15/04/2017
Ano 20 - Número 1.025

 

ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões


POIS É!

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal




Outro dia me encontrei com ele, um amigo da juventude que eu não via faz muito tempo. A vida passou e muito tanto para mim como para ele, claro. Os anos pesaram ao que me pareceu mais nele do que em mim.

Começamos a conversar relembrando muito do que fizemos juntos e revelamos os nossos segredos antes guardados bem escondidos. Foi muito bom e estendemos nossos comentários à vida em geral emitindo nossas opiniões sobre tudo que está aí. Percebi que nisso concordamos.

Não podíamos deixar de falar sobre os amores que nos fizeram felizes, sobre as ilusões que nos desviaram do rumo certo, mas nunca caímos em total desgraça, jamais, pois sempre soubemos conduzir-nos no caminho da retidão embora procurando alívio algumas vezes em trilhas nada recomendáveis. Foi o caso do meu amigo.

Se nos deixamos algumas vezes arrastar por um ou outro desejo podem crer que havia sempre embutido naquele sentimento algo mais ainda que amor não fosse.

Olhamos para trás e comentamos como a vida passou tão rápida ou nos deu esta impressão já que de repente vivemos tanto e tanto a ponto de alcançarmos o que alguns diriam ser a velhice, mas para nós é apenas uma continuação de um viver que nunca se sabe até quando vai.

Eu já estou aposentado há mais de 31 anos, porém sempre me mantendo atuante seja escrevendo seja falando seja lendo, enfim recebendo algumas vezes esta ou aquela glória que vivi no passado das quais me orgulho até hoje. Não pretendo parar de ser produtivo e espero que a vida me permita continuar atuante.

Já o meu amigo me confessou que após seguidas desilusões amorosas andou mergulhando no álcool e sabemos que este jamais é bom conselheiro e nem ajuda a ninguém ainda que seja a amenizar sua dor.

Depois de algum tempo ele me disse ter-se afastado dos também “maus conselhos” da bebida embora estas tenham deixado marcas indeléveis no seu ser. Somos quase da mesma idade, todavia parece que ele já viveu mais do que eu. Meu amigo reconheceu ter estragado boa parte de sua vida ao optar por caminhos adversos que só lhe fizeram mal.

Perguntei a ele como estava agora, se havia reconstruído sua vida a dois ou não. Confesso ter me arrependido de lhe fazer esta indagação. Com a cabeça indicou-me estar vivendo uma vida a dois agora, sim, e usou poucas palavras para falar de que, entretanto nem tudo são flores atualmente. Quanto a isto nenhuma novidade.

Sei bem o que ele quis dizer. Afinal nesta longa vida já passei por situações as mais diversas por isso digo que meu viver tem sido um sobe e desce sem parar. Desde ainda jovem tomei decisão errada na minha vida e poucos anos depois paguei caro por isto. Ele teria feito o mesmo quase na mesma época.

De qualquer forma depois ambos fomos bafejados pela sorte e a felicidade voltou ao nosso convívio. O que aconteceu comigo também ocorreu com ele. Mera coincidência. Se mais na frente fomos atropelados pela má sorte acabamos amargando nova solidão inesperada, mas a vida é assim mesmo.

Quando comentamos sobre o momento atual deste país vi que nossas opiniões eram coincidentes. Ambos manifestamos uma desilusão com a política reinante a ponto de eu ter preferido encerrar aquele assunto visto que me enoja nadar neste mar de lama.

Em certo momento nós paramos de falar nos entreolhamos e sorrimos, todavia percebemos que em ambos uma pequena lágrima cortava os nossos sorrisos e sem pedir passagem desceu por nossas faces como que querendo ser a tradução do que carregávamos em nossas almas, em nossos mais íntimos sentimentos.

Aquele reencontro jamais poderia ter sido programado, talvez apenas pelo que chamam de destino. Depois ao ver meu amigo se despedir e ir embora percebi que ele deixara comigo toda uma história de vida, vida muito parecida com a minha.

Confesso que até o momento fico a me perguntar se conversei com ele mesmo ou estive a me ver num espelho! Pois é.




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Comentários sobre o texto podem ser enviados ao autor, no email fm.simoes@terra.com.br

(15 de abril, 2017)
CooJornal nº 1.025



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
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