ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

MEU SÁBADO

Hoje, quando escrevo, há lá fora um lindo dia de sábado. O céu está tão azul, pena que não se possa ver seu reflexo na Lagoa Rodrigo de Freitas. Seu espelho volta a ficar num tom vermelho escuro, num misto de algas e sangue, de mais uma mortandade de peixes.

Aí me recordo do mestre Carlos Drummond de Andrade que numa quadrinha lançou uma pergunta, há muitos anos, e que está sem uma resposta convincente até hoje. A indagação, por sinal muito simples, mesmo “a toa”, como ele disse, foi a seguinte: “Como pode um peixe vivo, morrer dentro da Lagoa?”

Invoco então a incurável e inconformada saudade do poetinha, no maior dos sentidos, nosso Vinicius de Moraes. Pois é, “porque hoje é sábado” eu não merecia ter esta visão tão triste da mais linda lagoa do mundo.

Porque hoje é sábado meus ouvidos deviam ter sido poupados de escutar um certo secretário do governo estadual afirmar, mas não escrever, que “este problema vai terminar no mês de outubro próximo...” Não será outro “outubro vermelho”?

Bem, porque hoje é sábado e tem um sol de veranico animo-me a ir à praia. Bolas, esqueci que ainda ontem avisaram que as praias estão impróprias para o banho. Só não entendo dizerem que... até o posto tal está imprópria, a partir dali não!

Haverá placas indicando aos coliformes fecais o caminho a seguir? E eles sabem ler? Então penso: bem, vou e fico só na areia. Ah sim, disseram também que a areia está igualmente muito poluída e posso pegar variados tipos de micoses. Quer dizer a praia é dos fungos, não nossa.

Então porque hoje é sábado vou até à banca do jornaleiro amigo, o Luis, na esquina da Aníbal de Mendonça com a Barão da Torre, aqui em Ipanema, perto de casa. Ele continua abatido, inconformado com o tri campeonato do Flamengo.

Jura que deixou de ser vascaíno...(ohhh!!) porque hoje é sábado falo que acredito. Vou aos jornais para passar o tempo. Má idéia, logo fico sabendo que a usina de Funil, operada por Furnas (ainda não privatizada... será que esqueceram?!) vende cada mil quilowatts a R$5,50 para Furnas. Baratinho, fico imaginando.

Por sua vez, essa vende os mesmos mil quilowatts para a Light por R$35,00 quer dizer, por 6,37 vezes mais, ou mais de 500% de valorização no preço de custo. Porque hoje é sábado e não quero esquentar a cabeça quase deixo de ler o resto da notícia. Mas o Luis me chamou a atenção.

Pois a Light repassa, os mesmos mil quilowatts, para o consumidor por... até limpei as lentes dos óculos achando que estavam embaçadas... por R$160,00. Parei de fazer contas. Antigamente isto chamava-se agiotagem, ou seja, usura, lucros exagerados. O verbete terá caído em desuso ou foi a lei? Aí não vale racionar?

Troco de jornal e leio que as autoridades insistem em que necessitamos economizar energia porque nós, brasileiros, “consumimos demais”. Bem, ao que sei nossa média, “per capita” ao ano, gira em torno de 2000 kw, enquanto que os argentinos consomem 2.100 e ainda nos oferecem energia para comprarmos!

E o Luis me mostra outro periódico que assegura: “Na Jamaica o consumo de energia elétrica, por pessoa/ano, é de 2.350 kw, na Malásia , 2.600, no Casaquistão,
3.150, na África do Sul, 4000, nos Emirados Árabes, 7.000, na Austrália, 10.000...

Porque hoje é sábado e está calor peguei um refrigerante que também vende ali na banca. E o bom Luís continuou: “Olhe só, nos Estados Unidos cada habitante consome, por ano, 12.000 kw, na Noruega, 25.000 kw, (quase me engasguei) na Rússia, 5.000...” Mandei ele parar e mudei de assunto.

Pego outro jornal. “As empresas privatizadas, do setor elétrico, já demitiram cerca de 100.000 trabalhadores.” Eles devem ter confundido desestatizar com desestabilizar. Quanto aos motivos de tanto desemprego em tão pouco tempo, bem, estes são tão graves e maquiavélicos que, porque hoje é sábado, vou omiti-los. Mas, vocês conhecem.

Olho para a outra estante de jornais e leio: “Sérgio Naya deve 10 anos de IPTU em prédio de luxo”... Ora, se caiu um prédio, matou pessoas, destruiu tantos sonhos, e não acharam um motivo “razoável” para o prender, o que é dever apenas R$227.770,00 à Prefeitura?

Raiva me dá lembrar que todo ano eu pago este imposto, à vista, e antes do vencimento. Sem ganhar nenhum bônus. Mas muitos inadimplentes, após anos de dívida, acabam recebendo como benesse o perdão de juros e correções. Parece que tem crime que compensa, sem querer apologizar, claro.

Isso me faz lembrar de um amigo que costumava dizer: “Olha, o crime nem é, às vezes, roubar, mas sim não roubar o suficiente para provar que é inocente, entendes?” Entender eu entendia, mas ficava mesmo parvo porque certas circunstâncias me levavam a ter que concordar com aquela assertiva calhorda.

Já ia pagar o refrigerante quando o Luis, para me azucrinar de vez, falou: “Sêo Simões, aqui diz que o homem de Brasília (FHC) está abatido e deprimido. Ele lamenta que não o tivessem avisado antes da gravidade da situação da energia...” Não me contive e, homenageando e lembrando ótimos e antigos personagens do Jô Soares em programas da Tv, bradei: “Não agüento, oh Luis, me tira o tubo...”

Voltei para casa. Pensei em usar o computador, mas lembrei que, para cumprir minha rigorosa meta de consumo, no racionamento, porque hoje é sábado, só posso me dar a este luxo logo mais à noite.

Peguei então o livro que o amigo de velha guarda, o Floriano Albuquerque, ou “Fluriano”, como ele mesmo se intitula, me dera de presente dois dias antes: “Os cem melhores poemas brasileiros do século”. Abri aleatoriamente e me encontrei com Manuel Bandeira: Poema do beco. Ele diz: “Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? – O que eu vejo é o beco.”

Olhei para a janela da sala e recordei que, há alguns anos, ela emoldurava um quadro maravilhoso: O Corcovado, o Cristo Redentor, o Sumaré, e parte da Lagoa Rodrigo de Freitas. O crescimento imobiliário roubou-me a cena. Agora vejo o vizinho em frente tomando cerveja na varanda.

Desci meus olhos para o livro e reli o Poema do Beco. Dei razão a Manuel Bandeira. Em seguida fechei rápido a janela. O mau cheiro dos milhares de peixes mortos na Lagoa invadia o meu momento meditativo. Apertou-me a saudade de Cabo Frio.

Lá eu tenho dunas, garças, gaivotas, passarinhos na janela, praia sem poluição, um silêncio sem buzinas, uma brisa marítima constante, a visão do mar, jardins que cercam a casa, um clima de poesia que nos acompanha aonde quer que vamos.

Eu amo Cabo Frio, morena, trigueira e sensual, não apenas porque hoje é sábado.


(Junho/2001)


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br