grupo dividiu-se. Fulana merece, desde o começo
esperava por este momento. Sicrana também. Fulana precisa mais... Veio a
turma da conciliação. Como uma das candidatas ficaria por lá alguns meses,
declinou em favor da que voltaria conosco.
Na hora aprazada todos de máquinas em mãos. A bichinha seria posta na perna,
próximo a uma mancha. A médica deu um pique e colocou a ventosa sobre a
gotinha de sangue. A sanguessuga ficou mamando.
– Dói?
– Nem um pouquinho.
Logo a seguir a terapeuta fez um cobertorzinho de algodão, embebeu em água
pura e colocou sobre a sanguessuga. Ela não sobrevive fora dágua. Ficou
parecendo uma noiva envolta em véus. E foi inchando e agrandando. Depois de
algum tempo, estava com o corpo dobrado e a moça sentiu uma coceira. Hora de
terminar. Para que se desgrudasse foi colocado açafrão em pó na cabecinha
dela. São alérgicas a açafrão, então, tonteou e se desgrudou caindo sobre o
recipiente que a esperava.

A médica colocou uma gaze com esparadrapo na perna da nossa colega e mais
açafrão na sanguessuga que começou a vomitar o ingerido. Foi se arrastando e
perdendo sangue. Parecia um combatente ferido mortalmente. O rastro foi
sendo desenhado e mais pó na representante da classe dos Hirudíneos, até que
todo o sangue fosse expelido. Com uma pinça a colocaram em outra cuba para
que se limpasse e depois transferida para o vidro com água limpa de onde
viera. Vidro esse que foi etiquetado com data e hora.
(24 de abril/2010)
CooJornal no 681