ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

CRIANÇA. ESPERANÇA?

 

Ligo a TV e vejo um menino de uns 12 anos, escondido, acuado, desarmado e depois a fugir de uma ameaça eminente. A seguir o vejo ser abatido como se fosse uma caça. Um tiro na nuca, portanto desferido pelas costas. Um menino de uns 12 anos, uma criança brasileira, mais uma esperança vítima da insanidade adulta, geralmente fardada, geralmente despreparada, invariavelmente violenta.

Mais um crime covarde, hediondo, que deveria deixar toda a sociedade indignada. Reação de revolta, além da minha, muito íntima, eu só vi a do apresentador do telejornal, o Sr. Borys Casoy. A vida continuou como se nada houvesse acontecido. A sociedade não deu pela falta de mais uma criança. Era pobre demais. Nem justificaria uma passeata.

Os economistas nem vão alterar suas estatísticas. Alguns políticos continuarão querendo saber quem deveria marcar o Zidane na Copa do Mundo de 1998. Outros estarão empenhados em evitar aquela CPI. Outros em exorcizar o fantasma da SUDAM que provoca assombrações em Brasília. Outros não escondem suas ambições para 2002. Estão muito, muito ocupados.

Para que escreveram o Estatuto da Criança? Para esquecê-lo numa estante empoeirada, atrás de tratados sobre Direitos Humanos? Mas, que direitos teve aquele menino que nem sequer foi olhado como humano, posto que foi abatido como caça? Quando escrevo esta crônica, já ouvi, só hoje, notícias sobre mais 4 assassinatos de menores. Quantos morreram sem merecer “destaque” no noticiário?

A família daquele menino terá que conviver com essa ausência dolorida, terá muito tempo para chorar o pranto de uma saudade incurável. O frio assassino talvez já esteja nas ruas novamente. Provavelmente fardado e pronto a atirar em outro suspeito, antes sequer de saber se é o culpado. E se culpado for, quem lhe dá o direito de ser juiz e carrasco em situação em que não se caracteriza a legítima defesa?

Quantos meninos e meninas, principalmente de famílias mais carentes, não sofrem esta mesma perseguição pelo país a fora? Para não falar também das torturas nos próprios lares, dos absurdos estupros de crianças, às vezes, de apenas 2 e 3 anos, do trabalho escravo, do abandono irresponsável promovido por pais e mães, de extermínios coletivos, como aconteceu na Igreja da Candelária. Deste último, quantos ainda se lembrarão?

As estatísticas que li outro dia são de estarrecer. Morrem no Brasil, pelas mais variadas causas, mais crianças do que alguns países têm em população. Está muito difícil sentir seriedade de propósitos em promessas oriundas de cabeças que convivem nessa política brasileira que nos farta de maus exemplos.

Como teremos eleição para Presidente da República no próximo ano, já começam, alguns pretensos candidatos a candidatos, a ocupar espaço na mídia. Não acredito em suas palavras, em suas preocupações sociais, em seus projetos que dizem realizados ou a realizar, se eleitos. Estou cansado, decepcionado, indignado, descrente, amargurado.

Mais indignado fico ainda quando ouço, como aconteceu outro dia, alguém afirmar, em uma mesa de debates numa prestigiosa emissora de rádio carioca, que a mídia é que enfatiza muito a violência, abre-lhe espaço demais. Quis fazer-nos crer que a ênfase dada pelas notícias é que faz a situação parecer pior do que realmente está.

Referindo-se ao mundo, de uma maneira geral, chegou a afirmar que, se nos Estados Unidos, por exemplo, alguém mata umas 7 ou 8 pessoas em um restaurante, usando uma metralhadora, em gesto tresloucado, o que isto significa diante de uma população mundial superior a 6 bilhões de pessoas... Fiz um minuto de silêncio diante da brutal insensibilidade daquele infeliz comentário.

Como ele há muita gente que olha o Brasil e o mundo da janela de sua sala para dentro. Eu costumo abrir a janela e olhar para fora.

O Brasil jamais estará retratado em Caras ou revistas semelhantes nas quais pessoas assim se exibem. Ali bajulam-se, reverenciam-se, noticiam-se os menos de 10% que ostentam os cerca de 80% da renda nacional. Ali está também presente o Brasil que é eleito.

O que elege, bom, esse Brasil pode ser visto em filas do INSS, em corredores de Hospitais, sendo assaltado nas ruas, trabalhando duro sem carteira assinada, mendigando ajuda, implorando por emprego, sendo desrespeitosamente chamado de vagabundo, sendo açoitado quando clama por justiça ou direito, chorando por entes queridos vitimados pela violência que está, perigosamente, virando rotina e insensibilizando pessoas.

Hoje eu queria tanto falar de amor, de paz, de solidariedade, mas não posso, ainda não perdi minha capacidade humana de me indignar, de me revoltar, não posso e não quero calar meus sentimentos. Quando tiver que usar um chip no lugar do meu coração prefiro que desliguem a tomada.

Permitam-me sair da prosa e dar voz a alguns versos de um poema que escrevi no começo deste ano: “....As esperanças continuam mutiladas / Cada ano novo tão velho e reprisado / Quando falseiam anseios replantados / Quando a ilusão, como milagre, é anunciada / Pelo mentir repetitivo e consagrado / Pelo deboche de sorrisos masturbados / Na prepotência infiel e imunizada / De mãos que assinam e rasgam compromissos / De olhos com antolhos que enxergam só por cima / Dos ombros, dos problemas, da penúria, da fome / De bocas sem nome, da dor que se aclima....”

Outro dia eu vi 3 garotos pequenos tentando ganhar algum trocado sem pedir esmola. Foi numa das esquinas da Av. Delfim Moreira, no Leblon. Era apenas um final de tarde. Cada vez que o sinal fechava eles se punham à frente dos carros e prontamente exibiam seu malabarismo com 3 laranjas, cada um. Antes que o sinal abrisse corriam aos carros estendendo a mão.

Fiquei parado cerca de 20 minutos. Somente 3 pessoas entenderam e aceitaram a proposta dos meninos e os ajudaram. Muitos carros passaram por ali naquele espaço de tempo. Será que todos tinham muita pressa? Será que tinham muito medo? Será que nem viram as 3 crianças, tentando não mendigar, não roubar?

Hoje assisti a uma reportagem onde uma menina de apenas 11 anos dava aulas a um grande grupo de crianças carentes, no quintal de sua própria casa, também pobre. A iniciativa foi da própria garota que até chamou uma amiguinha para ajudar porque a turma aumentara bastante. A pobreza costuma ser solidária.

Como se vê, os exemplos dignificantes estão vindo de baixo para cima. São esperanças a mostrar que podem transformar o futuro. Nós, adultos, falamos dele com discursos hipócritas, com promessas mentirosas, com decretos ardilosos, com sorrisos impudentes, com projetos embebidos de refolho, subterfúgio.

Nosso futuro já é a própria mentira que queremos deixar de herança. Temos sido, como sociedade, a negação do que alguns de nós pregam. O exagero não está nas minhas palavras, mas no exercício do preconceito, na insensatez, na irrisão desonesta e libertina, na insensibilidade assassina, na desfaçatez do locupletamento ilícito, no despistamento malabarista, na impunidade legislada, nas proposições meramente eleitoreiras, em “cada ano novo tão velho e reprisado”.




(abril/2001)


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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