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- Táxi em Paris

 

      

Francisco Simões

   

"MORS ULTIMA RATIO"

Naquela tarde, começo de outono, eu e minha esposa caminhávamos tranqüilamente pela calçada da Av. Visconde de Pirajá, em Ipanema. Íamos na direção da rua Farme de Amoedo. Eram mais de 17 horas e o sol já se mostrava preguiçoso. 

Repentinamente gritos ecoaram, ziguezagueando nas paredes dos edifícios: "Olha o rato... Pega o rato... Não deixa ele fugir... Cerca o rato por aí..." De pronto ocorreu-me que podia tratar-se de um desses ratos que andam tão em evidência no noticiário policial. Quem sabe, recém libertado da ratoeira por uma liminar, estaria passeando e fora descoberto por alguns cidadãos mais exaltados. Quereriam linchá-lo?

Os gritos ameaçadores, para o rato, continuavam. Parecia que a irritação se generalizava. Quando insufladas, certas pessoas rompem seu equilíbrio, querem justiçar com as próprias mãos, põem em risco a ordem. Afinal há que respeitar se um rato ou uma ratazana foi posta em liberdade, ainda mais que, por terem endereço certo e sabido, não representam ameaça à sociedade. É o que diz habitualmente o magistrado. 

Sei que é difícil fazer as pessoas entenderem que, pelo fato de alguns ratos ou ratazanas, terem roído centenas de milhões de reais de um prédio inacabado, ou se empanzinado com bilhões de reais da previdência social, ou construído condomínios de areia que destruíram os sonhos de dezenas de famílias, ou montado barcos de papel que afundaram e afogaram vidas, ou embolsado saldos de milhões de poupanças de terceiros e, precavidamente, as terem resguardado em suas contas no exterior, contra desvalorizações inesperadas, não significa que isso represente algum indício de ameaça permanente. Absolutamente.

De cabeça fria imaginei que, ameaça, representamos nós, cidadãos comuns. Quando saímos de casa para ir a um cinema, a um teatro, fazer compras, visitar amigos, ir à praia ou simplesmente passear, expomo-nos de forma irresponsável. Podemos ser assaltados, seqüestrados, atingidos por uma bala perdida e depois ainda vamos por a culpa nas autoridades. 

O clamor da massa continuava quando nos aproximamos do meio-fio. O sinal da Visconde estava fechado para os veículos. Da Farme de Amoedo não saía nenhum carro. Meus olhos testemunharam não se tratar de nenhuma das ratazanas que eu imaginara e nem de algum ratoneiro. 

Um mamífero roedor, de quatro patas, corria mais rápido que o tempo justo pelo meio da avenida. Atrás dele, um cidadão alto e forte o perseguia. O rato ia na direção da faixa de pedestres, àquela altura repleta de gente que atravessava a avenida.

Estando toda a platéia contra o indefeso ratinho, aquele jovem deve ter sido tentado a ter o seu momento de glória. Imaginou salvar o mundo daquele monstro ameaçador. Confesso que ao ver o ódio transbordar pelo olhar do gigante agressor tocou-me um sentimento de pena pelo minúsculo roedor em sua fuga solitária. O Tom jamais atacaria o Jerry com tal ânimo belicoso.

Alcançando o rato, o furioso justiceiro aplicou-lhe violento chute pela traseira e se pôs a festejar um sucesso desastrado. Ele nem sequer se apercebeu de que o rato, com a violência do impulso, foi chocar-se contra um carrinho de bebê que calmamente cruzava dentro da faixa de segurança dos transeuntes. O impacto fez balançar o carrinho e deixou perplexa a assustada mamãe. Por muito pouco o rato não foi embater-se contra o corpinho da criança.

Fiquei estarrecido com a indiferença das pessoas para com aquela cena. Talvez o ódio pelo rato fosse tão forte que não sobrara espaço para um gesto ou uma palavra de solidariedade para com aquela senhora. Do alucinado caçador de ratos, inconseqüente, não se podia esperar nem ao menos um aceno de desculpa, claro.

A vida seguiu normalmente, menos para o rato que jazia no asfalto. Para a mãe do bebê deve ter-se acendido mais uma preocupação: quando cruzar uma rua não se descuide dos automóveis, dos ônibus, das bicicletas, das motos, dos distraídos, dos patinetes, dos trombadinhas, das balas perdidas, dos apressados, dos "transeuntes-celulares," de eventuais ratazanas voadoras e de heróicos energúmenos. 

Divaguemos um pouco. Caso o corpo do rato não encontrasse aquele obstáculo no caminho poderia ter-se chocado com o corpo de alguém. Qualquer pessoa de qualquer idade e sexo. O susto seria imenso e a reação de quem fosse atingido talvez gerasse um clima conflituoso.

Admitamos ainda que o réptil ultrapassasse a barreira humana e fosse espatifar o pára-brisa de um dos veículos parados por força do sinal fechado. Com essa onda de violência o motorista poderia sair com uma arma na mão e, certamente o primeiro a desaparecer da cena, seria o irresponsável causador da tragédia.

Hoje em dia espera-se até ser atingido por pedaços de aeronaves abandonadas no espaço sideral ou por turbinas que se soltam de grandes aviões a jato etc. Mas, por um rato voador é mesmo para matar de susto ou deixar louco de raiva. 

Pensando bem, o indigente ratinho possuía mais cérebro que seu perseguidor desastrado. Pelo menos ele corria fugindo de um perigo iminente. O outro, se cérebro tinha, deveria estar dentro do sapato. 

Poderia terminar com a moral (ou será a imoral) da história: "ratos e ratazanas de duas patas, quando em apuros, costumam sair-se bem da situação, já os de quatro patas quase sempre se dão mal."

Pensando melhor decidi encerrar justificando o título, que é um ditado em latim. Afinal talvez ele explique a insensata, irresponsável e quase demente atitude do exterminador do rato. Diz o ditado: "Mors ultima ratio"..... a morte é a razão final, o derradeiro argumento.



 (julho/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro/BR
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm