ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

APAGÃO DA ESTRELA VERMELHA?

 

Li ultimamente, tanto em O Globo, como no JB, na Tribuna da Imprensa e na Folha de S. Paulo, informações dando conta de que personagens representativos do PT vinham sendo convidados ao Palácio do Planalto para, digamos, “conversas ao pé do ouvido”. Nomes de pessoas por quem tenho o maior respeito foram citados naquelas notícias. Afirmaram que houve encontros. Eu não queria acreditar.

Bem, não sejamos radicais a ponto de achar que a oposição não possa, ou não deva conversar com o governo, não é isso. Ocorre que diante das severas críticas feitas, repetida e reciprocamente, ainda há poucos dias, tanto pelo Sr. FHC contra o Lula e o PT de uma forma geral, e o reverso das respostas duras, não somente de Lula, mas de outros expoentes petistas, como aceitar os fatos que se seguiram?

O senador Suplicy e o Sr. Mercadante são expoentes máximos do Partido dos Trabalhadores. Habitualmente têm sempre posturas corretas, discursos equilibrados e coerentes, sem radicalismos, mas de uma oposição em que eu tenho confiado. Imaginei durante muitos anos que algum dia essa estrutura desgastada e injusta que nos massacra a cada governo poderia ser mudada.

Ocorre que os dois destacados petistas aceitaram convite e fizeram parte da caravana do Governo que foi ao Peru assistir à posse do novo Presidente. Por quê? Ora, dois dias antes, o PT, pela voz de Lula, fazia novas e duras críticas ao novo acordo com o FMI, alertava para exigências do Fundo que poderiam ser muito lesivas aos interesses brasileiros. Dizia Lula também que “esse acordo tem o objetivo de engessar o próximo governo”. Concordei com ele.

Depois leio que o Lula disse admitir no seu palanque a presença do Governo atual, e teria afirmado que “em política nunca se pode dizer que algo não vai acontecer.” Desculpem, mas isso não me cheira bem. Nos 3 últimos pleitos eu votei no Sr. Luis Inácio Lula da Silva. Votei e perdi democraticamente. Difícil é começar a perder a confiança no momento em que eu tenha que admitir que os ataques constantes, as críticas seguidas entre essas duas partes, possam não ter passado de meras cenas teatrais bem interpretadas. A ser verdade seria mesmo lamentável.

Este “morde e assopra” não fica bem para o PT. Para o Governo até pode interessar. Se não conseguir emplacar candidato próprio para o segundo turno e querendo evitar a vitória de outros, quem sabe a de Itamar Franco, subir no palanque com o Lula é tudo de que ele gostaria. Mas, como fica a cara do PT?

Sempre acreditei que ele era mesmo um partido diferente, com pessoas competentes, vacinadas contra certos tipos de acordos e pactos tão comuns entre outros partidos. Acordos que muitas das vezes revelam-se adesistas a qualquer custo, em que os fins justificam os meios.

Jamais imaginei que o PT, para chegar ao poder, pudesse se valer de recursos semelhantes. Creio que é preferível a derrota honrosa do que uma vitória a esse preço. Se fizer algum acordo, do qual depois queira fugir, estando já no poder, irá agir como uns e outros têm feito. Não será dignificante nem original.

Acompanho o PT desde sua fundação, em pleno regime autoritário, nos anos 60. Creio que foi em 1967 que assisti a uma passeata, ainda tímida, com poucos adeptos, numa certa tarde na Av. Rio Branco, no Rio. Ali vi a cara do PT de frente, pela primeira vez. Com o passar do tempo empolguei-me com o crescimento, não apenas numérico, mas principalmente qualitativo, dos quadros petistas. Segui os seus passos.

Já estou cansado, como muita gente brasileira, com essa seqüência de planos mirabolantes, mágicos, eletrizantes. Não dá mais para suportar choques econômicos, troca de moedas e outros artifícios que, com o passar do tempo vão se mostrando ineficientes, ilusórios, apenas um logro a mais e frustações imensas para um povo que, de boa fé, sempre os apóia e neles acredita.

No Brasil, em matéria de políticos e de políticas, quase nada tem sido permanente há muitos anos. Ficamos a mercê de projetos provisórios, temporários e uma insegurança que assusta, causa desempregos, gera falências, corrói salários, aumenta a pobreza, desampara a velhice, desprotege a cultura, abandona a saúde pública, desestimula planos a médio e longo prazo. A eficiência está apenas nos discursos. Quando isto terá um basta?

Se olho para o atual quadro de candidatos a candidatos, ditos de oposição, vejo vaidades exacerbadas, ambições carreiristas, ressentimentos vingativos, enfim nada que me anime, que me estimule, que me plante esperança. Essa já a revelei em parágrafos anteriores, mas parece estar perdendo o perfil, afrouxando as rédeas.

Uma coisa é não ser radical, outra é optar pelo adesismo, frustrando expectativas de uma séria e responsável mudança de rumos que leve a um empenho honesto de se fazer justiça social, reforma agrária, de se ter uma escola pública eficiente e abrangente, enfim, de se mudar realmente a cara desse país onde cerca de 80 milhões de pessoas sequer têm saneamento básico, onde cerca de 90 milhões de pessoas praticam o milagre de continuarem vivos, ganhando menos de meio salário mínimo ou mesmo nada, etc, etc.

Mas, em quem devo acreditar? No Lula, ou no PT, que faz denúncias, que condena o recente acordo com o FMI, ou no Lula, ou no PT, que convida o governo, que ele critica, para ir para o seu palanque e ainda aceita viagens em caravana oficial ao exterior, o que tanto combateu em outros partidos?

Onde fica a coerência? Se os órgãos de imprensa não foram fiéis nessas notícias quando virá o desmentido? Para onde devo encaminhar a minha já tênue esperança de ver o “país do futuro” se estou às portas dos 65 anos de idade?

Indignado, mas como um cidadão responsável, vou cumprindo com sobras a minha meta no racionamento de energia. Até suporto isto, apesar dos pesares que todos conhecem. Talvez não suporte é ver um eventual apagão da estrela vermelha. Por favor, voltem para a coerência, sem radicalismos, mas também sem adesismos comprometedores. Pode ser minha derradeira esperança.




(agosto de 2001)


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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