ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

PRAZER, SOU A CENSURA

Entre os anos de 1974 e 1979 o cinema da bitola super-8 esteve no auge. Havia muitos Festivais e Mostras por todo o País. Eles aconteciam mais nos circuitos universitários e nos Centros Profissionalizantes, como no CEFET de Curitiba, onde ganhei bons prêmios.

Produzi vários filmes em curta-metragem que iam de 4 até 20 minutos. Todos com mensagens de crítica político-social. Quero lhes contar como que, por causa de um filme amador, feito com crianças, fui retirado de um Festival e ainda tive que viver uma aventura incrível por salas e corredores da Censura do autoritarismo da época.

O Festival era em Campos (RJ) e eu inscrevera o filme “WAR”. Vou descrevê-lo: três crianças brincavam com o jogo que deu nome ao filme. Tudo ia bem, muita animação, mas com o passar do tempo as crianças acabaram adormecendo sobre a mesa. As pedras continuaram o jogo sozinhas, graças a um cansativo mas compensador trabalho artesanal, tendo eu filmado as cenas quadro a quadro, no mais total amadorismo. Isto era necessário para dar movimento e “vida” às pedras do jogo.

Muito som de fundo, gritos, bombas e as pedras pretas acabam por dominar o mapa do mundo e vencem o jogo. A apresentação dos participantes também foi feita com as pedras em quadro a quadro. Lá do Festival vieram boas notícias por parte do organizador. Ele me disse que o meu filme e mais outro, o FAVELANDO, feito por um grupo de alunos da PUC-Rio, estavam muito cotados para decidirem o 1º prêmio. Exultei.

Às vésperas de começar o Festival ele voltou a me ligar. Informou-me que aparecera lá um sujeito, identificando-se como sendo do aparelho policial repressor da época, e retirou os dois filmes. Eram ordens. O organizador nem pode saber para onde os haviam levado. Acabei conhecendo Helinho, um jovem que tinha então uns 17 anos, eu já estava nos 40. Ele era o líder do grupo que produzira o excelente filme FAVELANDO.

Saímos em campo e descobrimos onde estavam nossos filmes. Marcamos audiência com uma autoridade que nos recebeu em sala da Polícia Federal, na Praça Mauá, e tinha na mão um relatório com os pontos principais que teriam levado à retirada das duas películas do Festival em Campos (RJ). A autoridade confessou que não assistira aos filmes. Pediu-nos então que contássemos o conteúdo deles.

Após eu haver terminado a minha parte falou a autoridade: “Seu filme parece interessante, mas veja, por que deu a vitória às pedras pretas? Não vê que isto é um incentivo ao anarquismo?” Respondi-lhe que se as vermelhas tivessem ganho ele estaria imaginando que eu fosse simpatizante do comunismo. Ele retrucou: “Por que não deu a vitória às brancas? É uma cor neutra.”

Respirei fundo e dei-lhe 2 argumentos irrefutáveis: 1º) eu fizera o filme e não Sua Senhoria; 2º) Glauco Fernandes, meu sobrinho, o menino de 12 anos que jogava com as pretas, só gostava de jogar com elas e não admitia perder, nunca. Era condição “sine qua non” para ele participar do filme.

Alegou ainda a autoridade que o Glauco, ao final da película, aparecia com duas metralhadoras, de plástico, de brinquedo, nas mãos. Expliquei: “O menino estava dormindo, aquilo era uma cena no sonho dele, uma fantasia, ele sorria e comemorava a vitória, nada mais.” O jogo chamava-se “Guerra” e ainda existe.

A seguir Helinho, Hélio Lemos Jr., descreveu o seu FAVELANDO. Saímos de lá combinado que um censor iria a minha casa para assistir aos 2 filmes e dar seu parecer final sobre a liberação ou não.

Podem achar engraçado, mas nunca se esqueçam do que a Censura já fez neste País por quase 30 anos. Anistiar é uma coisa, esquecer é muito diferente. No dia aprazado chegou a minha casa uma senhora agarrada a pastas e papéis, com cara de nenhum amigo. Apresentou-se: “Prazer, sou a Censora.” Se não dissesse eu nem desconfiaria!!

Oferecemos-lhe refrigerante, água, cafèzinho, biscoitos, até nossos sorrisos, mas ela nem piscava e só dizia não. Mentes doentias vêm todos como sua imagem projetada pelo subconsciente. Helinho estava nervosíssimo, era jovem demais. Passei primeiro o meu filme, o “WAR”. Ela gostou, até elogiou discretamente.

Depois exibimos o bonito e muito bem produzido FAVELANDO, um trabalho sério que mostrava a realidade: a classe média já subindo o morro para morar. A censora revoltou-se com as manchetes mostradas no filme. Críticas a programas governamentais. Helinho, calado, nem se atrevia a falar. Falei pelo amigo.

Argumentei que todas as manchetes utilizadas no filme eram de jornais e revistas, da grande imprensa, portanto de domínio público, nada fora forjado, inventado. Argumenta, contra-argumenta, e a censora mantinha seu ponto-de-vista: O “WAR” ela até liberaria, mas o FAVELANDO, estava difícil. “Brasil, ame-o ou deixe-o” era o lema, lembram-se? O verbo amar a serviço da ditadura era sinônimo de submissão.

Mas, como milagres acontecem, dias depois soubemos que os filmes seriam liberados. Fomos até a Praça Mauá pegá-los. Nossa “via crucis” não terminara. Prepararam dois certificados de liberação (?) mas não encontravam os carimbos “compatíveis”. Sem carimbos a burocracia se sente insegura. Havia tonelada deles, mas “compatíveis” não.

Eu argumento, contra-argumento sobre a não necessidade, mas eles insistem nos carimbos. De repente… pam, pam…pam, pam… Pronto, estávamos carimbados, digo, liberados junto com os filmes. Se me perguntarem que utilidade tiveram depois os 2 certificados, eu não responderei para não parecer mal-educado.

Atualmente vivemos em democracia, mas aquele menino, o Glauco Fernandes, que só jogava com as pedras pretas e não gostava de perder, e que foi objeto da censura ao meu filme, hoje tem 39 anos, e é um exímio violinista. Seu talento é reconhecido por Gilberto Gil, Lulu Santos, Eumir Deodato, Herbert Viana, Kid Abelha, Flávio Venturini, e tantos outros expoentes de nossa MPB. Recebe elogios de Jean-Luc Ponty, francês, (o maior violinista vivo), e também de uma revista francesa especializada em música, num artigo de página inteira.

Referências maravilhosas chegaram a ele da Holanda, da Nova Zelândia etc. Ele continua não gostando de perder, mas a mídia brasileira o ignora, como a tantos outros talentos anônimos. O País, este, anda surdo, já talvez conseqüência de tanto barulho que nos empulham como “autêntica” MPB. Apenas uma vez um crítico, no Rio de Janeiro, o chamou de “Violino de Ouro” no jornal “O Globo”.

O autoritarismo me censurou em Festivais de filmes amadores várias vezes. O menino, que cresceu e se profissionalizou, continua sonhando e “jogando” o jogo da vida. Se não vence tanto quanto poderia é pela incompetência que elege a mediocridade como seu parâmetro de sucesso. Sem cultura haverá sempre algum tipo de censura.




(março/2001)
 


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br