Francisco Simões


COBRA  VENENOSA E OUTROS

    

Nós, seres humanos ditos racionais, temos, entre os nossos maus hábitos, o de faltar com respeito aos animais. Nem me refiro à caça desordenada, à extinção de espécies, ou a de dar cerveja a chipanzés, nada disso. É que consagramos a mania de, por exemplo, se alguém tem dificuldade de entender ou aprender coisas, dizermos que ele é “burro”.  Meu Deus, que culpa tem o bichinho, quadrúpede solípede do grupo do cavalo, para ter seu nome usado de forma tão grosseira? Só porque puxa carroça? Ora, ele trabalha para o homem, pior é este quando puxa-saco como adulador vil, sabujo, um asqueroso ser que faz tudo só por interesses escusos.

O mesmo vale quando se quer dizer que uma pessoa é fingida, falsa. Por que chamá-la de “anta”? Um dos maiores animais da fauna brasileira, a anta é um mamífero da família dos tapirídeos. Tranqüila, com passos calmos e bem calculados e um certo ar de sabedoria não exibida, a anta se relaciona bem com outros animais e com seres ditos racionais. Uma injustiça usarem seu nome em vão.

Quando implicamos com certa vizinha, ou uma esposa julga que ela possa estar de olho no seu marido, dizemos logo: “Aquela  “vaca” é uma devassa, uma leviana.” Que ingratidão com a fêmea do boi. Ela que nos fornece substâncias azotadas, não cristalizáveis, ou substância albuminóide mais conhecida como proteína, importantíssima na alimentação humana. E de quebra ainda usufruímos dela aquele líquido branco, segregado por suas glândulas mamárias, ou seja, o leite, importantíssimo na alimentação, especialmente de nossas crianças. Mãe amantíssima e companheira fiel do boi a vaca, animal, nada tem de leviana ou devassa. Levianos somos nós.

O respeitável quadrúpede carnívoro da família dos felídeos, com seu  porte altivo e a autoridade incontestável de Rei da Selva, o leão, ter sua imagem ligada ao Imposto de Renda, é um desrespeito ao animal. Ele só caça pela sobrevivência sua e de sua família. O leão, animal, jamais abocanha além do necessário para saciar sua fome. Já o Imposto de Renda é a antítese  deste exemplar procedimento animal. Abocanha muito além da conta.

Morde-nos já por 6 anos sem corrigir a tabela. Com uma inflação (oficial) de 40%  nesse período, a não correção da tabela é um assalto legitimado a nossos bolsos, um “mãos ao alto” com a arma da lei. O honrado leão, animal, tem assim sua imagem maculada. Mais condizente seria usarem, como símbolo, o retrato de algum desses escroques do colarinho branco. Pela frieza, pela astúcia, pela insensibilidade com que metem a mão em nossas parcas economias, especialmente se pertencemos à classe média, combinaria melhor  o símbolo com a postura do procedimento.

Outro absurdo é xingar-se alguém, que tem notoriamente um comportamento agressivo,  hostil, chamando-o de “cavalo”. Ora, o quadrúpede doméstico, solípede, da família dos eqüídeos, é, no reino animal, um dos espécimes de porte mais altivo. Através da história do mundo o cavalo tem estado sempre ao lado do homem, nas batalhas mais sangrentas, como seu parceiro leal. Ainda que às vezes selvagem, ele jamais será hostil se não agredido em seu habitat.

Os chamados “cavalos austríacos” têm uma linhagem nobre assim como várias raças dos usados em esportes olímpicos ou mesmo em páreos de velocidade, no jóquei. Como sempre parceiro do homem, ao qual muitas vezes vão mais os louros, inclusive em touradas, num julgamento menor da habilidade, velocidade e destreza do animal.

Um despropósito, é nos referirmos a alguém que julgamos ser um canalha, um biltre, um patife, qualificando-o de “cachorro”. Uma injustiça inominável, revoltante. Logo o cão, indiscutivelmente o melhor amigo do homem. Dificilmente alguém não tem uma história para contar de um certo cachorro de estimação que é ou foi como que um membro a mais de sua família. Nunca ouvi alguém dizer que seu cão é um canalha, um patife, mas já ouvi histórias de cachorros que deram  a vida para salvar seu dono.

Lembrei-me agora das cobras, répteis da família dos ofídios. Quem já não ouviu alguém dizer: fulano é uma “cobra” venenosa. A pessoa a que se está referindo deve ser ruim, perversa, de mau gênio. Mas uma serpente não é nada disso, nem sequer traiçoeira. Só ataca se sentindo ameaçada.

A que carrega veneno não o comprou em parte alguma para ficar doidona ou injetar em quem lhe surgir à frente. A Natureza a fez assim e o veneno é uma arma de defesa. Já os seres humanos vivem a se envenenar com álcool, fumo, drogas de toda espécie e ainda envenenam seus semelhantes quando traficam.

Se a cobra rasteja é porque a Natureza não lhe deu pernas nem patas, já os seres humanos muitas vezes rastejam, embora tenham os membros inferiores completos. É quando eles se rebaixam, se humilham, se aviltam. Essa injusta conotação com a cobra venenosa fez-me lembrar do que me disse um bom amigo, outro dia. Falou que cortara relação com alguém que, no início da amizade, mostrara-se envolvente, insinuante, uma catarata de mesuras.     

Contou ele: “Estendi-lhe o tapete da minha lealdade e sinceridade, dei-lhe a mão por uma amizade duradoura, desfraldei-lhe a bandeira com o lema: Estou contigo e não abro. Julguei   estarmos iniciando uma sociedade anônima do companheirismo, da camaradagem. Com o passar do tempo percebi que ele só conjugava os verbos na primeira pessoa, mas do singular. Eu era importante naquele relacionamento sim, desde que concordasse, aceitasse, atendesse, ouvisse, obedecesse, seguisse, acatasse.”

Prosseguiu ele: “O camarada gostava de ostentar títulos, referências, rótulos, honrarias, e até que tinha muitos admiradores, e como tinha. Talvez eles nunca tivessem encurtado a distância no relacionamento como sucedeu comigo. Quanto mais ele se desnudava com palavras e atitudes mais eu percebia que estava sendo usado. Ele, por sua vez, já atingira um grau de insolência que começava a desfiar uma certa megalomania. Minha tolerância estava a ponto de arrebentar as comportas da represa da minha indulgência.”

E finalizou dizendo: “Um dia desembainhei a língua e falei: Não, basta. Desacostumado de ouvir essas palavras ele deve ter recorrido a enciclopédias e dicionários. Quando descobriu o sentido deve ter-me achado um bobo, um parvo, um idiota, que não avaliava a importância de ser seu amigo, ou melhor, seu súdito. A minúscula parte ousara se separar do todo… poderoso.”

O relato do meu amigo fez-me lembrar do que disse o grande Bernard Shaw: “A mais tola das ilusões é a que leva os homens a conceberem-se como moralmente superiores aos que têm opiniões diferentes das suas.”

(Abril/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br