as

 

      

Francisco Simões


SEM NOVIDADE,  APENAS DE NOVO 

Eu queria mesmo  mudar de assunto, faria bem ao meu coração, ao meu colesterol, a minha pressão arterial. Mas, como posso falar de flores se nos cravaram traiçoeiramente, mais uma vez, um grande espinho nas costas?

Vamos comungar nossas mentes na cidadania comum a todos, mas que alguns poucos têm tratado com vilipêndio? Vamos fazer um pequeno exercício de memória? Lembram-se que já fomos fiscais dos “marimbondos de fogo”? Atendendo ao chamamento da autoridade e em nome da defesa de nossos direitos a uma vida mais digna, sem os altos custos da inflação, associamo-nos com o mesmo intento.

Com a imensa boa vontade e a inabalável fé que nos soergue a cada aleivosia governista, brasileiros e brasileiras, de todas as faixas etárias, orgulhavam-se de estar se embatendo contra o inimigo comum. Denunciamos as aterradoras e insaciáveis máquinas de remarcar preços, execramos alguns supermercados. Mais do que nunca o povo era aliado do governo, o povo se sentia no poder. Ingênuo povo.

Nosso sócio e líder nessa aventura, sem a menor cerimônia e enrolando os fartos fios de seu bigode, que jamais embranquecem, só esperou a noite cair e sorrateiramente reuniu sua camarilha para consumar sua perfídia. Despertamos na aurora seguinte com a traição fincada em nossas esperanças. Saímos à rua fantasiados de palhaço ao final da ópera do cruzado.

Posteriormente, vindo dos benfazejos ares nordestinos, surgiu um “furacão” avassalador. Com um ímpeto veemente e incontrolável demoliu expectativas, devastou esperanças que se haviam renovado. Descoroçoou, logo no primeiro ato, o ânimo que reagrupara muitos milhões de corações e mentes.  A agressividade imposta na confiscação das reservas de todo um povo, novamente traído, ganhou uma juridicidade, uma legitimidade  dignas de um regime de exceção, de um poder absoluto. “L’État c’est moi.”

Meu bom amigo Francisco Ruas, de Lisboa, ao tomar conhecimento do fato e ainda meio incrédulo e aturdido, tartamudeou ao telefone essas palavras: “Ó amigo, mas o gajo não era um direitista? Como então se vale de métodos bolchevistas, oh pá?” Respondi-lhe  que por essas plagas nem tudo que se planta dá, como afirmara Pero Vaz de Caminha em sua carta ao Rei de Portugal. Pelo menos no campo da Ciência Política.

Assombrado, prosseguiu o Ruas: “Diga-me cá, então mudou o regime de governo aí?” Garanti-lhe que não. Ele insistiu: “Então o gajo, ao declarar o confisco geral, saiu preso do Palácio do Governo, foi isso?” A pergunta do amigo lusitano fazia sentido. Afinal aquela violência fora considerada, por autoridades do judiciário, de ilegal a inconstitucional.

Até hoje tenho sérias suspeitas de que, se o autor daquela confiscação de poupanças fosse um candidato com outra cor política, a hipótese levantada pelo Ruas teria se concretizado. Mas faltou ousadia, coragem, a quem competia impor a Lei contra um absurdo e injustificável confisco. Não estorvaram a ilegalidade. Permitiram que  a tirania, o insulto, a afronta maior se derramasse sobre o direito de cada cidadão, cidadã. Preferiu-se fechar os olhos, exibir ouvidos moucos aos protestos gerais, e legalizar aquela calamidade 

Como dizem que o que não tem remédio, remediado está, os ex-fiscais antiinflacionários travestiram-se de conformistas e se amoldaram  então ao “status quo” imposto a ferro e fogo.  Tal e qual cantou o excelente músico nordestino Zé Ramalho: “OH, Oh, Oh vida de gado, povo marcado, povo feliz...”  Mandaram-nos para o curral, ou melhor, tivemos que “chegar o rabo à ratoeira”...   Sem novidade, apenas de novo.

Certo dia a máscara começou a derreter e o poder estava descollorindo. Reanimamo-nos: pintou a chance, pintei a cara,  pintamos nas ruas e  pintamos o sete com o despótico reinado. Nosso esforço concentrado resultou vitorioso. Mas, e aí? O infame foi expurgado, mas jamais condenado; alijado, porém nunca sentenciado. Ainda bem que meu amigo lusitano não voltou a telefonar. Como lhe explicaria esta imponderável situação? Talvez nem o “Sobrenatural de Almeida”, de Nelson Rodrigues, tivesse argumentos.

Uma transição à mineira, que até que não comprometeu, legou-nos posteriormente um sociólogo, carimbado pela Sorbonne. Reagruparam-se as esperanças  porque a gente, como povo, anda acreditando até em previsão de videntes. Impressionante esta nossa tendência meio “suicida”. Não vimos solução melhor apesar do total comprometimento do escolhido com as raízes mais profundas do conservantismo histórico. Demos preferência ao discurso modernizante que depois apresentou fortes traços de entreguismo.  

De percalços em percalços, de denúncias em denúncias, de escarcéu em escarcéu levamos mais 7 longos anos para descobrir que havíamos contrariado o ditado que diz que o raio não cai 3 vezes no mesmo lugar! Queiramos ou não erramos, sim, por 3 vezes seguidas, em 3 sufrágios consecutivas, mas juraremos sempre que estávamos “querendo acertar”. A estrutura permanecerá sempre a mesma, os vícios também, enquanto não ousarmos mudar, primeiro a nós mesmos, para avaliarmos melhor nossas decisões.  É a minha opinião.

Qual Madalenas arrependidas retornamos então ao “mea culpa, mea culpa”. Repetimos o nosso ato de contrição, mais uma vez. Novidade? Não, apenas de novo. Se ao menos as nossas lágrimas enchessem as represas para impedir este irrazoável, irracional, injusto e facilmente evitável racionamento teríamos algum consolo. Mas não, resta-nos aceitar mesmo a carapuça imposta pelo magnífico Zé Ramalho (vale o replay), e cantarmos junto, ainda que no escuro: “OH OH OH, vida de gado, povo marcado, povo feliz...”

Quem tinha obrigação de saber diz que não sabia, porém a esses não faltará o conforto do ar condicionado, do banho quente, do freezer etc. Nós sim, teremos que expiar novamente o nosso pecado, cometido  no momento da escolha do nome. Nós os nomeamos para que soubessem sempre e provessem sempre o que é inerente às suas obrigações e deveres para conosco. Se não, por que estariam lá? Nossa contrapartida, além de gracejos mal-educados e ofensivos, como sermos chamados de vagabundos, é termos agora que ouvir reprimendas e ameaças (de corte de luz), aos gritos e dedo em riste.

Exorbitando de seus poderes estão nos denegrindo, deslustrando, infamando, conspurcando, desacreditando de forma injustificável faz tempo. Esquecem-se que de lá é que temos recebido os piores exemplos, os mais sórdidos, abjetos e vis modelos de conchavos e conluios.

No imbatível espírito solidário deste nobre e pródigo povo brasileiro lá vamos nós para o curral novamente. Alguma novidade? Não, apenas de novo. Dizia minha avó que mentira tem pernas curtas e mentiroso tem nariz comprido, mas alguns têm também uma imensa “cara-de-pau”. No final dos anos 80 e começo dos 90, a própria Light nos conclamava a gastar, com esta divulgação nos órgãos de imprensa: “Poupe a sua energia, gaste a nossa.” Passava-nos a imagem de que havia imensa reserva de energia.

Por outro lado, num pronunciamento feito em 1994, o mesmo cidadão que agora volta a nos chicotear impiedosamente afirmava: “Em setores como energia e comunicação, estamos próximos do estrangulamento...”  Desmemoriado por conveniência, usa agora o mesmo argumento do marido traído que foi o último a saber, e se julga no direito de nos impor castigo e acenar com ameaças, outra vez.  Até quando, brasileiros e brasileiras?

 (maio/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm