ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

NO CIRCO DA PRAIA

No verão a nossa praia se transforma. A paz mergulha e vai nadando até onde possa estar em segurança da alegre desordem que aqui se planta. O silêncio pega carona na brisa e foge dos mais variados e ensurdecedores sons que invadem o éter. O silêncio não consegue ouvir o que alguns turistas ouvem como música.

No verão nós somos “colonizados”por centenas de milhares de seres, um exército incalculável que invade nossas dunas, praias, calçadas, barracas, jardins, ruas, dinamitam nosso bom humor, cravam estacas em nossa paciência, rasgam o nosso sossego. Eles mudam nosso ritmo, alteram nosso comportamento, bloqueiam nossas garagens, enfim, impõem o seu “modus vivendis”.

Eles são os senhores da situação, recebidos com reverências e festas. Junto com o excesso de lixo eles, nossos colonizadores de verão, enchem os cofres da prefeitura com sua prata, seu ouro real. Então, eles tudo podem.

Algumas dessas tribos que nos visitam são meio descuidadas com seus rebentos. Sem anteninhas mas com perninhas ágeis e uma liberdade ferial por vezes somem do radar paterno e materno. Aí é que entra o personagem central desta crônica. Aborígine adotado por Cabo Frio, surgia todos os anos em nossa praia durante o verão, o Palhaço Chupeta.

Com um carrinho de mão transformado em um micro estúdio de rádio ambulante, vestido sempre a caráter e exibindo aquela dignidade e muita graça que os bons palhaços sempre carregam consigo, o Chupeta desfilava pelas areias da praia tocando músicas genuinamente brasileiras. Parava constantemente e fazia brincadeiras, contava piadas, distribuía balinhas aos bem pequenos e alertava sempre os pais para não tirarem os olhos de seus filhos. Na praia superlotada a criança perde facilmente qualquer referência de onde estava.

Mas as conversas e as cervejas geladinhas parece que afogam no esquecimento conselhos tão úteis distribuídos graciosamente e insistentemente pelo bom Palhaço Chupeta. De repente lá vinha alguém trazendo uma criança chorando. Perdera o rumo da barraca de seus pais. Chupeta primeiro procurava acalmá-la com afagos, balinhas, e dizia que logo traria os seus pais, aliviando aquela carga emocional que levara a criança ao nervosismo e à explosão no choro.

Microfone numa das mãos e na outra o pequenino ser assustado, ele iniciava a busca dos responsáveis, que haviam também contribuído com sua desatenção, para o episódio facilmente evitável. Eu o admirava mas nunca falara com ele até para não interromper seu trabalho.

Numa quinta-feira, no verão de 1999, à tardinha, eu fora até o bonito Teatro Municipal, aqui de Cabo Frio. Ia encontrar os bons amigos Maurício Meneses e Hélio Gomes Jr., da Rádio Globo.

Eles têm um excelente espetáculo de humor e iam se apresentar no final de semana. Convidaram-me e fui abraçá-los, na véspera, durante o ensaio. Eles integravam a maravilhosa equipe do comunicador Francisco Barbosa e tinham a liderança absoluta do horário entre 12 e 15 horas. Eu era fã, ouvinte, amigo e costumava colaborar com o quadro Contatos Imediatos.

Conversávamos animadamente sentados no palco quando entrou o Chupeta, ainda devidamente a caráter. Seu expediente havia se encerrado e ele fora se oferecer para ajudar a promover o espetáculo do Maurício e do Helinho. Naquela tarde eu conheci, além do personagem, também o homem por dentro da fantasia. Conhecendo a pessoa passei a admirar ainda mais o palhaço. Ele revelou estar completando 13 anos de serviço no Circo da Praia.

Chupeta conseguia sempre patrocínio de restaurantes, bares, farmácias, etc, e fazia assim a sua renda. Um dia eu filmava para um vídeo sobre o auge do verão nas praias de Cabo Frio. Seu título: “Imagens”. Jamais poderia deixá-lo de fora. Ele concordou que o filmasse. Passei a fazer várias tomadas enquanto ele trabalhava. O Palhaço Chupeta sob o foco do mais possante dos holofotes: o sol. Tive o triste privilégio de guardar o registro de seu último ano no picadeiro de areia.

A certa altura pedi-lhe que continuasse falando para eu terminar as cenas. Sorrindo, virou-se para seu público e anunciou: “Oh gente, vocês vão me agüentar falando mais um pouco que o amigo ali está me filmando para um vídeo. E vamos nós…Reserve sua mesa no Restaurante….”

Bom companheiro o Palhaço Chupeta, jamais esquecerei sua risada. Na parte lateral do carrinho que empurrava havia a figura de duas crianças e lá estava sempre escrito: “Toda criança tem direito ao amor e à compreensão por parte dos pais e da sociedade”.

Num mundo como o nosso, marcado e remarcado por tanta violência, por tanto egoísmo, e tanta hipocrisia, com tanta gente mais preocupada em usar os outros, em se servir da boa fé dos outros, do que em servir, em intrigar, em envenenar, do que em ajudar, eu via o Chupeta, em sua missão, como um anjo. Talvez um anjo-da-guarda que nunca se dera conta das asas que carregava. Ele não pretendia prêmios nem medalhas, só fazer o bem.

Se hoje sou muito descrente de que o homem tenha sido feito à imagem e semelhança de Deus, pelo menos do Deus em que creio e para o qual dirijo minhas preces, eu faria uma exceção: o Palhaço Chupeta. Humano que era tinha seus defeitos, claro, mas o somatório de virtudes o garantia numa galeria de homens especiais.

Eu vi certa vez seu coração de palhaço amolecer nas lágrimas de uma criança perdida e chorar junto com ela um pranto de solidariedade, de amor, próprio de quem enxerga a vida com a sensibilidade dos bem-aventurados.

Mas os anjos também cumprem sua missão e depois são chamados de volta. No verão do ano passado, ano de 2000, eu vi o Chupeta com seu equipamento, porém não na sua arena habitual, ele estava lá em cima, na calçada, ao lado do asfalto, onde não gostava de ficar. Estava abatido, não carregava a mesma alegria que o caracterizava. O sol que sempre o iluminou parece que agora o incomodava.

No dia seguinte não mais o vi, ninguém mais o viu. A vida o perdera, as crianças da praia estavam órfãs, mas havia o mesmo sol e o Circo da Praia fervilhava de sons, de alegria e de cores. O espetáculo não podia parar e neste caso o espetáculo era a própria vida e nela o Chupeta não estava mais relacionado.

Talvez muitos nem tenham se apercebido daquele vazio já que na praia não havia espaço para pensar, para chorar, para sentir saudade. Mas, a vida ficara mais pobre, não nascem anjos todos os dias.



(março/2001)


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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