Francisco Simões


AMIGOS LEITORES
 

É bom a gente saber que tem leitores amigos, assim como muitos amigos leitores. Melhor ainda é quando, além de leitores, eles interagem ou interatuam comentando, fazendo a crítica ao nosso trabalho. Tão ou mais importante do que ter 1000 ou 2000 visitas na página é receber 20, 30 mensagens de leitores, opinando. É mesmo fundamental esta interação entre leitor e escritor como acontece em países, principalmente do primeiro mundo. O excelente escritor e professor Marciano Vasques, que escreve neste mesmo Coojornal, falava-me sobre isto, outro dia, com muita propriedade.

A crônica CRIANÇA. ESPERANÇA?  foi a que mais me rendeu manifestações até agora. Quando escrevemos, dependendo do assunto, estamos emitindo a nossa opinião. Nunca porém, procuramos ser donos da verdade pelas palavras, pelos conceitos etc. Ter opinião é fundamental, abrir mão dela é não participar, é esconder-se.

Meu ex-chefe Amaro, professor, economista, conselheiro permanente e amigo acima de qualquer suspeita, faz sempre uma análise pormenorizada dos trabalhos, o que me agrada muito. A crítica sincera, doa o que doer, com o objetivo maior: contribuir para a realização de um objetivo. Desde as primeiras crônicas, também o fazem o Alceu Gouveia, o Airo Zamoner, o Fernando T. Menezes, o Marc Fortuna, entre outros. Escritores e poetas consagrados que  honram muito este aprendiz com os seus comentários.

Quando fiz a crítica severa a nossa sociedade atual, o amigo-leitor Amaro solicitou-me que fizesse justiça àqueles que, até com sacrifício pessoal, dedicam-se a trabalhar em favor de muitas comunidades carentes. Um desses belos exemplos é o projeto “Dançando para não dançar”. Ele já abrange mais de 200 alunos oriundos de várias comunidades como Rocinha, Cantagalo, Babilônia, Morro dos Macacos, Pavão-Pavãozinho, Chapéu Mangueira.

Recentemente o projeto se instalou também na Vila Olímpica da Mangueira. Como li na imprensa: “O berço do samba se rendeu ao balé”.  O projeto é muito abrangente. Além das aulas de dança, volta-se também para a assistência médica,  dentária, etc.

Mas há outros exemplos dignificantes de solidariedade humana raramente divulgados pela mídia. A Casa de Acolhida, na Tijuca, que cuida hoje de cerca de 50 crianças, de 7 a 14 anos de idade, é um deles. Os menores são de famílias carentes do Morro da Formiga. Recebem roupas, comida e ensino profissionalizante. Grande parte deles conta histórias de violência no seio de suas famílias motivada por drogas, bebidas etc.

Em Vargem Grande, também no Rio de Janeiro, há o Sítio Santa Clara. Mais de 800 crianças já foram atendidas no decorrer de 14 anos. Hoje estão lá cerca de 70 menores. Quase todos eram vítimas da violência das ruas ou, como no caso anterior, da que também ocorre em suas próprias casas. Deve haver dezenas de movimentos como esses no mesmo Estado. Pena é que isto representa ainda uma parcela bem pequena, tanto da sociedade que se mobiliza quanto da carência que é assistida. Mas vai crescer, tenho certeza.

Alguém escreveu lembrando-me também dos policiais que são abatidos pela bandidagem. Nem precisava, mas valeu. Afinal deve ser bem maior o número desses profissionais que cumprem  com o seu dever, algumas vezes perdendo a vida em defesa da coletividade, do que o daqueles que maculam o nome da Instituição. Infelizmente estes tornam-se manchete mais facilmente.

Mas, no dia seguinte ao que a crônica foi divulgada aqui no Coojornal, eis que explodiu na imprensa um relatório da ONU sobre a violência no Rio de Janeiro. Afirma o documento: “os policiais do Rio são os que mais matam no mundo.” E mais adiante: “65% das vítimas levam tiros pelas costas”.  O menino que citei  na crônica  CRIANÇA. ESPERANÇA?   foi friamente morto com um tiro pelas costas, estando desarmado. Apenas o caso não se deu aqui, no Rio de Janeiro.  O relatório da ONU traz dados de estarrecer.

Prontamente autoridades apressaram-se em desmentir aqueles números e as conclusões do referido documento. Curioso este tipo de postura dos políticos brasileiros. Sempre que algum estudo feito lá fora apresenta informações favoráveis à Administração deste ou daquele político, elas são logo usadas como  propaganda, como plataforma e elogiadas pela “seriedade da abordagem” do assunto enfocado. Entretanto, quando elas contrariam o discurso , a pregação do administrador, mesmo oriundas de um organismo que merece a maior credibilidade, como é o caso da ONU, elas são postas em dúvida, contestadas.

Houve quem escrevesse usando a argumentação de que não se deve ficar cobrando tudo dos políticos, dos governos. Certo que façamos também a nossa parte. Garanto que eu,  minha esposa, e muitos brasileiros, além dos que participam dos movimentos aqui já referidos, procuram fazer o que podem, dentro de limitações de toda ordem. Discordo é da posição de não se cobrar dos governos.

Bolas, então para que os elegemos? Então por que pagamos tantos e tão elevados impostos? A Lei não os obriga a nos dar determinados retornos por vários desses tributos? E o que fazem eles? Quantos municípios podem afirmar que estão sendo corretamente administrados, nos quais seus cidadãos são realmente beneficiados com a devida aplicação dos impostos? Se não há recursos, como alega constantemente até a maior Autoridade desse País, como explicar tantos e tantos bilhões de reais que, a cada novo escândalo, são informados que alguém roubou, ou se “apropriou indevidamente”, dos cofres públicos? Estaria certo Oscar Wilde quando disse: “Para fazer nada é que os eleitos existem” ?

Alguns lembraram ter perdido amigos ou parentes mortos em assaltos realizados por pivetes. Também perdi dois excelentes amigos, pessoas dignas, trabalhadoras, ambos baleados pelas costas, tentando fugir de assaltos. Eu mesmo já fiquei, por uma longa eternidade de 15 minutos, com um revólver encostado em minha cabeça, dentro do carro, fechado. Estava em companhia de um amigo. Graças a Deus tudo terminou bem. Escapei de outros dois assaltos, em S. Paulo, junto com minha esposa,  por lances de pura sorte.

Teria até motivos, mas jamais aprovaria os extermínios, ainda mais de crianças, ou mesmo as execuções sumárias, ou o fazer justiça pelas próprias mãos. Não se resolve o problema da violência, praticando-a.  Os governos  fizeram pouco, nos últimos anos, para evitar que chegássemos ao ponto em que nos encontramos. É o meu entendimento. Não aceito desculpas de que o problema é “complexo”.  Pois que trabalhem, que governem.

Houve os que se embaralharam nas palavras, se enroscaram nos argumentos num esforço para não dizer sim, nem não, muito pelo contrário, ou talvez, quem sabe. Também quem me pedisse menos emoção e mais literatura. Respeito todas as opiniões e repito aqui o que disse D. Helder Câmera: “Se você diverge de mim, não é meu inimigo, você me completa.”

Só entendam que eu não quis enveredar pelo subjetivismo encantador e lírico da poesia, que modestamente conheço. Isso eu já fiz nos poemas TEMPO DE CORVOS, O SAPO E O POETA, ANJOS CAÍDOS, MEIA-NOITE, SORRISO BRASILEIRO, SEM SAÍDA, ALELUIA, É NATAL, e tantos outros, em que abordei a problemática social e política.                      

Tenho prazer em escrever, em falar da vida que me rodeia, de pessoas, de fatos, da alegria e da tristeza. Nunca me tomem por intelectual, por favor. Seria injusto para com os que realmente o são. Não sou melhor que ninguém, até porque sei que sou pior que tantos.

Fui severo na crítica à parte de nossa sociedade, na qual me incluo, e principalmente aos senhores políticos, inclusive do nosso Congresso,  porque concordo com o que disse Joubert:  “As crianças precisam mais de exemplos do que de conselhos”.

 (maio/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/simoes.htm