Francisco Simões


LYON,  PELÉ  &  CIA.



No ano de 1998 nós fomos de Turim, na Itália, para Lyon, na França, justo no dia em que o Brasil se rendeu às tropas, digo, ao time francês, em Paris. Mas não vou falar daquela derrota. Falarei do dia seguinte, em Lyon.

A cidade é dividida por dois dos principais rios da Europa: o Reno e o Sena. Como sempre fazemos saímos a pé e fomos conhecer Lyon e a parte antiga da cidade, chamada de “Le vieux Lyon”. Chegamos à ponte “de la Guillotière” para cruzarmos por cima do rio Sena. A vista do outro lado da cidade, ao longe, é magnífica. Bem ao alto de um monte destaca-se a beleza da Catedral de Notre Dame de Fourvière.

Trazendo nossos olhos de volta à ponte tivemos então  a atenção despertada para uns imensos retratos pintados na parede que margeia o rio. Lá estão algumas das mais brilhantes figuras do futebol mundial de todos os tempos. Impressionante a fidelidade das imagens. É uma imensa galeria ao ar livre a fazer justiça àqueles que tanta arte exibiram e tanta alegria proporcionaram com o seu futebol.

Entre astros de várias nacionalidades vê-se Zico, Pelé, Garrincha, Rivelino e o mestre Didi. O curioso é que o Rivelino não está representado com a camisa da seleção nem a do Corinthians, onde começou e jogou por tantos anos sem ser campeão. O manto que o veste é a camisa tricolor do Fluminense. A homenagem ao professor, ao doutor, ao mestre Didi nos fez pensar como somos ingratos, no Brasil, com nossos mais destacados ídolos do passado. Eles são do tempo em que o talento era muito, mas muito maior do que o salário. 

A parada na ponte é obrigatória, para fotos, filmagens, enxugar uma lágrima, pois a emoção é forte. A saudade também. Quando se está longe do País a saudade anula a decepção, os desgostos. Saudade também do futebol que não se rendia às escolas boliviana, equatoriana e sabe-se mais a quem proximamente. Lembrem-se que era o “dia seguinte”, ou seja, após aquele milionário vexame. Perder é parte do esporte, mas há que ter dignidade, mesmo na derrota.

Seguimos em busca de um restaurante para almoçarmos. Na França eles têm sempre aquele ar requintado, ainda que não sejam dos mais caros. Passou a nossa frente um senhor alto, magro, bem vestido, com uma baguete embaixo do braço esquerdo. Caminhava  calmamente, acenando com a mão direita uma pequena bandeira francesa. Soltava a sua alegria silenciosa. Ele era campeão. Nós o saudamos com nosso sorriso.

Após o almoço continuamos nossa caminhada. Chegamos à ponte Bonaparte,  que cruza o rio Reno. Do outro lado visitaríamos o passado de Lyon. Encanta-me muito este respeito que aqueles povos têm por sua história, pelo legado transmitido de geração a geração. Este tesouro que, em nosso país, costuma ser fria e irresponsavelmente reduzido a pó. O passado é a semente do presente que só assim poderá desabrochar para o futuro.

Paramos na bonita Catedral de St. Jean, na entrada de Le Vieux Lyon. Do lado de fora um anúncio dizia que lá dentro estava o Museu do Esporte. Dei três passos para trás, olhei para cima e vi a torre e os sinos do templo. Entramos para conferir. Eles haviam retirado todos os bancos e imagens da Catedral. O espaço estava ocupado por inúmeros painéis, repletos de fotos. Para avançar tivemos que pagar uns poucos francos. Valeu a pena.

Todos os esportes estavam ali setorizados. Fotos e legendas falavam de grandes atletas e de feitos relativos a cada um deles. Passamos pelo basquete, pelo volley, pelo automobilismo, pelo tênis e então vimos anunciado, ao fundo, o futebol. Aproximamo-nos e sentimos a emoção retornar ao grau de ebulição anterior, lá na ponte sobre o Reno. Uma vasta área continha apenas fotos de Pelé. 

Reverenciavam o nosso Rei durante a Copa do Mundo, deles. A vida inteira de Pelé estava documentada em fotos grandes nos painéis. Precisei ir à França, a Lyon, para ver o mais completo conjunto de informações sobre Edson Arantes do Nascimento e Pelé.

Digo assim porque tiveram o cuidado de colocar fotos de Edson quando criança, tanto com a família, como jogando uma pelada com amigos. As legendas completavam as informações que as imagens nos transmitiam. O Edson ainda jovem, servindo ao exército, marchando durante exercício de ordem unida. O Edson assinando seu primeiro contrato profissional com o Santos. 

Uma coleção fantástica de fotografias da carreira do Rei, no Santos e na seleção brasileira.

Pudemos matar saudades também de muitos outros craques do passado, sempre ao lado dele, o homenageado maior naquela exposição pública. Em Lyon. Numa Catedral, transformada temporariamente  em Museu dos Esportes. 

É o respeito ao atleta, ao talento, ao esporte em geral muito bem encaixado no espaço de tempo da realização da Copa do Mundo de futebol. Reverência ao mérito independente de nacionalidade. Uma exposição que certamente não teria vez aqui, se tivéssemos sediado a Copa. A paixão, muitas vezes exacrebada naqueles momentos, cegaria qualquer esperança de pensarmos em algo que não fosse a nossa própria seleção. 

De alguma forma orgulhosos, como brasileiros, pegando carona na veneração francesa aos nossos irmãos que escreveram a melhor parte da história do nosso futebol, tivemos reduzido aquele vazio da decepção da véspera. Levamos então nossos passos às centenárias pedras das ruelas de Le Vieux Lyon. Depois uma rápida visita aos Teatros Romanos e à belíssima Catedral de N. D. de Fourvière.

Na volta ao Hotel Mercure La Part-Dieu, no Boulevard Vivier-Merle, cobrimos os muitos quilômetros, antes percorridos a pé, no conforto de um táxi. Identifiquei-me ao motorista, querendo ser simpático, e o cumprimentei pelo título mundial da França. Embora feliz ele se disse triste, pois não conseguira ver o “maravilhoso futebol brasileiro”.  Nem nós.

Chegando ao nosso quarto liguei a TV num canal francês. As festivas imagens mostradas diretamente de Paris, com a Avenida dos Campos Elísios invadida pacificamente pela euforia francesa, acabaram por encontrar abrigo em nossa emoção. Afinal eles mereceram e ganharam a nossa admiração, pois não mediram esforços para homenagear o tetra-campeão, Brasil, enquanto se empenhavam para obter um título inédito, para eles. 

(Abril/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/simoes.htm