Francisco Simões

   

CONCURSOS LITERÁRIOS

Há algum tempo atrás eu escrevi sobre concursos literários, mas tratei apenas da exigência de ineditismo para os trabalhos inscritos. Quem desejar saber minha opinião poderá lê-la clicando, aqui mesmo ao lado esquerdo, na crônica INEDITISMO. É JUSTO? 

Sobre ineditismo, acrescento hoje uma afirmação de Malva Barros, do Armazém Literário, e que consta do regulamento do concurso que ela organiza. Diz a Malva: "Os Contos e/ou Poesias não precisam ser inéditos, pois o ineditismo não é garantia da excelência de uma obra literária e tampouco ela perderá a qualidade por ter sido apreciada em outro evento." Concordo plenamente. Outros argumentos eu esmiucei na crônica acima referida.

Vamos a outros pontos que são colocados também como exigência, os quais se não atendidos, eliminarão o concorrente. Por exemplo: "repetir no lugar do remetente o endereço completo do concurso". Isto desobedece orientação dos Correios. Eles exigem, e com toda razão, que sempre seja colocado o nome do remetente com endereço completo. Portanto, a exigência é algo disparatado e que contraria o bom senso. Não se sustenta sequer com a desculpa da não identificação do concorrente. 

É importante que se mantenha o anonimato nos concursos que exigem pseudônimo, mas também não exageremos. Sabemos que os jurados recebem apenas as poesias e essas vão, nesses casos, somente com o título e o pseudônimo. Por que a preocupação com o nome do remetente que consta no envelope maior da remessa e jamais chega às mãos dos jurados? Se querem um exemplo eu lhes dou: isto ocorreu comigo em um concurso em Roque Gonzales (RS). 

Os concorrentes ficam sem saber se sua remessa, para concursos, chega até lá. Se houver um extravio desconheceremos. Por que os organizadores não se preocupam, aí sim, em dar sempre um retorno aos participantes, pela via que for mais conveniente, quando os trabalhos chegam as suas mãos? Será que não merecemos esta atenção? Sem participantes não haverá concursos. 

Há os que exigem: "cada trabalho deverá ter um pseudônimo diferente", sendo que alguns ainda acrescentam: "e devem ser remetidos em envelopes separados". Ora, isto obriga o concorrente a fazer tantas remessas quantos forem os trabalhos inscritos por ele. Por que criar mais despesa, e desnecessária, para quem, participando, está prestigiando o evento? Não é uma maldade que já deveria ter sido repensada? 

Alguns concursos pedem que remetamos o número do documento de identidade. Até aí nada de mais, porém outros não se satisfazem e querem uma cópia xerox do referido documento! Sinto-me, nesses casos, como que inscrevendo poesias na Receita Federal. Ainda bem que é uma minoria nada significativa, mas existe.

Sobre a limitação do número de versos já ouvi várias explicações, mas não me convenceram. Quando exigem que a poesia tenha no máximo 20, ou 25 ou 30 versos, limite este preferido pela maioria, estão impossibilitando a inscrição de muitos trabalhos e a participação de muitos poetas pelo "crime" de seus poemas serem um pouco maiores do que quer a organização do concurso. 

Qual a vantagem para o evento? O ideal não é haver a maior participação possível? O interesse dos que organizam certames com muita luta, muito amor, muito sacrifício, eu sei, não é ampliar o leque de possibilidades para poetas, contistas, cronistas tentarem o seu lugar ao sol? Afinal sabemos que esses certames se voltam mesmo para os "sem oportunidade". Não vejo autores consagrados se interessarem por eles. E então?

Já leram quantos e belos poemas de Drummond, Vinicius, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa e tantos outros contêm mais, e alguns muito mais, que 30 versos? Eles seriam "barrados no baile"? Foram todos editados sem problema sempre e, graças a Deus, o foram.

Outros organizadores, mais "engenhosos", além de limitarem o número de versos, ainda acrescentam: "limite de 30 linhas, contando-se as linhas entre os versos." Será que não percebem que assim estão alijando as poesias diferentes, as chamadas modernistas, concretistas, etc? Elas têm habitualmente uma construção fora dos padrões clássicos. Não podem atender àquela exigência. Eu mesmo tenho algumas e lamento não poder inscrevê-las na imensa maioria desses concursos, mas outros hão de ter também. Não lhes interessa conhecer esses trabalhos?

Ano passado eu li na internet o regulamento de certo concurso que simplesmente repetia várias vezes esta expressão: "será banido do concurso..." Referia-se ao não cumprimento desta ou daquela exigência. Fiquei numa dúvida cruel: linguagem remanescente do autoritarismo em concurso literário? Preferi achar que era só uma forma de dizer, embora, convenhamos, totalmente inadequada. 

Outro ponto aparentemente inofensivo. Eu tenho o hábito de guardar meus trabalhos em uma pasta dentro de Meus Documentos. Eles estão sempre digitados com espaço um, exceto os não clássicos. É o normal e creio que todo mundo faz o mesmo. Entretanto muitos organizadores exigem que as poesias, e mesmo contos e crônicas, sejam inscritos com espaço 2 entre os versos, ou entre as linhas da prosa. 

Por quê? Ao que leva isto? Não falo só pelo trabalho que nos dão de ter que alterar todo o esquema em que estão arquivadas nossas poesias, contos ou crônicas, mas já pensaram que este detalhe deforma alguns poemas? Que alongam demais contos e crônicas, e significa muito mais papel para impressão? Que mais papel representa mais árvores derrubadas? Alguém já viu poesia ou prosa publicada com espaço dois? E os trabalhos não clássicos, não são aí novamente prejudicados?

Alguém me deu uma explicação tão absurda que pensei estar brincando. Disse que é necessário aquele intervalo maior entre as linhas para que os jurados tenham ali um espaço para fazer anotações!! Não acredito que não lhes reste mais nenhum espaço, em toda a folha de cada trabalho, para eventuais observações. E é no poema ou no conto que o jurado faz anotações? Não creio mesmo.

Quanto ao ineditismo, se o querem adotar, pelo menos que cada organizador tenha o zelo, a atenção de explicitar no regulamento o que, para cada um, significa "ser inédito". Peço isto porque já ouvi as mais variadas interpretações. Elas vão desde: "inédito é o trabalho nunca publicado", até mesmo "...que nunca tenha participado de concurso, premiado ou não...", até o extremo "...que não esteja na internet..." O que não li em regulamento foi-me explicado em consultas que fiz.

O curioso é que vejo tanto os sites de literatura quanto os concursos literários como aliados dos autores "sem escada", ou sem oportunidade, mas que tenham talento e trabalhos de valor para mostrar. Por isso não entendo essa contramão de alguns regulamentos. Ademais que mal existe em este ou aquele trabalho ser premiado em mais de um concurso? Influenciar jurados é argumentação tola e sem fundamento. 

Meu poema MEIA-NOITE, se já ganhou uns 5 prêmios em concursos, desde dezº/1999, em outros 5, só este ano, não mereceu qualquer premiação. Pela lógica boba de alguns ele seria muito mais premiado e isto não tem acontecido.

Não discordo da cobrança de taxa em certos casos, mas, assim como uns cobram R$1,00 e outros R$5,00 pelo conjunto de inscrições, outros andam cobrando R$10,00. Gostaria que revissem seus critérios os que cobram os mesmos valores, mas por trabalho inscrito! É mesmo necessário arrecadar tanto?

Sabem o quanto respeito o trabalho das pessoas que se dedicam e muito, tomando até horas de seu lazer pessoal, assumindo algumas vezes despesas originadas de sua iniciativa, para levar a cabo concursos literários. Eles são muito importantes para os que tentam sair da sombra do ostracismo para a luz do reconhecimento. Poucos porém têm cobertura de algum órgão oficial e mesmo assim este apoio, muitas vezes, não envolve verbas, só palavras. 

Considero que já fui até mais premiado que merecia, por isso me sinto a cavalheiro para fazer esta análise séria. Meu objetivo é apenas colaborar. Fico triste quando percebo que alguns organizadores preferem o silêncio autoritário, em defesa de suas posições, a trocar idéias, a ouvir opiniões discordantes. Gostaria que alguns ao menos defendessem seus argumentos. Quando da outra crônica, ninguém que de mim discordou me escreveu. Só o fizeram os que estavam de acordo comigo. Não era o que eu esperava.


 (julho/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm