Francisco Simões

   
GUGA, A LUZ DO NOSSO APAGÃO

Eu já estava com outra crônica pronta em cima da temática do ingrato e injusto racionamento. Mas, neste momento estou feliz, muito feliz. Acabo de assistir à gigante, à magistral vitória de Guga, em Roland Garros. Vou falar desse super campeão e da minha imensa alegria, não vou permitir que a sufoquem.

Não, não vou falar da incompetência, da arrogância, da hipocrisia, das mentiras, dos descalabros, dos políticos que habitam no terreno frágil de nossa remendada e desnorteada democracia, na qual depositamos as nossas esperanças. Não vou falar que alguns insistem descaradamente, petulantemente em pôr a culpa em S. Pedro, no assunto do racionamento, omitindo convenientemente as inúmeras farras criminosas promovidas pelos homens na destruição do meio ambiente.

Hoje eu estou mesmo feliz porque temos Guga. Não, não vou me estender na análise do fato de que 88 milhões de brasileiros, mais da metade de nossa população, ou seja, 55% de lares neste país, não dispõem de água nem de esgoto. Terão energia elétrica?! Nem vou me referir à confissão do Ministro do Desenvolvimento (?) Agrário de que “o combate à seca fracassou mais uma vez...”, ou que a saúde de nosso povo vai mal, mas pode piorar com o retorno de doenças há tempos erradicadas, como a lepra e outras.  

Eu estou vibrando com Guga, sinônimo de sucesso, paradigma de competência. Vou guardar os dados que informam que nossa dívida externa subiu de 180 bilhões para 250 bilhões de dólares e a interna saltou olimpicamente de 61 bi para 560 bilhões, de dólares, embora tivessem dito que as liqüidariam com o montante a ser arrecadado nas privatizações. Como investiram tão pouco ou quase nada em educação, saúde, saneamento básico, energia elétrica etc, é provável que a montanha de “verdinhas” tenha sido sugada pelo buraco negro do FMI.

Estou emocionado ao ver a França se curvar ante o Brasil, ajoelhar-se aos pés de Guga, após nos terem abatido, acachapado, no futebol. Nossa outrora gloriosa seleção hoje é tão incompetente, tão omissa, tão desavergonhada, tão desacreditada, como muitos sorrisos desdenhosos e insolentes, desenhados nos rostos de tantos políticos. Vou deixar de lado minha severa crítica àquele imoral, impudente, infame, indigno e acintoso direito de renúncia que têm os políticos às vésperas de uma sentença de condenação.

Tal é o meu júbilo, o meu contentamento por mais um êxito de Guga que procurarei não lembrar, por hoje, que os senhores sociais democratas quase assinaram um AI – 6 ao tentarem, entre tantas chibatadas no nosso lombo, cassar o poder legítimo de discordarmos e recorrermos à justiça sobre o que julgássemos ferisse os nossos direitos de cidadãos e se contrapusesse às leis em vigor.

Meu coração hoje pulsa no compasso vitorioso de Guga e não pode perturbar-se com os Cacciola, Nicolau, Georgina, e toda uma equipe de larápios, fraudadores, usurpadores, que atuam no esporte coletivo de saquear o erário público. Hoje eu volto a sentir orgulho de ser brasileiro, patrício dele, do catarinense Gustavo Kuerten. Como alguém já disse, ele é o Brasil que está dando certo.

No passado tivemos outros exemplos dignificantes de bravos desportistas nos mais variados esportes. Alguns, ainda entre nós, estão a presenciar hoje a  dilapidação de todo um trajeto de glórias que ajudaram a escrever pelo esporte brasileiro, no plano internacional.  Refiro-me outra vez ao futebol (?) de nossa seleção, atualmente com uma bola menor que a usada por Guga, este mestre que converte a bolinha do tênis, com talento, num Brasil vitorioso, aplaudido, respeitado pelo mundo inteiro.

Mas o nosso herói Guga é, como diz o Hino Nacional, “gigante pela própria natureza”.  Um exemplo do objetivo alcançado pela dedicação ao trabalho, pelo denodo, pela perseverança, pela tenacidade. Verdadeiramente um modelo  do qual nossa juventude pode tirar tantos e bons ensinamentos. Franzino, Guga verga mas não quebra. De uma ou outra eventual derrota ele ressurge mais forte, mais guerreiro, mais combativo, mais vencedor, mais líder ainda.

Guga demonstra a todos nós e ao mundo como se pode conviver com o sucesso, com a fama sem perder a sua essência, sem abdicar de suas raízes, sem vestir uma fantasia de vencedor, sem irradiar antipatia ou pedantismo. Até a simplicidade de Guga nos dá muitas lições, nestes tempos de arrogâncias, egoísmos, estrelismos, individualismos de toda ordem. O “jeitinho brasileiro” de Guga se alicerça no trabalho, na faina, no esforço incomum de uma seriedade vencedora, nunca na malandragem, na indolência, na esperteza espúria que corrompe, que vicia, que violenta.   

Encanta-me o apego à família que ele demonstra sempre.  O gostar de ter ao seu lado, nos momentos mais importantes, vitoriosos ou não, entes tão queridos como a mãe, o irmão etc. Cativa-me, nos instantes gloriosos, vê-lo abrir mão de formalidades, quebrar o protocolo  e com desprendimento, não apenas referir-se a seus familiares que tanto o apóiam,  mas correr a abraçá-los, a beijá-los, a demonstrar publicamente o seu carinho, o seu agradecimento, o seu amor.

Vivemos indiscutivelmente uma época de inúmeros ambientes familiares desagregados em todos os níveis, em todas as classes sociais. Confortam-nos pois, exemplos como os da família de Gustavo Kuerten. Ele não sente vergonha de estar ao lado de sua mãe nem de demonstrar que a ama, mesmo sabendo que os olhos do mundo estão permanentemente postos  sobre sua pessoa. Divide os seus méritos com quem, certamente ultrapassou dificuldades, galgou obstáculos sem nunca recusar sua atenção, seu devotamento, também àquele filho que hoje é o seu troféu.

Tenho próximo a mim exemplos de jovens que recusam a presença de seus pais em ambientes onde possam estar com amigos e amigas. Dizem que “não tem nada a ver”. Mas também temos exemplos de pais que, por falta de tempo, mandam o motorista da família resolver, com a diretora do colégio,   algum problema  que seu filho ou filha esteja causando. Pois que haja muitas famílias como a de Guga.

Ele não faz racionamento de energia, da sua própria, claro. Ele a gera, a administra e a aplica com responsabilidade e total competência. Essas virtudes certamente faltaram, em grande escala, às nossas autoridades, conduzindo-nos a essa situação desastrosa e meio catastrófica, se  considerarmos as conseqüências inevitáveis desse racionamento como mais desemprego, aumento de preços, serviços ainda mais ineficientes em várias áreas, agravamento da insegurança nas ruas, agora mais escuras etc.

Para mitigar, aliviar o nosso calvário só mesmo recebendo o brilho, a cintilação de pessoas como Gustavo Kuerten, o brasileiro, o catarinense, o tri campeão em Roland Garros, a luz do nosso apagão... energético e moral.

 (junho/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm