Francisco Simões

   
CONSUMIRAM MINHA ENERGIA

Não se preocupem, eu não fui atacado por vampiros. Não se trata disso. Tampouco fui acometido de alguma doença estranha, dessas inexplicáveis que se espalham neste mundo moderno. Também não me deixei desgastar com os atuais noticiários da mídia, embora tenham todos, do futebol à política, os ingredientes necessários para pôr nossos nervos em frangalhos.

Se eu disser que o título está ligado ao assunto de energia elétrica, alguns precipitadamente podem imaginar que alguém instalou um daqueles "gatos" que, através de uma ligação clandestina, estaria roubando energia do meu relógio. Fiquem tranqüilos, meus vizinhos são todos pessoas de bem, honestas e trabalhadoras.

Realmente me refiro ao racionamento nosso de cada dia. Foi exigido de todo mundo uma meta de consumo que  sabemos como foi calculada. A minha ficou em 376 quilowatts/mês. Desde que tomei conhecimento dela passei a fazer cálculos, troquei lâmpadas, desliguei da tomada vários aparelhos que essa gente boba do primeiro mundo pensa que tem utilidade.  Esbanjadores irresponsáveis.

Junto com minha esposa tracei rigoroso planejamento caseiro para a nossa admirável vida nova. Tal qual quando nos casamos, há 37 anos, olhamos um no olho do outro, colocamos as mãos sobre a folha de papel na qual anotamos nossa meta e fizemos nosso juramento: “não trairíamos as regras da Resolução nº 4, da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica.” Só faltaram o padre e o juiz. Ah, esquecemos também de convidar para a cerimônia o ministro de Minas e Energia. Quanto ao Sr. FHC não o convidamos, pois depois ele iria mesmo dizer que ninguém o avisara de nada!

Para não cansá-los deixarei de lado, por hoje, os detalhes do nosso rigoroso e radical programa para economizar energia. Só lhes garanto que os sanduíches de nosso lanche noturno ficaram mais saborosos esquentados na tostadeira manual. Animamo-nos ainda mais quando assistimos, em programa da TV, ao excelente humorista cego Geraldo Magela, com sua fantástica veia cômica, ensinar como viver num “apagão permanente”. Se não viram não sabem o que perderam.

É claro que nos nossos treinamentos demos algumas trombadas nos móveis, quebramos uma jarra de vidro, 3 copos, derrubamos dois porta-retratos e até colidimos na saída do corredor para a sala e caímos ao chão, um sobre o outro. Isto, na nossa idade, é muito estimulante. Lembramos até de nossos arroubos, quando namorávamos no escurinho do cinema.

Mas, voltando aos nossos cálculos, fizemos o acompanhamento de 3 em 3 dias e percebemos estar consumindo a média de 6,67kw/dia. Projetado para um mês deveríamos registrar um consumo em torno de 200kw. Jamais imagináramos conseguir gastar tão pouca energia. Quase acendemos todas as luzes para comemorar, mas nos contivemos e preferimos acender uma vela, cantar “Parabéns” e usar o resto de sua chama para iluminar o nosso jantar.

Imaginem que nos meses anteriores, por termos usado bastante ar condicionado face ao forte  calor que fizera, consumimos 660kw num e  670kw no mês seguinte.

Estávamos agora consumindo menos de um terço do que gastáramos, tanto em abril quanto em maio deste ano.

Chegou finalmente o dia (20/junho) em que o funcionário da Light viria ler os números no nosso medidor de energia elétrica. Quanta ansiedade. Não escondíamos nosso ar de vitoriosos. Nós que, colaborando com o racionamento do condomínio, passamos a só usar a escada, deixando o elevador para os doentes e preguiçosos! Estamos até mais elegantes, sem racionarmos a comida.

Esperamos o homem da Gestapo, digo, da Light, na portaria do prédio. Ficamos em silêncio. Um a um os relógios eram por ele observados. Chegou a vez do nosso. Ele olhou demoradamente e a seguir esfregou os olhos. Voltou a olhar para o relógio e anotou. Virou-se então para o porteiro e perguntou se a família havia viajado. Exultantes e com os olhos faiscando (de uma energia que não nos podem proibir de usar), apresentamo-nos ao funcionário. Ele registrara apenas... 190kw de consumo. Subimos ao pódio e recebemos dele os cumprimentos. A emoção nos dominava.

Nós que há muito tempo fôramos “fiscais do Sarney” coroávamos nossa atual missão de “vigias antiapagão”. Quanto orgulho do dever cumprido. A pátria se livraria do buraco negro. Aí lembramos que o governo prometeu pagar bônus aos que conseguissem consumir menos que a meta estabelecida. Voltamos às contas.

Nossa meta de consumo estabelecida pela Light é de 376 kw. Consumindo 190kw usamos praticamente a metade do que nos fora autorizado. Mais, se nos 376 já havia uma redução de 20% da média, que fora de 470kw, o consumo de apenas 190 representava uma economia, dentro das regras do governo, de 147% em relação àquela média (470). Visivelmente emocionados e exultantes entreolhamo-nos novamente e imaginamos que com os tais bônus que receberemos poderemos talvez comprar um carro novo, ou mesmo fazer outra viagem à Europa! Fantástico.

Foi quando minha mulher, mergulhada inteiramente naquele clima de salva pátria e hipnotizada por um entusiasmo cívico fora do comum fez essa proposta: e se oferecermos o dinheiro dos bônus ao governo para ajudar a pagar a dívida externa?

Houve um longo silêncio de estupefação, de espanto, da parte de todos os presentes só rompido quando nosso porteiro falou: “Ora madame, com essa dinheirama toda que eles vão lhe pagar a senhora compra logo o tal de FMI.” A explosão de gargalhadas premiou a perspicaz observação do Heleno.

No dia seguinte li nos jornais que a cidade economizara algo próximo dos 18%  de energia elétrica, no primeiro mês. Irritei-me profundamente. Ora, se nós economizáramos 147%, como a média podia estar tão baixa? Que raio de “energia solidária” é esta?  Então tem gente consumindo a energia que nós economizamos!

Lembrei-me que até cerca de 7 horas da manhã ou mais, todos os dias, com o sol de fora há muito tempo, as luzes de minha rua, aqui em Ipanema, ainda têm estado acesas. Imaginei que isso ocorra em todo o bairro. E por que não pensar que em toda a nossa cidade? À noite temos somente a metade da iluminação de antes e de dia os desperdícios habituais.

Bem, como vários serviços a que a população tem direito estão sendo prejudicados, como a Prefeitura nos fornece agora apenas 50% da iluminação nas ruas, ampliando as possibilidades do crescente mercado de assaltos, que tal pensar, como conseqüência, em promover redução no próximo IPTU? Mudemos o ditado, em vez de a César o que é de César, por que não, ao povo o que lhe é de direito?

Sei que em cabeça de político brasileiro é difícil enfiar qualquer idéia que corra na direção de favorecer a população. De nós só se lembrarão na próxima eleição, instante em que deveríamos esquecer deles também, mas o voto é obrigatório!

No momento há prefeito eleito pensando  em ser governador, governador recém eleito que tem idéia fixa de ser presidente da República, e presidente perdendo o sono com o esfacelamento das bases de apoio e lembrando que um outro acabou bradando: “Não me deixem só!” Será que Deus cansou de ser brasileiro e mudou de nacionalidade?

Eu, vitorioso na luta do racionamento, mas indignado sempre com a política que nos governa há muitos anos, (vai ver que é para compensar não termos terremotos, furacões, guerras, como dizia um amigo meu) neste moto perpétuo de desrespeito ao cidadão, no particular, e à cidadania, no coletivo, comentei a minha revolta com nosso bravo porteiro, no dia seguinte.

Ele, calmo como sempre,  parou, pensou longamente e foi buscar lá do fundo de suas reflexões esta observação que soou também como um comentário fruto de sua capacidade eventual de formular conceitos: “Pois é, e sua esposa  ainda queria ajudar os homens a pagar a dívida externa com os bônus do racionamento!!”

(Os dados numéricos aqui citados, referentes ao nosso racionamento de energia, são todos autênticos e tenho os comprovantes.)

 (junho/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm