Francisco Simões


E O PALHAÇO QUEM É? 

Claro que sou eu, brasileiro, casado, aposentado, com CPF e Identidade do IFP, atestado de vacina antigripal, com todas as contas em dia, aprendiz de escritor e poeta, ex-bancário, ex-instrutor e coordenador de cursos de treinamento de pessoal, expositor de Arte Fotográfica, ex-realizador de filmes de curta-metragem, ex-radialista, Cidadão Cabofriense titulado, com muito orgulho, e graças a Deus sem nenhuma aspiração política.

Sobrevivo com minha aposentadoria, inclusive com o que chamam de “benefício”, do INSS. Só que o dicionário define a palavra como: “Serviço que se faz gratuitamente; favor, graça.”  Ora, paguei durante mais de 30 anos contribuições mensais para receber hoje um valor bem aquém ao proporcional contribuído. Talvez para que outros possam ter se locupletado a grande, apropriando-se de verdadeiras fortunas de um INSS, sempre anunciado como falido. 

Eu, palhaço-eleitor, indignado, e ao mesmo tempo pasmado, atônito, com essa indesmentível, embora quase inacreditável realidade que nos vem sendo imposta já há algum tempo e que agora anda  ultrapassando as raias da insanidade, do inaceitável desrespeito as nossas esperanças e aos nossos projetos de um futuro mais digno e justo para todos, ainda trabalho e com muito prazer. Invoco a saudade e o talento do poeta Vinicius de Moraes, para desabafar: vagabundo, vadio, ocioso, biltre  “é a tonga da mironga do cabuletê”. 

A essa altura da minha vida, entrando na reta final, confiava ainda em assistir a exemplos de uma justiça agindo permanentemente em consonância apenas com o direito e a verdade. Refiro-me à justiça ampla, emanada de todos os poderes constituídos, eleitos ou nomeados.

Mas a maioria dos fatos e decisões, exemplos e imposturas persistem numa seqüência e repetência  que podem nos conduzir a um perigoso abismo de desventuras, a um abissal infortúnio onde tenhamos todos nós, como povo, que pagar um elevado preço pela insensatez de uns poucos. Eu, palhaço patriota, entristecido, me vejo inclinado a concordar com as palavras do grande Caetano Veloso, em entrevista ao “O Globo” de 27.05.2001: “A própria idéia do Brasil como nação me cansa, estou de saco cheio”.

Mesmo assim, espero que ainda dê tempo para uma alteração de rumo e de atitudes. Que não se use racionamento de idéias, de vontade política, de determinação, de retidão de métodos e processos, para não nos conduzirem ao mesmo destino do Titanic.

Todavia, caso não haja a menor disposição ou empenho de quem de direito, caso insistam nesta orgia, neste festim báquico que nos humilha, nos explora, nos intimida, nos desrespeita, e não tendo eu, nem pela idade e nem por minha formação, disposição para armar-me além das idéias e das letras, conformar-me-ei em mandar reformar, mais uma vez, minha fantasia de palhaço. Afinal, de quem espero alguma dignidade escondida em atos contraditórios, esses andam preferindo não rasgar a sua fantasia, e parar com tanta dissimulação. Sabem que sempre poderão contar conosco para novos sacrifícios exigidos. 

Assusta-me ver que estão transformando esta Terra de Santa Cruz numa Torre de Babel e quem sabe ainda põem uma lona por cima! Estão quase conseguindo desmentir que o brasileiro tenha por profissão Esperança. Implantam o descrédito  na nossa fé, na nossa crença, nos nossos sonhos, na nossa confiança, empurrando-nos mais é para a desilusão.

Ter que admitir a identidade de palhaço, na minha idade, dói. Ter que aceitar minha impotência  numa luta inglória onde as palavras são apagadas, e às vezes sangram nas ruas, graças à borracha de cassetetes e balas policiais  que nos torturam, cumprindo ordens  superiores, atropelando nosso sagrado direito de denunciar, de reivindicar, de ser contra, enfim, é humilhante.  Arremete-nos aos áureos tempos do autoritarismo. 

Ter que presenciar a atos de renúncia adregados que simplesmente elidem, eliminam uma sentença que se tornava patente e esfumam condutas imprudentes e antiéticas e com elas a própria culpa comprovada, é desanimador. É o direito do direito de errar. É o descaramento da inocência culposa. É a insolência, o desaforo que ainda afronta com ameaças e usufrui da prerrogativa legal de reassumir função pública.

Ter que assistir a sorrisos irônicos  e debochados, vitoriosos em sentenças de absolvição, julgado que foram por erigir construções que depois se comprovaram  imperfeitas, tecnicamente incorretas, ou ardilosamente mal elaboradas pelo ganho ilícito, pela usura e que vieram a ruir, é para nos infame. Ainda mais, porque vieram a ceifar vidas e arruinar sonhos de famílias inteiras, evidências que entretanto não produziram nenhuma impressão ou enternecimento numa magistratura togada, cuja consciência, destoante, dissonante da realidade, o aconselhou.  

Ter que suportar uma “ação entre amigos”, quando o ex-aluno esforça-se para inocentar o ex-professor, estando em questão uma decisão que custou aos cofres públicos  mais de um bilhão e meio de reais,  conforme amplamente noticiado, é desalentador. O pior é ouvir e manter nossa cara de palhaço diante da justificativa de que fora uma “decisão heróica” que salvou a pátria da bancarrota, da ruína. Dignos “salvattores” da pátria amada, espoliada, salve, salve.

Ter que rememorar, num festival de impunidades que de há muito ludibria nossos anseios de justiça, quantas vidas foram repentinamente arrebatadas numa noite de 31 de dezembro, pela incúria, pela desídia de alguns, naquele naufrágio do Bateau Mouche, no litoral aqui da zona sul desse Rio de Janeiro, é deplorável. Mais frustrante é recordar que, aos denunciados, foi deixada a porta aberta pela qual se evadiram. Quem sabe retornam quando o crime tiver prescrito? É a criminalidade do planejamento que compensa!

Ter que tolerar uma ignominiosa, afrontosa resolução que cercearia, restringiria direitos constitucionalmente afiançados, em pleno regime dito democrático, mesmo com todas as suas falhas, lacunas e injustiças, seria como cortarem nossas línguas ou deceparem nossas cabeças.  Quão pouco valemos para aqueles aos quais destinamos o poder. Para aquela ex-ministra não passávamos de um “detalhe”, para esses sociais-democratas acho que fomos rebaixados a “dejetos”.

Ter que agüentar o desacato, o desprezo, a afronta definidos em palavras como  “fascistas”,  só mesmo por compaixão ou indulgência ao desespero daqueles que sentem sua arrogância e seu sorriso abusado fazerem água. Mas, consultemos o Dicionário Aurélio-2001: “Fascista – imperialista, antiliberal, antidemocrático.” Como vêm, essa carapuça não tem as medidas de nossas cabeças. Destinatário errado. Devolva-se ao remetente.

Claro que eu amo o meu país, só gostaria de vê-lo melhor dirigido. Não vejo nas críticas de letrados ou não letrados, irresponsabilidade, impertinência ou algo semelhante. Temos todos o sagrado direito de opinião e devemos expressá-la, sempre. Calar-se, ou sentar-se em cima do muro é que representa um desserviço.

Também estou mergulhado neste insano e facilmente evitável racionamento, se os responsáveis não tivessem sido tão imprudentes. Transferir agora aos críticos alguma parcela de responsabilidade e querer calar a voz do povo, a voz da razão, é querer, simploriamente, pôr a culpa nas vitimas e inocentar os culpados. Alertas, clamores sobre este risco já podiam ser ouvidos e lidos, repetidamente, desde 1985  (vide “O Globo” de 27.05.2001).

Assim sendo, sem receio de parecer ridículo ou burlesco, mas com minhas narículas recobertas novamente por essa pequena bola vermelha, um dos símbolos que caracterizam a seriedade da funçanata dos divertidos e dignos palhaços circenses, venho provar, mesmo indignado, que estabeleci, para mim e minha família, a meta dos 200 kw/mês de energia, de forma patriótica e radical. Não admito pagar uma sobretaxa que cheira a uma CPMF muito mais pesada e mal disfarçada.

Pela inutilidade dos mesmos, estou muito inclinado em negociar os seguintes utensílios: um freezer com pouco uso, 2 aparelhos de ar condicionado, 2 aparelhos de videocassete, um microondas novinho, duas torradeiras elétricas, um liquidificador, uma batedeira, uma máquina de lavar roupas, um computador com impressora, scanner, teclado etc, um poderoso “no break”, 20 lâmpadas incandescentes  de 100 watts, 10 lâmpadas incandescentes de 60 watts, uma TV de 24 polegadas, um abajur grande, de pé, com altura de 2 metros e lâmpada regulável de 300 watts e um chuveiro elétrico.

Poderei também aceitar, num sistema de troca, lâmpadas fluorescentes de 20 a 30 watts, candeeiros ou lampiões a querosene ou a gás, velas de vários tamanhos, inclusive de 7 e de 21 dias, várias dúzias de caixas de fósforo, lanternas pequenas e grandes, com pilhas, isqueiros, fogão a lenha (para me prevenir de um futuro racionamento de gás), 3 ou 4 aparelhos de telefone, com fio (para substituir os meus, sem fio, que consomem energia em stand-by), uma dúzia de leques (não importados), abanos vários, micro ventiladores a pilha etc.

Eu vou conseguir minha meta. Caso contrário, este palhaço sobrevivente seguirá a indicação dada pelo jornalista Ricardo Freire, no Estado de São Paulo, e se mudará para a pequena e simpática Caraíva, ao sul da Bahia, pertinho do Monte Paschoal. Bem próximo de onde tudo começou,  para começar de novo.

 (maio/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm