Francisco Simões

   
SÊO  JOSÉ

Hoje  acordei com uma disposição fora  do comum. Após esfregar os olhos dei-me conta de que acordava em Cabo Frio. Pois é, lembrei-me de ter vindo passar uma semana aqui para resolver alguns assuntos rápidos. Que vontade de ficar!

O tempo está lindo, a passarada anunciou hoje a primeira das sete alvoradas que nos despertarão para a vida quieta e serena dessa bonita cidade nos próximos dias. Após o desjejum, minha esposa juntou o seu excelente estado de espírito ao meu e decidimos: vamos gastar muita, muita energia, vamos esbanjar energia hoje. Nada de racionamento.

Não se preocupem, não estávamos pregando nenhuma insurreição, nenhum motim, nada disso. Se bem que de repente me ocorreu uma citação atribuída a Oscar Wilde:  "Aos olhos de quem leu a história, a desobediência é a virtude original do homem. A desobediência permitiu o progresso – a desobediência é a rebelião". Esta mensagem do grande escritor, teatrólogo, poeta, vai para os que rapidinho se conformam com tudo e ainda pregam o conformismo, como forma de vida!

Mas, lá fomos nós, felizes, libertos, energizados, envolvidos por um certo entusiasmo lírico, pois aqui a poesia não só está no ar, no  mar, nas dunas, na natureza enfim, esta cidade é um verdadeiro poema. Disse o mestre Carlos Drummond de Andrade que “amar se prende amando”, pois aqui, viver é amar.

Uma parada na barraca Baleia Azul, do amigo e xará Francisco. Percebemos a presença de um senhor, sozinho, em silêncio, sentado na primeira mesa, de frente para a praia, olhos fixos no mar. Nada desviava sua atenção, nem o rádio da barraca, nem o espirro do Francisco. Após entregar as cópias de várias crônicas, que o bom Chico sempre me cobra para ler, levamos nossa alegria à beira-mar.

E ali estávamos nós, outra vez, iniciando nossa longa caminhada de uns 8 quilômetros no tapete macio dessa areia alva e fina, sob um débil sol de inverno e o carinho infalível da benfazeja brisa nordeste. Enciumado o mar lançava sua escuma aos nossos pés, manifestando-nos também  o seu apreço. Uma caminhada sem asfalto ao lado, sem buzinas enervantes, sem ciclistas imprudentes, sem monóxido de carbono no ar.

Enquanto as gaivotas se empenhavam em seguidos mergulhos buscando o alimento nós apertávamos o passo e o coração acelerava o ritmo determinando o compasso ideal para o aprimoramento da saúde dessa terceira idade que não se entrega fácil, porque ama a vida.

Uma hora e quinze minutos depois retornamos à Baleia Azul.  Esta é a barraca preferida por nós no inverno, no verão freqüentamos a do Pedro, em frente às dunas.  Mas isso é outra história e para outra crônica.

Seguindo a rotina, o Francisco nos trouxe uma cerveja geladinha, uma água de coco idem e dois bolinhos de aipim com carne. Na sombra, a brisa chegava a nos provocar um pequeno arrepio neste ameno inverno tropical. As dunas, estas parecem estar sempre cobertas de neve, tal a sua alvura. Aí o Chico começou a falar-nos daquele senhor que, qual uma estátua sentada, permanecia imóvel, de costas para o mundo e de frente para o infinito. Disse-me que ele era português, que nasceu em 1903… e que tem uma vitalidade impressionante. Essas referências despertaram a aparente indiferença do referido senhor. Moveu-se devagar, levantou-se e veio em nossa direção.

Apresentou-se com um sorriso muito mais jovem do que o tempo já lhe impusera, 98 anos. Impusera, em termos, porque o vigor da fala, a memória, a disposição para nos mostrar um pequeno exercício que ainda fazia com as pernas e o humor que não usava queixumes para se fazer engraçado, revelaram, até na elegância da postura, estarmos diante de um espírito jovem que carregava um corpo quase centenário. O nome dele: José. Claro, em Portugal não se batizam todos com Manuel ou Joaquim, mas também com Fernando, Francisco, Luís, Carlos, José etc.

Sêo José nasceu em uma pequena aldeia próxima à Águeda, que fica bem perto de Salreu, onde vivi um ano de minha infância. Percebemos ter algumas afinidades como o amor por Aveiro, o encanto por Coimbra, a paixão e a incurável saudade por Amália Rodrigues, o fascínio pelo mar, o respeito e a admiração pela poesia de Fernando Pessoa e do mestre Camões. Concordamos em que este deveria ainda ser muito lido hoje, quem sabe, em vez de inventar fórmulas e padronizar estilos, escrevêssemos mais, simplesmente, poesia.

Ele nos confessou que viveu intensamente sem jamais pensar na morte, acrescentando: “Cada dia para mim é um renascer, portanto é vida que recomeça. Amo viver, mas não quero mal à morte, afinal ela é uma loteria na qual um dia acertarei!”  Aí lembrei-me de um pensamento atribuído ao grande Luís Fernando Veríssimo. Teria ele dito: “Viva todos os dias como se fosse o último. Um dia você acerta.”

Contou-nos ter boas recordações da Ilha da Madeira, onde esteve quando jovem. Não resisti a dizer que, aos 10 anos (1947), quando por lá passamos, muitas coisas me marcaram. As rendas maravilhosas levadas em barcos e vendidas nos navios que ficavam fundeados ao largo. A visão da ilha fotografada por olhos que estavam no mar. O subir em estreita estrada de chão, onde não havia lugar para retas, até o ponto mais alto da Ilha e lá em cima aprender o que era estar realmente cercado de água por todos os lados.

Quando lhe falei que subi e desci a Ilha saboreando cerejas o tempo inteiro, o que fazia pela primeira vez na vida, Sêo José voltou a rir e falou da surra que tomara de um vizinho, quando criança, por não ter resistido à tentação de uma cerejeira carregadinha e oferecida. Tínhamos também a mesma atração pelos velhos comboios (trens) cortando os campos e as rias na região de Estarreja, Aveiro etc. Falei-lhe que ainda hoje, andar de comboio na Europa, para mim, é sentir-me resgatado da criminosa destruição de nossas ferrovias no Brasil.

Francisco ouvia tudo com atenção e até desligou o rádio. A seguir eu disse ao sêo José ter assistido a uma linda e inesquecível festa de S. João, no Porto, quando criança, mesmo às margens do Rio Douro. Seus olhos brilharam ainda mais, iluminados pelo reflexo do sol na saudade liquefeita em emoção pura que, naquele momento, trazia ao presente imagens tão ricas de um passado que valeu a pena ter vivido. Houve um breve silêncio enquanto nossas lembranças desfilavam por nossas mentes. A seguir falamos de Lisboa, do Marquês de Pombal, do Rossio, do Castelo de S. Jorge, da Mouraria, do Bairro Alto, do Chiado, dos Jerônimos, da Torre de Belém… acabamos por mergulhar nossas recordações nas águas do Rio Tejo, que em verdade nasce em Espanha com o nome de Tajo.

Por momentos eu silenciei e apenas ouvi a quem, mantendo-se tanto tempo calado apreciando o mar, estava certamente sequioso de falar. Afinal eu escutava quase um século de histórias de vida e isso era um privilégio. O presente, que tanto para Sêo José como para mim, representa já o futuro, não carrega relatos tão significativos ou emocionantes como o passado guardou.  Nossa conversa chegou ao Alentejo e ele comentou ser verdade o que se diz de os alentejanos não terem pressa para nada, nem para falar, nem comer, nem andar, nem viver. É uma gente tradicionalmente tranqüila, inteligente, perspicaz e com um coração maior que toda a bondade do mundo. Veio-me à mente a lembrança da amiga Rosário, uma alentejana que também manifesta seus sentimentos através de bonitas poesias.

Até o tempo parecia ter parado para ouvir as nossas histórias, ele percebeu que não jogávamos conversa fora. Aí lembrei-me do que escrevera recentemente o excelente Marciano Vasques, também titular deste Coojornal: “A conversa é um tesouro, um bem precioso, aquele que conversa converte, conversar é converter, é a conversão do outro ao universo comum, universo de concordâncias e discordâncias, mas comum, porque foi  convertido pela conversa.” O Marciano sabe das coisas da vida.

No universo de nossa longa conversa houve mais concordâncias, reencontros, descobertas, mas achamos enfim uma discordância. Sendo Sêo José de uma região mais ao norte era natural que se declarasse torcedor do F. C. do Porto. Eu, embora filho de pai tripeiro (natural da cidade do Porto), aos 10 anos me encantei com as cores do Benfica, clube da capital, Lisboa.

Direcionávamos a conversa para a Cidade Invicta (Porto) quando algumas pessoas, vindas da praia, nos interromperam. Eram familiares de Sêo José. Voltavam para casa e o levaram com eles. A despedida foi rápida mas ficou a promessa de novos encontros, pois ainda há muito que conversar, há muito que relembrar, revivendo.

 (julho/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm