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Francisco Simões
A VOLTA A SALREU
No
dia 10.01.1947 eu, meus pais e irmãos, havíamos embarcado no cargueiro inglês,
o HILARY, que também transportava alguns passageiros. O destino era Lisboa.
No dia 13.03.1989 eu e minha esposa embarcamos no imenso e bonito transatlântico
italiano EUGÊNIO-C rumo à Europa. O destino era o mesmo. Em 1947, logo após
a segunda grande guerra mundial, fomos viver por quase um ano em Portugal. Em
1989 iniciávamos um mergulho no tempo, uma volta ao passado, com planejamento
idêntico. Em 1947 viajamos por longos 22
dias, em 1989 seriam apenas 9 dias.
Não
vou lhes falar da viagem propriamente, mas sim da minha volta a Salreu. Em 47
ela era uma aldeia, agora, uma vila. Certo dia tomamos o luxuoso trem Alfa,
e saltamos em Aveiro, linda cidade cortada por rias. Hospedamo-nos na
Pensão Palmeira. Na mesma rua morava o silêncio. Na manhã seguinte fomos à
Estação de Comboios e compramos dois bilhetes, porém desta feita, viajaríamos
num trem muito mais modesto que o luxuoso Alfa. Este só parava em Estações
de grande porte, mas nós iríamos saltar no pequenino apeadeiro de Salreu.
Tomamos então um trem classificado como suburbano.
No lugar de poltronas, bancos duplos de madeira e nada de ar
condicionado, mas ventilação natural.
Meu
coração estava mais acelerado do que o simpático trem. Minhas artérias se
haviam transformado em auto-estradas para dar vazão à velocidade de meu
sangue impulsionado pela ansiedade. Por uma pequena tabela dos Caminhos–de-Ferro
Portugueses eu acompanhava as paradas do comboio. De repente os freios
voltaram a ranger e numa minúscula placa eu li: Salreu. Descemos e ao redor só
vimos, além da linha férrea, muito chão e mato. Numa guarita postava-se uma
senhora com uma reduzida bandeira vermelha com a qual sinalizou para o trem
partir. Dirigimo-nos a ela e nos informou que, seguindo a trilha de chão em
frente, logo chegaríamos ao asfalto e virando à esquerda estaríamos a uns
50 metros da Igreja Matriz.
Dito
e feito, logo vimos a pracinha, a igreja e uma imensa árvore centenária que
não me reconheceu. Não a culpei, afinal eu estava bem desgastado enquanto
que ela continuava viçosa apesar da idade. Eu estava de costas para a Quinta
construída por meu bisavô materno e onde vivi parte da minha infância.
Ocorria-me o receio de que no lugar dela estivesse então um Shopping Center,
ou uma luxuosa sede de Banco, ou um Super Mercado e que o meu sonho de rever o
passado tivesse sido demolido. Aí lembrei-me primeiro que Salreu crescera mas
era apenas uma vila, ou cidade bem pequena, e
segundo que afinal eu não estava no Brasil.
Virei-me
e julguei estar sonhando, delirando ou tendo
uma visão que meu subconsciente projetara atendendo a um desejo tão
forte de voltar ali. Da imensa
casa só faltava uma torre de onde, quando criança, eu usava uma luneta para
acompanhar o trem atravessando os campos. O cata-vento estava de pé e
funcionava. A fachada da Quinta conferia com todos os detalhes arquivados em
minha memória por longos 42 anos. Ali, naquele momento, uma primeira lágrima
driblou a segurança do meu auto-controle e foi contar a um paralelepípedo
quem eu era. Respirei fundo e pedi a minha esposa que filmasse tudo. Câmera
na mão ela acompanhou pela telinha meus passos nervosos atravessando a rua,
subindo os 8 degraus do lado direito de uma escada dupla e depois minha mão
batendo à porta.
Quando
ela se abriu apresentou-se um senhor de estatura mediana, forte, simpático
que me cumprimentou. Disse-lhe quem eu era e que não estava ali para reclamar
nenhuma herança, para questionar nenhuma posse, direitos que eu não tinha.
Ele sorriu e percebi que o “quebra-gelo” funcionara. Seu nome: Silvério.
A seguir surgiu sua esposa, D. Maria Elisa. Fiquei logo sabendo que ela
descendia de um ramo da família de meu bisavô materno que construiu a
Quinta. Após entrarmos sêo Silvério avisou-me de que iria encontrar quase
tudo tal e qual eu conhecera em 1947. Custei a crer mas ele garantiu ser
verdade.
Propus-lhe
então uma brincadeira tipo “cabra-cega”. Iniciamos pela sala-de-jantar.
Apontei a porta a nossa esquerda e disse o que lá havia: uma grande mesa,
cadeiras com encosto alto e estofado e em todos eles gravadas as iniciais de
meu bisavô. Lembrei de uma
cristaleira (os novos não conhecem) cheia
de pratos de cerâmica chinesa, com gravuras e também as mesmas iniciais
gravadas neles. Sêo Silvério e D. Mª Elisa se entreolharam espantados.
Abriram a porta e… podem não acreditar, mas tudo estava lá, eu entrara
mesmo naquele passado distante que carreguei por toda a minha vida na memória.
No
corredor de quase 20 metros percebi a cozinha, e Ana, a camareira, e Maria de
Fátima, a cozinheira, foram projetadas pela saudade em minha mente. Elas não
estavam lá. A seguir uma outra porta à direita. Paramos. Pensei e arrisquei:
seria onde ficava uma pianola que se tocava com os pedais, fazendo um rolo com
pequenos furos, ao girar dentro da engenhoca, tocar a música escolhida? Pois
é, sentei e toquei “Coimbra”.
A segunda lágrima eu consegui segurar. Fechei as comportas da emoção e não
deixei a felicidade transbordar. Voltamos ao corredor e ao final dele uma sala
bem grande. Resolvi continuar
“jogando” já que estava “ganhando”.
Lembrava-me
de uma mesa de bilhar, profissional, cujo pano quase rasguei, aos 10 anos, por
errar feio uma tacada. Nas paredes lembrava de bonitos quadros e alguns bichos
empalhados, inclusive uma onça de corpo inteiro. Na parede, em frente à
lareira, uma espada que garantiam, em 1947, ter pertencido a D. Pedro I. Sêo
Silvério deu boa risada e me puxou para o salão. Ele rira pela exatidão de
minhas lembranças, mas também asseverou que a informação sobre a espada
era verdadeira. Havia lá algo que não estava em 47, uma bonita e grande TV a
cores. No segundo piso apontei também o quarto em que dormira quando criança.
Após
almoçarmos levaram-me para andar pelo imenso terreno da Quinta. Mais recordações.
O chafariz e ao fundo o retrato de meu bisavô pintado em ladrilhos,
portugueses, claro. Em torno de seu vulto ainda
estava escrito: “Labor omnia vinci” (o trabalho tudo vence) e os
anos em que começou a obra e aquele em que a concluiu. Entre eles um longo
período de 13 anos. O lago e as cavernas onde tanto brinquei com meus irmãos
mais novos e quantas árvores,
quantas frutas. Só não havia aquela equipe de empregados como em 1947. Os
tempos eram outros, a fartura, só de recordações.
Sêo
Silvério dera uma fugida sem percebermos. Ao retornar ao grupo trazia uma
pequena estátua, mais exatamente um busto. Apresentou-me o meu… triavô.
Mais tarde eu e Zezé fomos sozinhos até a igreja orar um pouco. Era só
atravessar a rua. A seguir fomos dar uma olhada no cemitério, por trás da
igreja. De repente ela comenta: “Já viste este jazigo aqui, todo florido?
Tem o teu nome.?” Lá estava escrito: Francisco M. Simões. O meu “M” é
de Mario, aquele, era de Maria.
Tratava-se do meu bisavô. Como no jazigo havia um espaço vazio, sem caixão,
na volta à Quinta, ao atravessar a rua, por via das dúvidas olhei para os
lados, mas também para cima. Sabe-se lá, não é?
Após
nos deliciarmos com um abundante lanche ajantarado, sêo Silvério se
ofereceu para nos levar de volta à Aveiro. Apenas 16km. Eu saía de um
sonho e entrava no pequeno e bonito Mercedes esporte,
vermelho, descapotável (conversível) com que sêo Silvério nos
conduziu até a Pensão Palmeira. Deixei com ele e sua esposa algumas
palavras de respeito e de agradecimento por terem conservado aquele pedaço
de minha vida, de meu passado, por 42 anos de um futuro que agora se
encontrara com o meu presente.
(O
relato é inteiramente verídico nos mínimos detalhes. Sêo Silvério e D. Mª
Elisa ainda lá vivem e nós já lá voltamos outras vezes.)
(Março/2001)
Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
fmsimoes@vento.com.br

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