Francisco Simões

   

BOLO DE ANIVERSÁRIO

Este é um assunto que não agrada a todos, seja homem seja mulher: aniversário. Há os que detestam falar sobre, ou mesmo comemorar, seu aniversário, enquanto outros não se importam, encaram isso com muita naturalidade. Eu jogo neste time. 

O Edinho, um amigo meu, contou-me que quando tinha 42 anos esteve no aniversário de sua amiga Márcia. Ela completara então 32. Durante muitos anos perdeu o contato com ela. Outro dia encontrou-se com a amiga e, estando se aproximando a data natalícia de Márcia, lembrou-se de perguntar quantos anos ela completaria. A resposta, seca e rápida, foi: 35. Ele coçou a progressiva calvície e mal disfarçando o espanto comentou: "Ué, estou nos 52 e tu nos 35? Como posso ter sido obrigado a envelhecer 10 anos enquanto a ti, no mesmo período, o tempo impôs apenas 3?!"

Passar dos 40 e, para alguns ou algumas, até mesmo superar os 30 anos, parece ser um suplício que lhes tortura a vaidade, o ter que conviver com as primeiras rugas, o descolorir dos cabelos, ou o desvigorar de suas energias. Para esses o envelhecer parece uma sentença condenatória injusta. Ora, quando nascemos já estamos realmente condenados, mas à morte, única certeza da existência. O envelhecimento é um processo natural, um modo de ser próprio do ser humano, como define a filosofia.

Se olhamos para a vida como uma dádiva devemos encarar o viver como um desafio e fazer por merecê-lo. Todas as fases da vida, seja a infância, a juventude, a maturidade, oferecem-nos imensas oportunidades para o nosso aprimoramento geral, aí incluído o entender e o aceitar a velhice. Precisamos estar sempre atentos às lições que o viver nos oferta, dia após dia, ano após ano. 

Este aprendizado passará à margem de nossa existência se nos mantivermos desatentos, ou se também valorizarmos o mundo apenas como nosso, subestimando, menosprezando ou ignorando os semelhantes. Com esta postura jamais aprenderemos, por exemplo, sobre solidariedade e nela está intrínseco o sentido moral que vincula cada um de nós não só à vida, mas também aos interesses e às responsabilidades de um grupo social, de um país, ou mesmo da própria humanidade como um todo.

O ser mais velho, ou mais antigo, pode, como seqüência de um existir inteligente, de um aprendizado de vida com tirocínio, significar um somatório de experiências, de conhecimentos, sedimentados ao longo de décadas. Evidentemente que nesse processo devemos envelhecer observando e estudando as modificações nos hábitos e costumes, nos usos e necessidades do moderno, formando porém o nosso próprio juízo, sem nos deixarmos massificar no que se refere a reformular conceitos.

Saber envelhecer até que tem algumas vantagens, pelo menos eu penso assim. No meu caso, por exemplo, voltei a escrever poesias aos 58 anos e retornei às crônicas, a me expressar publicamente falando da vida, de fatos que me cercam, de personagens que cruzam no meu caminho, agora, aos 64 anos. Sempre gostei de escrever, e tive o incentivo e a crítica atenta e severa de meu pai, português, entre os 17 e os 21 anos. 

Hoje sinto-me realmente mais capaz, mais experiente, com mais percepção da vida para senti-la melhor e falar sobre ela. Costumo dizer que sou um aprendiz de escritor porque este recomeçar, experiências à parte, tem exigido de mim muita dedicação, muita releitura, às vezes, um comportar-me como aluno atento e aplicado num universo de tantos e excelentes autores que admiro e com os quais tenho aprendido muito. 

Jamais me jactaria do que possa ter conseguido neste curto espaço de tempo do meu retorno ao exercício da escrita. O lado apenas saudável da minha vaidade pessoal jamais permitiria. Acho sim, que Deus tem sido muito bom comigo, não só permitindo que a sorte caminhe ao meu lado, mas também por alguns bons e fiéis, amigos e amigas, que Ele permitiu a mim chegarem por essa telinha e sem quais apoios, tudo que tenho escrito continuaria restrito ao "auditório" das minhas gavetas e da paciência de algumas antigas amizades.

Mas, hoje comecei falando de aniversário, e cheguei ao envelhecimento, à terceira idade. Portanto, aniversário de muitas velas. Digamos 65. Tenho um amigo que não via a hora de atingir essa "meta". Primeiro, pela ainda resistente influência deste irracional e desnecessário racionamento, no que se refere ao vocábulo que ele usava: meta. Segundo, porque esperava ansioso o momento de poder pagar menos imposto de renda. Doce ilusão.

A vida inteira a gente paga tudo que tem obrigação e até o que não deve. Quem pertence à classe média entende bem o que digo. Como muitos que podem pagar sonegam, a Receita apela para a mágica, como não corrigir alíquotas, para arrecadar mais. Cobrando de quem? Da classe média assalariada. Pule de dez. É bem mais fácil e eficiente do que incomodar a turma das grandes fortunas. Sempre falam em taxá-las, mas na hora faltam alguns votos.

Ademais, aos 65, o que se economiza na redução do imposto de renda, acaba escorrendo para o ralo onde o governo suga com novos impostos, com o aumento de alíquotas de outros existentes, ou some nos rolos de papel higiênico que de 40 diminuíram para 30 metros, na redução do conteúdo de vários produtos quando modificam a embalagem, etc. Estamos cercados de espertos por todos os lados. Uso o vocábulo esperto porque hoje estou de muito bom humor.

Aos 65 a gente só ganha é em experiência, mas mesmo ela pode ser meio ilusória, às vezes farsante, enganadora. Lembremos o que disse, a propósito, Oscar Wilde: "Experiência é o nome que todos dão aos seus erros." Ainda que todos seja exagerado, é bom não retirarmos totalmente essa carapuça.

Não esqueçamos também de jamais deixar morrer em nós a criança. Como é extremamente maçante, muito chato mesmo, ser apenas adulto, ter só pose de adulto, aquele ar austero, o parecer sempre sério, o só querer dar conselhos (muitos dos quais nunca seguimos), o exercitar a rabugice, a ranhetice, a necessidade da autoridade irrepreensível etc. Há um pensamento que atribuem a Schiller que diz: "O homem só é completo quando brinca."

Bem, hoje, 18/agosto/2001, enquanto vocês lêem esta crônica, estarei recebendo alguns parentes que vêm do Rio. Estarão aqui também uns poucos, mas leais e bons amigos desta Cabo Frio. Para além do congraçamento, do reavivar amizades, do compartilhar histórias, do relembrar momentos e situações, eu vou precisar e muito da ajuda deles. 

Alias, vocês, queridos amigos-leitores e leitores-amigos, também poderão me auxiliar nesta tarefa, claro. Ela é muito difícil para ser executada por uma só pessoa. Unamo-nos todos e, por favor, me ajudem a apagar essas 65 velhinhas do meu….. Bolo de Aniversário. Obrigado.


 (agosto/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm