Francisco Simões


Táxi em Paris



Nas 4 longas estadas, entre 6 e 9 meses cada uma, que estivemos na Europa, visitamos Paris por diversas vezes. Quem não o faz? Aquela era apenas a quinta visita. Fugindo ao hábito de ficarmos hospedados em hotéis de 3 estrelas, naquele ano seguimos o conselho de um bom amigo e fomos conhecer o pequeno Hotel de Madame Bardet. Pela simpatia de madame, pelo carinho dos atendentes, quase todos portugueses, pelo ambiente bem familiar, e pela localização (Rua Washington, 9) foi uma prazerosa permanência. Andava-se poucos metros e estávamos na bela Champs Ellysées. Virava-se à direita e logo chegávamos ao famoso Lido, de Paris. O Arco do Triunfo estava logo à frente. Dividimos aquela volta a Paris em duas estadias de cinco dias cada uma. 

Terminada a primeira partimos para conhecer várias cidades, começando por Reims, a terra do champagne. Mme. Bardet, sempre gentil, chamou-nos um táxi por telefone. Entramos e logo informamos ao motorista: "Gare de Lest, s'il vous plaîs". A reação dele foi estranha, em vez de passar a marcha saiu do táxi e entrou de novo no Hotel. Teria ido socorrer-se de uma incontrolável vontade de fazer xixi?! Bem, voltou pouco depois e sua cara não era de poucos amigos, mas de quem não apreciava fazer amizades. Saiu aos trancos como que insatisfeito com algo que desconhecíamos. Minha intuição me preveniu de algo que não quis acreditar. Parecia que estávamos sendo conduzidos por um inimigo gratuito e de que seria capaz, não sabíamos.

Passávamos em frente à Gare Saint Lazare, que dista ainda alguns quilômetros da Gare de L'Est, quando o estranho e agressivo condutor passou a gritar: "A pneu plat, a pneu plat", querendo nos dizer que tinha um pneu furado. Minha intuição estava certa, ele ia mesmo "armar" uma para cima de nós. O sujeito nos fez sair do veículo e com a maior "cara de pau" do mundo repetia a frase apontando para um pneu dianteiro que insistia em desmenti-lo, pois estava mesmo cheio. Ato contínuo o tresloucado motorista abriu o porta-malas, retirou nossas bagagens e as colocou, bem, na verdade ele as jogou contra o solo francês, em plena rua. E eu me lembrei das palavras: "Lyberté, Égalité, Fraternité".  Aquele francês jamais cantou seu hino ou mirou sua bandeira. O último ato de sua fúria foi exigir-me o pagamento da corrida até ali. Atordoado e indefeso cedi e paguei.  Minutos depois outro motorista nos levou ao destino e explicou que o seu colega com certeza esperava ter uma viagem até o aeroporto (aproximadamente 60 km do centro da cidade) daí a reação negativa dele, mas que este outro condenou e até pediu desculpas em nome de seu colega.

No retorno da visita a várias cidades do leste francês regressamos ao simpático Hotel de Mme. Bardet. Ficaríamos mais 5 dias na ""cidade luz" que aliás, não é das mais bem iluminadas capitais européias. Uma francesa entretanto me disse que a explicação é outra, e creio que bem aceitável: Paris seria a "cidade luz", sim, mas a luz da cultura. No Hotel encontramos Mme Bardet, seu garboso marido, qual um astro hollywoodiano no alto dos seus 1,90m, vasta cabeleira grisalha, muito charme e a exalar permanentemente um odor de excelentes vinhos franceses. Contei a eles o episódio de nosso drama com o tal motorista. Monsieur Ferrat, o marido de Madame, na pose habitual perguntou-me: "Seria ele um português?" Respondi: "Não senhor." Ele insistiu: "Então um negro?" Respondi: "Não senhor." Monsieur Ferrat fez mais uma tentativa: "Mas, com certeza era um latino?" Aí era demais e sentenciei "Não senhor, ele era branco, louro e falava corretamente o francês." Ao mesmo tempo em que o preconceito de Monsieur Ferrat ruía, seu orgulho segurava ereto sua pose mas a levantar uma bandeira branca: "Certaiment un français".

Voltamos outras vezes a Paris, cidade encantadora, e só tivemos mais um susto promovido por outro motorista francês. O saldo foi portanto bastante positivo em favor da classe. "Vive la France".

(Esta história é autêntica e apenas uma de muitas outras ocorridas naqueles
4  longos períodos em terras européias)   


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
(Janeiro/2001)
fmsimoes@vento.com.br