Francisco Simões


MONTPELIER
 

Naquele dia de junho de 1998 nós viajávamos no trem Talgo, de Barcelona, na Espanha, para a cidade de Montpelier, na França. Chegando ao vagão-bar nos deparamos com um clima de festa. Bandeiras do México e uma cantoria alegre e contagiante.

Vários mexicanos viajavam também para Montpelier. No dia seguinte se realizaria lá o jogo México x Alemanha. Ao saberem que éramos brasileiros, simpaticamente deram vivas ao Brasil e a nós, claro. A confraternização era batizada com cerveja espanhola.

Já na gare notamos o aparato policial enorme. Mais tarde, no Centro da cidade, percebemos que a dimensão da segurança fora elevada ao máximo. Havia por lá muitos torcedores alemães também  e, junto com os ingleses, eles tinham deixado um rastro de violência por onde passaram.

Naquela primeira noite, na bonita Montpelier, assistimos a um concerto ao ar livre. Em frente ao magnífico Teatro “de la Comèdie”, situado na praça com o mesmo nome,  uma Orquestra Sinfônica tocava belas peças clássicas e apresentavam-se alguns corais. Ladeando a praça havia inúmeros restaurantes. Todos estavam replenos de franceses, alemães, mexicanos e outros. Ao término de cada número musical os aplausos surgiam efusivamente encaixilhados de assobios e brados de: “Germany”.... “México”....

No dia seguinte saímos para conhecer a cidade. A imensa e bem arborizada “Esplanade Charles de Gaulle”, “Le Triangle” e “Le Polygone” duas belas e estranhas obras arquitetônicas, o “Quartier Antigone”, uma enorme área circundada por edifícios de 5 andares, com muitos bancos e uma gigantesca área de pedestres, além da presença constante de árvores e plantas variadas. Logo ao fundo o Centro Europa e a “Esplanade de l’Europe” que termina às margens do rio Lez. Cidade encantadora Montpelier, situada a poucos quilômetros do Mar Mediterrâneo.

Indispensável uma passagem pelo “Promenade du Peyrou”, cruzando o Arco do Triunfo, e depois uma incursão a “Le Vieux Montpelier”, à centenária “Tour de la Babote” etc. Quando retornamos a “Place de la Comèdie” era final de tarde. Num imenso telão acompanhamos a virada de jogo que a Alemanha conseguiu para cima do México (2x1), há poucos minutos do fim. O policiamento estava então ainda mais reforçado.

Terminado o jogo foram surgindo na praça torcedores dos dois países. O clima era de expectativa. Ouve-se uma batucada familiar. Um grupo de brasileiros e franceses conseguiu encher o ar com o ritmo bem tupiniquim de uma Escola de Samba. Tratei de me infiltrar e filmar de todos os ângulos.

Aquela saudade, que a felicidade do turista amordaça enquanto ele se deleita com os prazeres da viagem, rompeu minha segurança e embaçou o visor da câmera de vídeo. A esperança do penta ainda se escondia no peito.

Os mexicanos, mais afeitos ao ritmo quente, entraram na dança segurando nas cadeiras das morenas, balançando seus imensos chapéus. Os alemães acompanhavam de forma mais tímida, mas não menos alegre, uma seqüência de movimentos que, para eles, representa um complicado balouço de pernas e ancas. O meu ritmo cardíaco sambava a galope.

Os últimos acordes da batucada verde e amarela já se faziam frágeis. Crescia na praça o som das esplanadas de tantos restaurantes. Começava a imperar a festa germânica. Policiais e carros blindados postavam-se à volta da “Place de la Comèdie”.  Um imenso coral agigantava-se. Era a vez de cornetas ensurdecedoras e buzinas estridentes.

Era o som da vitória: “Está chegando a hora”... cantado em alemão, gozando a desclassificação dos mexicanos. Como estes reagiriam? Irrompe pela praça uma bicicleta enorme de uns 6 a 7 metros de altura. No selim, lá bem no alto, um homem tocava uma trombeta e segurava a bandeira do México. Eu registrava tudo.

A platéia alemã aplaude entusiasticamente o tal ciclista circense. Ele encosta a imensa bicicleta num poste e começa a subi-lo. Um alemão faz o mesmo. Ambos chegam ao topo e descerram as duas bandeiras: mexicana e alemã. A seguir abraçam-se. O público vai ao delírio. Os policiais permaneciam sérios, vigilantes e desconfiados.

As luzes já haviam se acendido. A praça, iluminada, estava ainda mais bonita. O lindo teatro, acostumado a espetáculos mais refinados, não parecia reprovar aquele irreverente e meio desafinado coral. Entendeu que não podia exigir madrigais com alaúde ou harpa, posto que aquelas cornetas jamais tirariam sons poético-musicais.

Eu nada tinha a ver com aquela festa, mas minha emoção se globalizava, me arrepiava e me convidava para dançar. Um grupo numeroso de alemães e mexicanos cruza a praça pulando e cantando. Formam uma grande e animadíssima fila indiana. A música era alemã. A festa era alemã. A cerveja era franco-germânica.

Os animados foliões aproximam-se dos policiais e entregam flores a alguns deles.  Estabelecem uma confraternidade com os agentes da segurança. Reverenciam-nos e seguem seu trajeto numa orgia momesca. Por volta das 23 horas o som da Place de la Comèdie volta a ser substituído.

Num palco armado em frente ao grande teatro volta a batucada. Ela cresce, ocupa seu espaço e se identifica. Volta o calor sonoro dos atabaques, dos bumbos emoldurado por teclados. Um grupo apresentava boa música afro. A festa voltou-se mais para o nosso lado outra vez.  Já era bem mais de meia-noite quando decidimos voltar ao hotel.

Estávamos ainda contagiados com aquela alegria festeira e exuberante que presenciáramos. Antes de dormir Zezé me fez uma pergunta: e se o México tivesse vencido o jogo e, portanto, eliminado a Alemanha daquele Mundial? Preferi dar-lhe boa noite e manter na lembrança aquelas cenas que, graças a Deus, não confirmaram a expectativa policial de uma nova “guerra” em solo francês.

 (maio/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/simoes.htm