Francisco Simões


Quem tem medo da descupinização?
 

Qualquer pessoa, medianamente inteligente, percebe que para haver corruptos tem que haver corruptores. É quase como um daqueles princípios da matemática, lembram-se? Diria ainda que um é como oxigênio para o outro. Acabando-se com um deles o outro deixa de existir. Só que não é tão fácil quanto possa parecer.

Essa coisa excreta que é a corrupção existe no mundo desde priscas eras. O que não a recomenda e nem nos deve tirar o ânimo em combatê-la, claro. Ela tem raízes em toda parte. Raízes que crescem rápido tanto de baixo para cima como no vice-versa. Raízes que se disseminam  com a cumplicidade de um terreno fértil, ainda mais se adubado e regado com a impunidade áulica e assentida. Nestes casos ela, a corrupção, é sócia na mentira protetora e na cumplicidade do rabo preso.

Comecemos por exemplos bem simplórios do nosso quotidiano. Digamos que, para tentarmos nos livrar de uma enrascada, de uma situação em que transgredimos regras, oferecemos algo ou aceitamos a proposta de um fiscal ou  de um guarda de trânsito.  Há quem identifique este procedimento com o consagrado  apelo do “jeitinho brasileiro”, o que, ainda assim definido,  não o exime  do rótulo de suborno. Chegamos às vezes a comemorar a saída de um sufoco pela “compreensão” de certo agente da autoridade.  Ora, na realidade estamos é corrompendo alguém. 

Esse “jeitinho brasileiro”, encarado tradicionalmente como um hábito salutar, como uma marca, um padrão de comportamento encomiástico, prova de sagacidade, de astúcia, em realidade tem sido muito distorcido por conceitos e avaliações que o têm arrastado na classificação de atos os  mais condenáveis.

Quanto mais pomos em prática este comportamento mais semeamos a corrupção. Aquele que recebe a ação praticada por um agente chama-se de paciente. Nos exemplos apresentados os agentes são, na verdade, corruptores. Os pacientes, corruptos.

Diante de tantos escândalos indecorosos atiramos pedras nos corruptos, cuspimos neles a nossa indignação, e esse mesmo caminho é seguido por toda a mídia. Denúncias, provas, condenações, muitas vezes aliviadas por instrumentos legais ágeis, que desmentem a acusação de que a Justiça seja sempre lenta, porém todo o arsenal da revolta da sociedade foca apenas:  os corruptos.  Parece que quando são flagrados, ou temporariamente encarcerados, sentimo-nos saciados, fartados em nossa vingança. Ledo engano, podamos apenas alguns poucos galhos, nunca cortamos a raiz. Por que nunca conhecemos os corruptores? Onde eles se escondem? A quem interessa preservá-los?  

Transportemos nossa análise para o plano da política.  Sabemos que muitos representantes do povo têm sido apanhados em ilicitudes.  Vereadores, deputados, prefeitos, senadores, ministros etc,  têm cometido ilícitos de toda ordem. Uma seqüência tal de “exceções” que quase já não só tendem a confirmar uma regra, como estão a apodrecer os costumes, nestes casos, de cima para baixo.

A reação organizada da sociedade tem sido muito tênue e da mídia também. Ou  estamos, pela repetição constante de escândalos, a passar por um processo hipnógeno ou, o que é pior, a aceitar que essa rotina escabrosa freqüente o nosso cotidiano sem a caturrarmos, sem a questionarmos porque já nos “acostumamos a ela”.

Seguindo nesse raciocínio, sabemos que as campanhas políticas, todas elas, recebem ajudas, doações ou outro nome que se queira dar. Sabemos também que não são pequenas. Os doadores concedem ou transmitem  gratuitamente  tais verbas?  Não  cobranças a posteriori?

Grupos organizados de vários escalões da  sociedade civil,  batalham  sempre  para  eleger representantes seus nas Assembléias, Câmeras estaduais e  principalmente  no  Congresso.  Os  eleitos  formam  blocos  que  costumam agir coesos na defesa dos interesses dos grupos a que pertencem, por origem. Algumas vezes esses blocos aliam-se e,  usando o poder de barganha que detêm, confrontam o poder central quando este necessita de seu apoio. Não para fazer oposição, mas para tomar posição de proveito no jogo das “negociações”.

Em política e numa democracia isso é mesmo inevitável e até infelizmente legítimo. Tenho dúvidas é  do quanto a causa comum, que alcança a população em geral, tenha sido beneficiada pela atuação desses poderosos blocos. Os agentes negociadores costumam engolfar-se no jogo do “toma lá dá cá” o que, de certa forma, se encaminha para os princípios, ou falta deles, do processo de suborno, corrupção, peita. Novamente destacam- se os beneficiados, os favorecidos mas poupam-se os que os subornam, via de regra para também obter vantagem, que geralmente é oposta ao dever, à justiça e/ou à moral. Por quê? A quem interessa essa  “descuidada”  omissão?

Na fase atual porque passa a nossa sociedade, no seu todo, desde o suborno ao fiscal ou ao guarda de trânsito, transitando pelas propinas que facilitam aprovação de projetos variados, alguns ilegítimos, navegando por incontáveis maus exemplos até para se possuir uma certa lista de nomes que poderia representar uma arma poderosa em mãos criminosas e chantageadoras, ou pela presteza da justiça em aplicar o direito de liberdade a pessoas notórias denunciadas, seja por atos de corrupção, seja por fraudes etc, onde desviam  quantias imensas dos cofres públicos, ou mesmo quando autoridades usam de métodos, os mais desqualificados, para evitar um apuramento de apenas supostos indícios, considerando estes comportamentos que tendem a se espraiar  se não contidos, diria que estamos vivendo num imenso cupinzeiro.

Reconheço que têm havido algumas iniciativas visando à descupinização. Ocorre que os ararás, ou sililuias, vulgarmente conhecidos pela alcunha ou apodo de cupins, são muito organizados. Atacam em várias frentes ao mesmo tempo. Alguns deles são xilófagos e digerem facilmente a celulose, outros têm preferência por plantas vivas, raízes, tubérculos, e outros mais que alimentam-se de madeira. Há ainda os que não dispensam o papel, se papel-moeda então eles se fartam a grande. Por incrível que pareça há alguns grupos desses insetos isópteros que fazem a festa corroendo lajes, pilastras de edifícios que acabam por ruir. Conhecem-se ainda os hematófagos que se alimentam do sangue alheio. Quando alados podem alçar vôos mudando de paradeiro facilmente.

Descupinizar é preciso, mas tem sido uma tarefa árdua a sofrer mais derrotas do que vitórias, até o momento. Hoje os descupinizadores levam desvantagem porque os cupins formam uma imensa cupinzama alcançando os mais elevados pontos da pirâmide na qual estamos nós situados próximos a sua base. Estão a corroer alicerces da ética, da moral, da dignidade, da probidade, da honestidade, do pudonor. Para esses  “neo-cupins” vale a bandeira do aliciamento impudente, desavergonhado cujo lema retorna: “os fins justificam os meios”.

Mas, se a esmagadora maioria da base da pirâmide deseja descupinizar, livrar-nos dessa praga avassaladora que ameaça apodrecer ainda mais os já carcomidos hábitos e costumes, começando pelo suborno ao guarda de trânsito, quem pode temer uma descupinização séria, legítima, necessária e mais alongada? Quem?  Quem tem medo de uma descupinização total? É legítimo imaginarmos que somente querem reagir a ela os verdadeiros ararás, sililuias, os autênticos cupins, assumidos ou não.  Estampemos o nosso espanto emoldurado por nossa indignação:  “cui  prodest”?

 (maio/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/simoes.htm