Francisco Simões

   

ÓPERA DO CIO

Era quase uma hora da madrugada. Desliguei o computador e me encaminhei para o quarto. O sono se fazia pesado e uma aragem muito fresca tornava o silêncio ainda mais convidativo para se adormecer profundamente, ou, como dizem alguns, bater com a cama nas costas.

Nos galhos, os pássaros estavam inertes, a natureza calada. A noite alta não tinha porém um céu risonho, como disse o poeta. Havia muitas nuvens, aproximava-se uma frente fria. 

Deitei-me e, como faço sempre antes de entregar-me aos braços de Morfeu, deixei que minha mente vagasse aleatoriamente. É como um pensar sem prévio script. Viajava no tempo, passeava entre idéias, planava entre anseios e fantasias. Relaxava enquanto meus sentidos não mergulhavam no sono profundo.

A janela do meu quarto dá para uma pracinha interna do condomínio de uso privativo dos moradores. Ela é bem arborizada, tem canteiros floridos, a presença diária de muitos passarinhos, inclusive do pontual amante, o beija-flor que, atraído pelo néctar, aproveita e corteja todas as flores que parecem sorrir sempre para ele.

À noite imagino que a pequena e acolhedora praça seja visitada por fadas, gnomos, duendes, acompanhados de devas que ajudam a compor o astral do lugar com benfazejas influências para os folguedos do dia seguinte. Todas as manhãs a praça recebe os primeiros raios de sol com alegria, transmitindo energia e vida através da natureza que desperta.

Após alguns minutos eu adormeci. Passava talvez do segundo para o terceiro sonho quando fui chamado de volta à realidade por um ruído, assim como um som lastimoso e plangente que se repetia. Ora em tom meio grave, ora bastante agudo. Com pequenos intervalos silenciosos, logo aquele som voltava, como estabelecido em um dueto. Assemelhava-se a um canto a duas vozes, algo a ver com ópera, ou coisa parecida. O som vinha da praça.

Olhei o relógio: eram 3:30h da madrugada. Levantei-me e pé ante pé fui até à janela. O vento sudoeste começava a soprar num prenúncio de que a frente fria enfim se aproximava. Olhei para baixo, pois nosso quarto fica no segundo piso, e vi dois felídeos, um gato e uma gata, um bem em frente ao outro, imóveis qual estátuas, olhos nos olhos. 

Indiferentes a tudo continuavam a romper o silêncio com seu dueto, qual desafio, algo semelhante a uma ópera-bufa, guardadas as devidas proporções. Não havia luta, nem indícios de um iminente acasalamento. Logo reconheci a felina, tratava-se da bonita gata siamesa da vizinha Marly. O gatão negro, que completava a cena, costumava ser visto circulando pelo condomínio. 

Lembrei-me então de que na véspera a amiga Marly me falara que Magda, a sua gatinha siamesa, estava naquela fase torturante do cio, ou no período de desejo sexual intenso. O curioso é que o animal não se entrega fácil como seria de se imaginar, apesar da ardente vontade interior. Percebe-se uma tácita exigência de um cortejo por parte do macho. 

Eu não queria interrompê-los, mas, por outro lado, queria dormir e era mesmo impossível. Foi quando no meu ombro direito surgiu "Chico Diabo", ou o anjo rebelde, assim como nos desenhos animados. No ombro esquerdo pousou "Chico Alado", o anjo bom. 

O da direita mandava-me acabar com a orgia dos felídeos, incitava-me a atacá-los e pô-los a correr dali. O pacífico e conciliador "Chico Alado" desaconselhava-me a dar ouvidos ao outro. Fazia-me ver que os gatos apenas atendiam ao apelo, ao chamamento da mãe natureza e que não seria justo os estorvar, impedi-los num ritual de vida e de amor. Ao som repetitivo e lastimoso dos gatos, juntou-se a feroz contenda entre os dois lídimos representantes da minha dualidade intrínseca.

Já passava das 4 horas quando, num impulso incontrolável, peguei dois copos e os enchi de água. Mesmo sob os veementes protestos do anjo bom arremessei o líquido pela janela. Nem cheguei a assustar os felinos. Esquecera-me que nossas janelas têm todas, além de grades, também telas que nos protegem contra eventuais ataques de mosquitos terroristas. A água caiu mais para dentro do que para fora.

Encharquei a calça e tive que suportar a risadinha zombeteira de "Chico Diabo" pela minha incompetência. Enquanto isso prosseguia na praça "a ópera do cio". O vento sudoeste soprava mais forte e mais frio. Àquela altura o sono já me abandonara. Só me restava baixar armas e render-me à inusitada situação.

Troquei a calça do pijama e deitei-me. Relaxava quando percebi que o som da praça baixara. Logo a seguir fez-se o silêncio pelo qual eu tanto ansiava, mas a curiosidade levou-me outra vez à janela. Finalmente a siameasa de Marly se rendera aos apelos da natureza. 

O gatão negro conquistara finalmente a gatinha e eu, após dois fortes espirros, percebi que com o frio sudoeste na cara e com a água que me ensopou, ganhara um resfriado dos bons. Voltei para a cama e deitei-me à espera de uma reconciliação com o sono. Na pracinha, os dois felinos interpretavam o último ato da "ópera do cio".


 (agosto/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm