Francisco Simões


O CARNAVAL DOS IPÊS



Hoje é Carnaval, será que todos estão contentes? Fantasiados  sei que estão. Apertem o cinto e o coração que vou lhes apresentar, neste relato inusitado, o "Carnaval dos IPÊS".

Diretamente da passarela da minha indignação já ouço o espalhafatoso som da Bateria de Mestre Maia. Olhem, é o bloco IPTU DE IPANEMA. Que bela Comissão de Frente, formada só de vereadores, quantos sorrisos, que amores, de costas para o povo. Logo atrás percebe-se a figura inconfundível do Mestre-Sala, o César. Voleia pra lá, voleia pra cá,  explica mas não convence. A galera está agitada, ultimamente este bloco tem criado muita polêmica.  Vamos ouvir um pouco do samba-enredo :

"É na rua redentor / meu AP já bem velhinho / 80 metros quadradinhos / e IPTU de 800 / O IP tem zero demais / de menos tem o meu AP / e o pouquinho de aumento / no salário a receber."  É, o desfile deste ano promete embora promessa seja uma coisa que dá e passa, para a desgraça de quem acredita na maldita.  O puxador do samba, Zé do Povo, sempre de bom humor, arranca uns motejos pra levantar a rapaziada, enfurecida e inconformada: "E aí "patota", vamos saudar sua Excelência, com veemência?" E aquele locutor esportivo, transmitindo o desfile,  narra: "E a galera faz. uuuhhhhhhhhhhhhh." É, o IPTU DE IPANEMA toma vaia mas ganha sempre.

Atenção amigos, já vejo surgindo ao longe o Trio Elétrico do IPTU DE CABO FRIO.  Nas alegorias muito sol, praia, mar, duna, vento e um arrebentar de ondas e de imposto.  Mas a Ala do Bairro do Braga vem desanimada, porém ela tem um enredo do qual lhes vou contar um segredo, ele é de minha autoria, vejam  só a picardia:  "Desde priscas eras a Prefeitura, deveras, nos sentou a sua pua, decretou que a nossa rua era artéria privativa embora não houvesse pergaminho que garantisse essa assertiva. Falou e se escafedeu, abandonou nosso caminho, mas nunca se esqueceu, a tal de Prefeitura, de nos mandar a fatura do maldito IPTU que como o cordão dos puxa-saco cada vez aumenta mais. Nós fazemos o calçamento, cuidamos do escoamento das águas pluviais e se nos postes queimam-se lâmpadas nós queimamos nossos reais, comprando tantas e tais quais e pagando a alguém para as substituir. É o caso de inquirir : então porque nos cobram este tal de IPTU?  Sem mas, nem meio mas, isso não é cobrar por um serviço que não se faz? Puxando pela emoção solto uma exclamação fazendo uma reverência a essa atitude tão vil: P. Q. B. ... Puxa, Que Brasil, Excelência!"

E fechando o Trio Elétrico vem um cantador nordestino que mora no Braga. Ouçamos o bom repentista: "Este nosso bom Prefeito / foi por justiça reeleito / pois até que ele tem feito / bastante por nossa linda cidade. / Mas, em verdade vos digo, / não sei se é praga ou castigo / pois o bairro do Braga, / embora abrigue a Prefeitura / nunca viu uma criatura / se preocupar com ele. / Alguma coisa foi feita,/ mas há tanto por fazer / tantas ruas são de barro, / não sei se é escárnio ou escarro, / mas se o céu está azul, tão lindo / e a Natureza faceira / aqui embaixo  os carros / nos banham, mas de poeira." Delirante, a galera o aplaude freneticamente. E vamos em frente. E atenção, já aponta ali na curva, entrando na contra-mão, a Escola de Samba O IPVA É PRA RACHAR.  Vem o DETRAN rebocando o DER, DNER, lombadas, pardais eletrônicos e o público muito atônito vai escondendo as carteiras. E alguém na arquibancada grita bem alto:  "O IPVA É UM ASSALTO." O Presidente da Escola garante que o DETRAN não multa nem reboca, é só um Banco de Dados. Mas não tem já tanto Banco metendo a mão na gente e tiveram que inventar mais um?! E os reboques que sempre se viu, ostentando : "Estamos a serviço do DETRAN"!.. tchan, tchan, tchan, tchan.. Nas alegorias dessa Escola há um festival de placas que enlouquece  o motorista nas estradas:  100km   80km   40km   100km   60km   80km  tal como na Escola, nas estradas elas vêm próximas e sem qualquer aviso, como é de Lei. Ou a turma não obedece ou é por isso que cresce o movimento das oficinas.

Lá vem a Ala da Privatização: "Estradas melhoradas"... o que é uma obrigação, mas às custas de uma grande mão que nos assalta nos pedágios. Assalto oficial, menos mal que não há armas. Talvez seja nosso karma suportar tantos abusos. E eu me confesso confuso ao ver a Escola passar: como pode ser "Falta Grave" passar a 48 por uma placa de 40? Estar sendo comparado a quem passa a 180 por uma placa de 100? E ninguém me falou que alguém se interessou e vai mudar isso. Situações tão diferentes, a 180 ou mais um desastre é eminente, mas a 48 nem se pode chamar de afoito, quando muito de infrator. Cinco pontos é muito pesado, prezado Doutor, ainda mais que os velocímetros, de fábrica, regulados, também não são tão precisos. Juízo eu tenho, estou perdendo é a paciência com tanta indiferença ou incompetência. Valia uma ingerência nossa, quem sabe alguém que possa também multar a autoridade que transgride. Um utópico revide! Quanta lei é descumprida, na cidade e nas estradas, por quem devia zelar (Oh santa esperança!) pela nossa segurança, mas só pensam naquilo: em multar. O IPVA provoca um arrastão na zona de dispersão e na maior arrogância promete que vai voltar a desfilar no próximo ano e nem fala em redução. A ética e a justiça só entrando pelo cano, sem escape, pois não há quem freie ou tape este poço sem fundo, que segundo foi criado, estaria hoje superado com as privatizações e os altos pedágios acrescentados. O IPVA É PRA RACHAR fecha o desfile de hoje certo de que a Escola estará maior no ano que vem. É o diabo a dizer amém.

(fevereiro/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
(Janeiro/2001)
fmsimoes@vento.com.br