ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

MENINAS DO BRASIL

Era um lindo sábado de sol em Cabo Frio. Um sol de inverno. Inverno tropical. Após a caminhada de 7 km sentamo-nos à sombra de uma das barracas do amigo Francisco, a Baleia Azul. Água de coco gelada, aipim frito, cerveja suando.

Eu observava uma bonita lancha que se aproximava da praia quando ouvi uma voz meiga e tímida, à minha esquerda, balbuciar algo. Voltei-me e vi uma garotinha loura, muito bonita, cabelos longos, olhos verdes, segurando alguns saquinhos brancos com amendoim. Sorriu e repetiu: “Moço, compra um pra me ajudar, compra?” Não havia como dizer não. Pedi um saquinho e, dada a simpatia da garotinha, acabamos, eu e minha esposa, puxando assunto com ela.

Seu nome: Cristina. Idade: 10 anos. Logo chegaram mais 3 meninas. Todas também com saquinhos de amendoim nas mãos. Duas eram irmãs de Cristina e igualmente louras, bonitas e olhos verdes. A quarta era amiga delas e ajudava no serviço. As irmãs chamavam-se Carla, 7 anos, e Ana Cláudia, 12 anos. Nossa conversa virou mesa-redonda.

Ficamos sabendo que eram, ao todo, 8 irmãos. O mais velho, com 20 anos, era o único a não morar na mesma casa. A caçula, de 4 anos, era filha de outro homem. O verdadeiro pai dos sete primeiros, 4 meninos e 3 meninas, segundo disseram, teria ficado louco e abandonado a mãe delas. Essa deve ter sido a história que contaram para as garotas, provavelmente. Moram na Boca do Mato, do outro lado da ponte, e bem distante do centro da cidade. A casa ainda não está acabada.

Preocupamo-nos em saber se estavam estudando e a resposta foi afirmativa. As três estão no mesmo colégio público, menos mal. Fizemos a nossa pregação em favor da educação e sentimos uma reação que nos tranqüilizou, vindo das irmãs lourinhas: todas gostam de estudar e estão indo bem nas aulas. Aliás, além de muito educadas, as meninas mantiveram conosco um nível de conversação que nos surpreendeu.

Sem ter um pai, sobrevivendo com dificuldades imensas, a mãe nem podendo trabalhar para cuidar de tantas crianças, uma casa inacabada representando um lar onde habitam a pobreza, o amor e a resignação, mas nenhuma palavra de lamúria, nenhuma lamentação por parte das garotinhas. Os irmãos mais velhos ajudam nas despesas com o que podem.

Sugerimos que elas se afastem sempre de certas facilidades que acabam custando caro e prejudicando a vida dos que cedem à tentação. Orientamo-las a ouvir sempre a opinião da mãe, a consultá-la nas dúvidas, principalmente no que seja suspeito ou desconhecido para elas. Aliás, a voz materna, para aquelas três irmãs, é o único porto seguro para seus medos, receios e incertezas.

Nesse momento a de 12 anos disse-me que seu irmão de 13 havia feito uma coisa muito feia. Não supunha que fosse tanto, mas foi. Ela afirmou que ele tinha se metido com drogas e até levara para casa. Fez-se um rápido silêncio e a seguir indaguei se ela tinha certeza. Ana Cláudia confirmou e disse, falando baixo e meio sem jeito, que seu mano de 18 anos batera nele ao descobrir. O castigo, se violento, tentava afastar o irmão menor da violência maior, à maneira que conhecia.

Na cidade grande é uma triste e chocante realidade crianças dessa idade, de 13 a 15 anos, não só serem usuários como soldados dos exércitos de que se serve o tráfico. Fim do mundo? Talvez não, mas, com certeza uma evidência da degradação familiar e da deterioração da sociedade. Conseqüência também de uma política, ou falta dela, que plante perspectivas reais de futuro com educação, com emprego etc.

Não podemos também eximir de culpa o governo, a autoridade, quando se ausenta, deixando que o crime forme um poder paralelo cada vez mais atuante, mais ameaçador. As cidades do interior já começam a perceber estarem também sendo alcançadas pelos tentáculos do tráfico que desagrega, que corrompe, que destrói.

A menina nos sossegou ao garantir que fora a primeira vez que seu irmãozinho fizera aquilo e que nenhum dos outros se deixara seduzir pelo vício.

Na seqüência das histórias, Cristina, a de 10 anos, falou que sua mãe às vezes chora por desânimo, lamentando não ter conseguido terminar a casinha em que vivem. Este deve ser apenas um dos motivos do seu pranto, mas é seguramente o único que ela revela às filhas. Imperdoável o gerar a oitava criança numa aventura amorosa transitória. Nas lágrimas talvez haja também um resíduo de remorso, além do natural desalento pelo abandono irresponsável do pai de seus outros 7 filhos.

Tínhamos ali, a nossa volta, um retrato do Brasil. Quantos milhões de famílias existem sobrevivendo em condições idênticas e até piores. É o outro Brasil, o que está presente nos discursos políticos, mas não nas ações, não nos projetos.

A pobreza desinformada, mal orientada, que gera mais pobreza, que prolifica sem condições de sustento próprio. Imagens refletidas no espelho do nosso subdesenvolvimento, também cultural. Talvez interesse a alguns mantê-lo.

A certa altura eu decidi comprar um saquinho de cada uma das outras três. Como eu dissera antes que não podia comer amendoim, perguntaram-me por que comprar mais. Argumentei que distribuiria a pequena ajuda por igual a todas, na missão delas de ajudar a mãe, e que depois eu os daria a alguém amigo.

Passados mais uns 20 minutos de conversa com as meninas percebemos, pela atitude de uma delas, que estariam com fome. Eram 13:30h. Indaguei se haviam trazido alguma marmita. A resposta foi negativa, mas Ana Cláudia, a de 12 anos, foi mais incisiva em suas palavras: “Nós estamos acostumadas a segurar a fome, sabe?” Até que eu não sabia, pelo menos quando estava faminto. A vida nunca me obrigou a esta cruel experiência. Nós nos penalizamos ainda mais.

Como que brincando ofereci-lhes os 4 saquinhos de amendoim. Alegaram que eram nossos. Lembrei: “Falei que os daria depois para alguém amigo, recordam? Pois bem, vocês são quatro novas e simpáticas amigas. Posso lhes oferecer?” Houve quatro sorrisos que se uniram num só. Rapidamente dois saquinhos tombaram vazios na areia. O terceiro elas foram esvaziando após se despedirem e continuarem sua caminhada da esperança.

Cheguei a perguntar se queriam algo mais além do amendoim. Não entendo nada mesmo de pobreza, de necessidades extremas, grande ignorante premiado pelo destino. O amendoim, que para o estômago delas aliviara a urgente obrigação de novamente terem que “segurar a fome”, era a satisfação, pelo pouco, de quem nunca pensa no muito, já que o nada é o habitual, a rotina.

Olhei para elas indo de mesa em mesa e colecionando muitas respostas “não”. Outras crianças de 7, de 10, de 12 anos, brincavam na praia. Construíam castelos, pequenos lagos, corriam ao encontro das pequenas ondas, jogavam bola, escorregavam nas dunas, porque a vida é assim. Mas, porque tem que ser assim?

E essa minha cabeça, de utopias semeadas, insiste em sonhar com um país imaginário, igual ao descrito por Thomas Morus, para comemorarmos algum dia, sei lá quando, perdido na eternidade do tempo.

Como eu disse numa crônica em fevereiro: “podem me vaiar”, pois prefiro os apupos à minha indignação do que aplausos por discursos em favor dessa hipócrita globalização ou conselhos conformistas, no fundo, meio anticristãos. E nos dizemos todos, cristãos!

Aos poucos as irmãs lourinhas sumiam na distância, misturavam-se com as imagens das dunas, das barracas, dos vendedores, dos banhistas, embaçadas na minha velha e incurável emotividade. Naquele momento lembrei-me da música de Chico Buarque: “…é gente humilde, que vontade de chorar…”


 (agosto/2001)


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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