16/09/2018
Ano 21 - Número 1.093

 

ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões



SAUDADES DE RUBEM ALVES

Francisco Simões, colunista - CooJornal


Agora que eu cheguei aos 82 anos ainda mais me recordo de Rubem Alves. O grande escritor brasileiro costumava dizer de suas mágoas, escrevia sobre seus gostos e desgostos, etc. Ele era muito franco, muito sincero, e isto eu sei que desagrada a muita gente, com certeza.

Escreveu artigos maravilhosos entre outras obras. Rubem jamais deixou de ser sincero e leal a seus princípios e quando se percebeu entrado mesmo na tal velhice, como ele mesmo confessa, resolveu então abrir ainda mais os seus sentimentos e expô-los com a maior sinceridade, tão própria dele.

Sem querer nem de longe me comparar com aquele Mestre, pois conheço minhas muitas limitações e fraquezas, não posso deixar de agora, também entrado ainda mais na tal velhice, usar palavras do Mestre Rubem Alves com todo o respeito que ele merece. Antes de mais nada eu registro aqui minha saudade a ele.

Digo que eu também tenho gostos e desgostos dessa realidade em que estamos incluídos e na qual temos que conviver. Rubem Alves certa vez escreveu e divulgou talvez o texto mais verdadeiro e corajoso de sua autoria. O título é “Ganhei Coragem”, algo em que discorre fartamente sobre seus sentimentos positivos e negativos em cima de nossa realidade.

Rubem não só fala de si como compara o povo de hoje com o do começo deste mundo lembrando fatos e mostrando que pouco mudou quando as pessoas deixam de lado sua individualidade e se unem numa personalidade grupal até para gritar o tal slogan de “O povo jamais será vencido.” Ele confessa que isto é das coisas que mais o assustam, ou assustavam. Vejam como o tal “povo” se comportou no julgamento de Cristo. E ele relata os fatos da época com total propriedade.

Rubem Alves diz do que gosta e do que não gosta com muita coragem, aliás, coragem, como o próprio confessa no tal artigo, que adquiriu então ao se perceber na tal velhice, quando, segundo ele, julgou que poderia dizer tudo, abrir seu coração, mesmo indo contra a opinião de tantos.

Nada o incomodava mais, afinal ele então podia ser mais autêntico que nunca e assim ele o foi. O artigo “Ganhei Coragem” eu o tenho guardado comigo e se alguém que eventualmente não o conheça desejar lê-lo pode me pedir que eu o enviarei, sem problemas.

Já li e reli diversas vezes e percebo que eu, mesmo tendo chegado nos 82 anos, mesmo as pessoas dizendo que eu pareço ser bem mais novo do que a idade real que tenho, confesso que concordo com Rubem Alves em alguns gostos e também com algumas das coisas por ele citadas e que afirma não gostar. Falta-me é coragem, que sobrou a ele, para abrir tanto meu coração neste momento.

Assim eu vou levando meus gostos e desgostos só comigo, na minha intimidade, sabendo que alguns discordam do que eu falo, ou do que eu faço algumas vezes, mas isto para mim, para o meu íntimo hoje não pesa tanto como já pesou antes. Se algumas vezes eu não tenho o reconhecimento que já tive antes, não importa, vou vivendo com o meu passado, pois o que eu fiz, certo e/ou errado, constitui a minha vida e me trouxe hoje a pouco mais de oito décadas de um viver de que eu me orgulho. Não comemoro nada, isto não, porém sei que não tem sido um viver inútil.

Desde muito jovem eu segui os meus instintos, os meus desejos, a vontade imensa de fazer o que eu acabei fazendo muito antes do que outros esperavam que eu um dia fizesse. Agora lendo e relendo aquele artigo do Mestre Rubem Alves considerado como o desabafo de um grande pensador, eu me considero uma célula bem pequenina junto a quem com imenso talento não só viveu e escreveu sobre seus sentimentos como jamais vi alguém fazer.

Saudades muitas de Rubem Alves, realmente um Mestre das palavras e do pensamento mais significativo que eu conheço. Não só tiro meu chapéu a ele como me desfaço da minha insignificância para o reverenciar sempre.






Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
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