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17/05/2013
Ano 16 - Número 840

ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética
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Francisco Simões
HÁ SIM PESSOAS INSUBSTITUÍVEIS
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Durante boa parte de minha vida
eu ouvi alguns dizerem que não há pessoas insubstituíveis, enquanto outros
defendiam que elas existem sim. Cheguei a acreditar mesmo que ninguém seria
insubstituível, hoje já não creio nisso e tenho fortes motivos para ter mudado
de opinião.
Nos trinta anos que trabalhei no Banco do Brasil era muito comum dizerem que
fulano ou beltrano eram ótimos funcionários, ou ótimos chefes, porém não eram
insubstituíveis. Muita gente acreditava nisso convictamente e eu também achava
que a assertiva tinha sua razão de ser.
Afinal por melhor que este ou aquele colega desempenhasse muito bem a função
que lhe era atribuída um dia ele mudaria de cargo e outro logo viria para o
seu lugar. Era uma rotina inevitável. Vi isso acontecer diversas vezes e na
maioria dos casos realmente os que assumiam não decepcionavam.
Eu mesmo exerci diversas funções e mais pra frente, ainda no BB, diversos
cargos, alguns de responsabilidade em Departamentos diferentes. Quando eu
mudei de cargo ou função nem sempre pude depois saber como se saiu o meu
substituto, mas em outros casos comprovei que eram elogiados. Isto não me
diminuía, de forma alguma, quando muito fazia justiça aos substitutos, claro.
A última vez que tal mudança se deu foi pouco antes de minha aposentadoria. Eu
trabalhava no Gabinete da Presidência da PREVI, do BB, com o meu amigo
professor Amaro como Presidente. Ao meu lado outro colega da antiga, o nosso
bom Lula, o Luiz Carlos, que era o Chefe de Gabinete. No ano de 1986 eu decidi
me aposentar e alguém iria ocupar meu cargo quando eu saísse lógico.
Fiquei sabendo muito tempo após que outro grande amigo da antiga ocupara a
função que eu exercera até me aposentar. Foi o Orlando Barcelos, gente da
melhor qualidade e meu amigo até hoje. Realmente eu não era nem pretendia ser
insubstituível. Depois soube que ele se desincumbiu muito bem daquele cargo.
Competência não lhe faltava, pelo contrário.
Se mudarmos nosso foco para o campo da literatura, da música e/ou das artes em
geral, acredito que aí se aplique a máxima de que alguém seja insubstituível.
É claro que sempre haverá aquele ou aquela que, por seu imenso talento, por
sua criatividade, pela trajetória que tiver deixado dificilmente um dia alguém
poderia, ou poderá tomar o seu lugar, digamos assim, no cenário em que atuou.
Ainda outro dia eu ouvi um comentarista dizer, num debate na rádio CBN, que
existem sim pessoas que são insubstituíveis mesmo quando se vão dessa vida.
Entre seus argumentos ele citou dois exemplos que acredito possam ser
unanimidade em opinião. E não será uma “unanimidade burra”, (como diria o
saudoso Nelson Rodrigues) com certeza que não.
Ele se referia, em particular, a esses dois “monstros”, no melhor dos
sentidos, falecidos recentemente: Chico Anísio e Millôr Fernandes. O trabalho
que Chico Anísio desenvolveu durante toda sua vida no humor ninguém antes o
alcançara e jamais alguém chegará sequer , como se diz, ao seu calcanhar.
Tivemos grandes humoristas no passado, é verdade, cada um dentro do seu
estilo, todavia Chico Anísio teve o grande mérito de criar inúmeros
personagens além de se preocupar sempre em abrir espaço para dar trabalho a
colegas que eventualmente estavam sem emprego. Além de tudo o bom Chico fez
escola.
Quando vejo o tal “humor” que hoje é tão apregoado e praticado especialmente
em TVs como a Globo, pelo amor de Deus, dá mais vontade de chorar do que de
rir. Só faço exceção a uns três da antiga que ainda permanecem ali se
submetendo a script nem sempre à altura do talento deles, mas, que fazer?
Trabalhar é preciso.
E há dois, ditos humoristas, que “inventaram” o programa “Os caras de pau”. O
título diz bem o que penso deles, até porque já houve um filme (anos 80) com
dois atores americanos que trabalharam numa série de dois ou três filmes de
sucesso com o título “Os irmãos cara de pau”. Até o tipo dos dois atores
principais os brasileiros resolveram imitar, e muito mal imitado. Que lástima.
Quanto a Millôr Fernandes coloco aqui o que disse no velório dele seu irmão
Hélio: “Millôr vai reabrir a discussão sobre duas palavras: genial e
insubstituível". Ele estava certo. É o que penso também. Quantos
pronunciamentos eu li e ouvi de pessoas que nos merecem o maior respeito
afirmando ser ele mesmo insubstituível. Millôr só existiu um, jamais haverá
alguma cópia fiel, jamais.
Na nossa literatura e na MPB temos vários escritores, poetas, compositores,
alguns emergidos de níveis sociais menos favorecidos que passaram por esta
vida deixando sua marca indelével. E não são poucos. Serão sempre
insubstituíveis. Para citar nomes e ser justo eu precisaria de muito mais que
um texto desses.
Já na política, por exemplo, creio ser muito difícil a gente encontrar alguém
realmente insubstituível, no melhor sentido desta palavra. Tão difícil que
algumas poucas linhas já pareceriam um infinito vazio de nomes ou um deserto
de incertezas e corrupção. Mas a corrupção seria uma marca só dos políticos?
Vejam o que disse certa vez o nosso grande Rui Barbosa: “No Brasil existem
muitos eleitores corruptos exigindo políticos sérios e honestos”. Aqui vai
carapuça para todos os tamanhos e gostos. Eleitores do Brasil, por favor,
calma na hora de levantar e apontar o vosso dedinho para qualquer político,
sim? Lembrem sempre do Rui Barbosa.
E para encerrar permito-me lembrar outro brasileiro que também será sempre
insubstituível na sua verve humorista e inigualável, o nosso saudoso Luis
Fernando Veríssimo. Certo dia ele escreveu: “Brasil, esse estranho país de
corruptos, sem corruptores.” Depois disto confesso que peço o meu chapéu e me
recolho a minha insignificância ou “insignipartência”. Tchau.
(17 de maio/2013)
CooJornal nº 840
Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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