Francisco Simões


Ineditismo. É justo?


Foi em dezembro/1999 que participei de um concurso literário pela primeira vez na vida. Estava com 63 anos. Sempre fui avesso a eles. Ao ganhar 3 belos prêmios  naquele “Expressão da Alma”- 4ª edição, (Rio de Janeiro) realizado por um jovem idealista e batalhador que se chama Luis Marques, curti o gostinho de um primeiro e saboroso sucesso. Meus trabalhos nunca antes haviam tido um julgamento como aquele. O concurso não exigia que as poesias fossem inéditas,  por acaso as minhas eram.

Animei-me e passei a ver nos concursos literários, talvez ganhando um premiozinho aqui e outro mais ali, a oportunidade de ir formando algum currículo. De vida e  de vivência em outros campos da arte e da cultura eu realmente tinha alguma coisa. Resultado: no ano passado (2000) participei de 21 concursos, sendo selecionado e premiado na maioria deles. Passei a reparar que alguns, ainda bem que poucos, faziam esta exigência: poesias, contos ou crônicas deviam ser “inéditos”. Há regulamento que até define a exigência como : “não deve ter sido publicado, nem divulgado na internet, nem participado de concursos anteriores, premiado ou não”. Quanto rigor. Como sei que  os referidos concursos  não atraem normalmente escritores já consagrados, famosos, cujos trabalhos, estes sim, são por demais conhecidos por quem aprecia uma boa leitura, estranhei tanta severidade.

Na verdade os concursos a que me refiro têm hoje a  importante missão de oferecer chance a quem não tem nenhuma neste País. Nós, os “sem escada”, jamais conseguiríamos divulgar nossos trabalhos não fossem os (as) abnegados(as) que dão muito de si para levar a bom termo aqueles eventos literários. Fico impressionado com a dedicação dessa boa gente, lutando contra imensas dificuldades de toda ordem, sem qualquer patrocínio e sem apoio oficial nenhum.  Muitos deles,  mesmo cobrando uma pequena taxa de inscrição, só conseguem cobrir  parte das despesas, ficando o saldo negativo deste balanço por conta e risco dos organizadores.

Descobri  bem depois, o que para muitos não era novidade, que existem também sites  que divulgam o que escrevem os “sem oportunidade”. E o fazem democraticamente num espaço onde nomes consagrados de nossa literatura também habitam. Maravilhoso. Fiquei encantado e fui “batendo nas portas” que se abriram e me abrigaram.  Isto só agora, a partir de dezº/2000. Até outubro em nem queria computador.  Fiz este parêntese porque também  os sites têm um mérito incalculável na proposta de divulgar igualmente autores desconhecidos do público leitor sem usarem o “não inédito” como fator de exclusão. Mas deles falarei mais em outra oportunidade.

Voltando aos concursos, já conversei, argumentei, contra-argumentei com pessoas que defendem o “ineditismo” nesses eventos. Alguém chegou a me alegar que um trabalho, premiado, mesmo em concurso pouco divulgado, cujo resultado só tivesse alcançado poucos olhares atentos, não deveria ser aceito em outro concurso qualquer. A justificativa maior que ouvi, e da qual discordei frontalmente, foi que  se de alguma forma os jurados conhecem uma poesia porque leram sua premiação em outro certame, ou até em algum site na internet, eles, esses jurados, poderão ser “influenciados” pelo prévio e eventual conhecimento da poesia e assim levados a premiá-la também. 

No meu entender isto é um equivocado e injusto mau juízo que se faz das pessoas a quem é confiada a tarefa de escolher, entre centenas de trabalhos, os que, no seu entender, devam ser os melhores. Afinal os júris são habitualmente formados por pessoas responsáveis, sérias, habilitadas, por também lidarem com as letras ou militarem no sagrado ato de amor que é escrever. Admitir o contrário é julgá-las pessoas levianas, facilmente influenciáveis, não qualificadas portanto para a missão de jurados(as). Quem pensa assim dos juízes que escolhe deveria trocá-los, ou  selecioná-los melhor, claro.

No meu ponto-de-vista, o prévio conhecimento de um trabalho por um jurado, se alguma influência tiver sobre ele, pode até é provocar um efeito contrário, o que seria perfeitamente normal, embora não devesse acontecer. Eu mesmo tive poesias bem premiadas num concurso que em outros nem sequer  foram selecionadas para a final. E não foi só uma exceção não, foram várias. Por esta e outras considero a preocupação com  o “ineditismo” em nome da ética, da seriedade deste ou daquele concurso um exagero, pois não é por aí. 

Se os jurados forem bem escolhidos, competentes, capazes para aquela missão o “ineditismo” só servirá é como fator de exclusão de trabalhos e candidatos. Ainda mais tratando-se de pessoas sem oportunidade e que, com sacrifício e muita esperança buscam esses eventos querendo ver se conseguem um lugar ao sol. Eu o reprovo também até pelo subjetivismo de qualquer julgamento em concursos. Nunca me iludi com os prêmios que já ganhei. Não me digam que foi só por mérito, talento etc.  Bobagem, é um ledo engano. Atua aí uma boa dose de sorte, mesmo, além da qualidade do trabalho, claro. Como dizer que este ou aquele poema é tão melhor que outros entre 500 ou até mais trabalhos que recebem os concursos? 

Eu entendo assim: quando me premiam certamente, mas não intencionalmente, outros foram injustiçados. E a recíproca é verdadeira. Façam este teste: após o resultado de um concurso, troquem os jurados por outras pessoas e a seguir por outras, repetindo o teste. Com certeza absoluta nunca o resultado será o mesmo. Aí está o subjetivismo a que me referi, cada cabeça uma sentença, ou um resultado.  Isto não é crítica, não, apenas é uma constatação além de ser perfeitamente normal. A qualquer jurado deve ser muito, mas muito difícil escolher  3 trabalhos para prêmios, ou mesmo 60 trabalhos (para uma coletânea, por exemplo) e ter que excluir 300, 400, 500 ou mais. Nunca me convidem para um júri!

Respeito todas as opiniões, mas esta é a minha. 

(fevereiro/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
(Janeiro/2001)
fmsimoes@vento.com.br