Francisco Simões


COPA BRASIL


Desde que eu era criança sempre torci nesta permanente Copa do Brasil. Ouvia meu pai e meu avô, portugueses, mas que torciam também a favor, dizerem que o Brasil seria o País do futuro. Cresci junto com a minha esperança.

Para mim o futuro já chegou há algum tempo. Estudei, trabalhei, formei família, suei, lutei, joguei enfim o jogo da vida.  Não entendia como se rasgavam as regras, as Leis, e não se cumpria  uma tabela coerente de desenvolvimento do qual participassem todas as partes interessadas e envolvidas naquele campeonato, naquele processo. 

De repente a Copa do Brasil passou a ser administrada na base do chicote, da prepotência, da força, da perseguição gratuita, etc. Muitos que torciam acabaram sendo retorcidos, esmagados, enterrados, ou expulsos de campo e da Copa, ou do Brasil. Era a fase do “Ame-o ou deixe-o”.  Amar era sinônimo de submissão.

Vendiam a imagem de um time forte, de uma Copa e de um Brasil muito organizado, sério, um prenúncio de vitórias intermináveis, uma potência emergente. Grande parte da torcida acreditou, seguiu com eles. Os que descriam passaram mau bocado. As botas pisavam nas flores, os jardins foram invadidos, as mentes, torturadas. A mentira durou muitos anos.

Mas, dizia minha avó: “Não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe”. De repente a Copa do Brasil mudou de mãos. Fizeram novo regulamento (mais uma vez), comemoraram, abriram as portas dos estádios, puderam retornar torcedores antes banidos. Infelizmente o novo presidente da Federação foi acometido de mau súbito. Faleceu. A torcida fez um minuto de silêncio e chorou.

Assumiu o vice na Federação. A equipe de assessores era cheia de idéias. E tome planos. Essa história de rasgar regulamentos, mudar tabelas, invadir o campo, como se vê, é muito antiga. Aliás, isto já acontecia muito antes de eu ter nascido. A grande maioria da torcida, que saíra do sufoco do autoritarismo, mergulhava no desencanto da nova realidade: a inflação galopante.

Quando parecia que o time ia perder feio, pimba, o regulamento sofria novas e radicais mudanças para salvar o time e preservar a Copa. A torcida se transformou em fiscal, mas himenópteros e vespídeos “maribondos de fogo”, que não eram de Pernambuco nem lutavam pela Independência, afogueavam os impotentes e crentes torcedores.

Elegeram depois outro presidente para a Federação. Duro, inflexível, assumiu mudando as regras, novamente! Sugeriu bolas roxas para a disputa da Copa do Brasil. Meteu a mão no bolso da torcida enquanto seu ajudante-de-ordens “limpava” as bilheterias, e se apropriava das rendas. Percebendo depois que a Copa ia mal, voltou a alterar o regulamento! De nada adiantou. A torcida invadiu o campo e deu-lhe cartão vermelho. Seu último apelo, “Não me deixem só”, foi ouvido apenas por sua fiel companheira.

Minas passou a mandar na Copa do Brasil. Sou franco:  até que não comprometeu. As regras foram novamente mudadas e colocadas no forno junto, com o pão de queijo. A torcida caía no real. Ao sair, este presidente passou a Federação a um seu auxiliar-técnico. Parecia que o time ia deslanchar. A torcida nem imaginava que ia ser deslanada, tosada, tosquiada, mais uma vez. Apesar dos discursos progressistas, a Federação estava sendo dividida, repartida e entregue, não na bandeja, mas de bandeja.

Os apoios incondicionais cada vez mais impunham condição: “Sine qua non”....  “Usque ad satietatem” (Até que estejam todos saciados).  Instalava-se a Torre de Babel. Para a torcida brasileira, da qual faz parte também meu amigo Alceu, ficava claro que.... ”Non nova sed nove”, ou, não havia coisas novas,  mas, de novo. A história se auto plagiava.

Trocavam-se os dirigentes, os retratos, as regras mas, a Copa do Brasil era velha e reprisada. Bola pra lá, bola pra cá, e numa jogada mais audaciosa de adversários, a defesa convocava a fiel tropa de choque. Neste terreno acidentado destacavam-se velhas raposas, sempre de prontidão e acostumadas aos trancos e barrancos.

Explodiram denúncias num sortido cardápio de delitos. De ralos, os mais variados, surgiam ratos e ratazanas. A grama se transmudava em lama, togas eram desdouradas, a probidade, a retidão, a ética, o pundonor entravam em liquidação. Resultados de jogos eram alterados ao juízo de árbitros, talvez comprometidos. A impunidade os remia. Parte da torcida, indignada, exclamava: “Judex damnatur, ubi nocens absolvitur” (o juiz merece condenação quando um culpado é absolvido).

A Federação estava contaminada. Dedos já apontavam em sua direção. A Copa do Brasil precisava ser preservada. Novos tapetes foram providenciados, havia assim mais espaço para se arquivar as imposturas. Mas eis que de repente um avanço inapropriado e indecoroso na tecnologia da informática, à cata de uma lista de desconvocação, ingurgitou o sorriso invicto, mas mal disfarçado, que o espelho do gabinete da presidência da Federação não mais suportava. A mão-grande foi presa na ratoeira.

O infortúnio, a desdita caíam sobre 3 dos principais sustentáculos do mandatário da Copa do Brasil. As bolas, que não eram mais roxas desde a saída do outro, ficaram murchas e os jogos foram cancelados. A torcida se levantava. A seleção da Federação estava ameaçada de sérios desfalques. A Copa parou, o Brasil parou. O interesse do clube dos dirigentes estava acima do da competição, ou do Brasil. Primeiro salva-se a pele, depois a pátria.

A taça se rompera. Um canto reginiano o fizera. Iemanjá e “ruta graveolens” abandonaram seus protegidos.  Restava-lhes o “canto do cisne”. Lágrimas de crocodilo se despejavam sobre um acarajé fervendo de pimenta e dendê. Ninguém pôde culpar o Sr. Ricardo Teixeira, ou o Sr. “Caixa d’Água”. Aquela zorra, aquela desorganização não saíra de seus intelectos.

Sem que os Serviços de Meteorologia previssem veio do mar, ou melhor, da beira-mar, um furacão que se anunciava arrasador. Parece que, chegando à terra, o ciclone teve sua fúria destruidora, ou esclarecedora, amainada. Seria agora apenas uma brisa, não mais um ventoso delator. Milagres da Copa do Brasil. Aguardam-se novos desdobramentos. Há quem garanta que o forno da Federação já foi ligado. Não é mais tempo de pão de queijo, mas a pizza tem por lá inúmeros adeptos. “Consilium fraudis”, conluio da fraude?!

Pierre, um francês amigo meu, assim se expressou: “A quelque chose malheur est bom” (a desgraça serve para alguma coisa). Bom Pierre. Já meu amigo e escritor, Airo Zamoner, a propósito de todo esse contexto reinante na Copa do Brasil, alertou-me: “Homo homini lupus”... o pior inimigo do homem é o próprio homem. Com certeza.

Não percam o próximo capítulo, torcendo para que, com todos os seus defeitos, a Copa do Brasil continue a ser democrática. Na Ciência Política existe o conceito de “democracia autoritária”. Deixemo-la em seus livros e dicionários.  Pelo sim, pelo não,  “dominus vobiscum”....  e comigo também.

 (Abril/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/simoes.htm