16/01/2021
Ano 23 - Número 1.206

 

Sergio Faraco



O CHUPIM
 

 

 

Temos algumas árvores em nosso pátio. Na primavera, aninham na ramaria muitas espécies de pássaros, sobretudo os sabiás. As cambacicas, aqui no Sul conhecidas por sebinhos, preferem a casinhola que pendurei sob um beirado, ao passo que os tico-ticos costumam procriar num recanto atufado de bambu chinês. Vez por outra, o vento que sopra do rio sacode a galharada e um filhote vem ao chão. Já salvamos alguns, lembro-me de uma andorinha que encontramos durante a chuva, estatelada numa poça d’água.

Na última primavera, uma fêmea de chupim pôs seu ovo no ninho de um tico-tico. O chupinzinho nasceu, logo começou a dar-se ares e era uma graça vê-lo no gramado, a bater asas e abrir o bico quando a diligente mãe adotiva, com a metade de seu tamanho, vinha trazer-lhe a comidinha. “Que folgado”, eu dizia. Estando sempre à vista, ganhou um nome, digamos, ligeiramente óbvio: Chupim. Crescia e, embora já se abalançasse a mais ousados voos, aquerenciou-se. Se cruzava a rua, visitando o terreno baldio e macegoso que havia defronte, ou se explorava o matagal ao lado, sem demora regressava, acompanhando a passarinha a curta distância.

Um dia, exaurida, quem sabe, a mamãe desapareceu. E como Chupin, aparentemente, não compreendera as lições recebidas na língua dos tico-ticos, e andava de cá para lá como perdido e meio arrepiado, coloquei uma tigela num cepo e diariamente o abastecia com alpiste ou painço, que ele partilhava com as rolinhas-picuí. Pude notar, então, que o via próximo de mim com demasiada frequência. Ao irrigar as folhagens, às vezes o molhava. Ao aparar a grama, precisava cuidar para não atropelá-lo, pois nem o ruído da máquina o assustava. Espantava-o, ele voltava. Cheguei a suspeitar de que seu interesse era pelos insetos que o corte desvelava, mas se me sentava no chão para descansar, dava com ele ao alcance da mão, parado, olhando-me.

Em certa manhã de fevereiro, não o encontrei no horário em que costumo trabalhar no jardim. Nos dias seguintes, também não. Não sei o que lhe aconteceu, Chupim era tão confiante, mas suspeito de que percebeu que eu era diferente dele e saiu à procura de outra mãe. Ou talvez tenha ido para o Morro do Osso, que se vê de meu pátio, em busca de sua Chupinha. Sabe meu coração, no entanto, que ainda hoje lhe sinto a falta e a cada manhã o procuro na tigela entre as rolinhas.ossa literarelo.




Sergio Faraco, RS
É escritor e  bacharel em Direito.
Cursou o Instituto Internacional de Ciências Sociais, em Moscou.
Entre seus livros, citamos: A Dama do Bar Nevada (Prêmio Galeão Coutinho), A Lua com Sede (Prêmio Henrique Bertaso), Dançar Tango em Porto Alegre (Prêmio Nacional de Ficção, conferido pela ABL).


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