ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



NO AR …
 

"Senhoras e senhores, boa noite. No ar… Ritmos de Boate… Uma seleção de músicas que falam de amor, para o seu coração apaixonado." Ano: 1949. Com 13 anos de idade eu montei a minha rádio particular no porão da casa em que vivíamos, em Belém do Pará, no bairro do Marco. Começava o sonho. 

Uma mesa velha, uma cadeira desprezada, uma lata de conservas toda furada com prego para ter um aspecto próximo de um microfone, um toco de madeira que a sustentava. Sobre a mesa recortes de jornal: classificados, crônicas, noticiários, publicidade etc. Meu amor pelo trabalho em rádio tem raízes muito profundas, vem desde aqueles tempos.

Em 1953 submeti-me a um concurso para locutor na Rádio Marajoara. Pertencia aos Associados e era a coqueluche em Belém. Estreara fazia pouco tempo. 50 candidatos e apenas 2 foram aprovados: eu e o amigo Clodomir Colino. Ele era meu colega no Colégio Nazaré, de Irmãos Maristas e já atuava como rádio-ator. Meus pais temiam que o rádio fosse atrapalhar meus estudos, mas nunca perdi um ano.

De repente me vi numa brilhante equipe de profissionais do gabarito de Corrêa de Araújo, nosso Chefe, mais Jaime Bastos (também locutor esportivo), José Maia e Dirceu Noronha (vozes de trovão, muito bem moduladas), Advaldo Castro (a voz romântica da rádio), Gelmirez de Melo e Silva, também professor universitário e falava inúmeros idiomas.

O saudoso Corrêa de Araújo veio mais tarde para a Rádio Tupi, no Rio, e nos primeiros anos foi eleito seguidamente o Melhor Locutor do Rádio Carioca. Atuou também na TV. 

O destino conseguira transportar para a realidade a fantasia dos meus sonhos de porão. Eu era finalmente um radialista. Primeiro fui apenas um locutor de cabine. Apresentava músicas e lia textos de publicidade.

Quem estava de serviço no horário das 18 horas tinha sempre que ler, na Hora do Ângelus, uma página de um livro que ficava em nossa mesa, na cabine. Certo dia, já cansado do repetitivo, deixei meu lado inovador e meio rebelde tomar as rédeas. Escrevi uma crônica em casa, na velha máquina de meu pai, e levei-a no bolso. Às 18 horas tranquei a porta do estúdio por dentro, coloquei a folha sobre a mesa e li… li minha primeira crônica. Tema: Felicidade. O colega da técnica era o meu cúmplice naquela desobediência.

Sempre que eu trabalhava naquele horário levava uma crônica diferente no bolso. Um dia a secretária do Diretor Artístico chamou-me e disse que quando eu estava na Hora do Ângelus percebia que os textos eram diferentes. O livro ela já quase sabia de cor. Hesitei, mas depois confessei. Pensei que fosse ser punido, mas antes que pedisse desculpas ela me incentivou a continuar fazendo. 

Mais, foi ao Diretor Artístico, contou tudo e conseguiu que me pagassem cachê por crônica e ainda a agradável obrigação de eu ir ao estúdio, diariamente, para lê-las, mesmo que não estivesse escalado no referido horário. À época eu era fã do excelente Júlio Louzada que lia textos, mas com fundo religioso, sempre à 18 horas, na Rádio Tupi do Rio de Janeiro.

Com o passar do tempo criei um programa humorístico pelo qual, no ano seguinte, a crítica me daria o prêmio de Melhor Produtor Humorístico do Rádio Paraense. Eram apenas 2 os candidatos àquele prêmio. Os outros excelentes programas do gênero iam do sul para Belém: Hotel da Sucessão, PRK-30 e outros. 

Em outubro, nas festas de N. Sra. de Nazaré, que duram 15 dias, apresentavam-se muitos dos melhores artistas do rádio carioca em Belém. Cheguei a comandar alguns destes programas no imenso auditório da Marajoara. Quantas recordações. Uma das que mais me marcaram foi a presença elegante do Mestre Ataulfo Alves com suas cabrochas. Uma convivência que deixou saudades. 

Certa vez tivemos a honra de recepcionar, no auditório da rádio, junto com Corrêa de Araújo e Advaldo Castro, a recém eleita Miss Brasil, Therezinha Morango. Ano de 1957. Naquele tempo ser Miss Brasil era referência de beleza nacional, realmente. Daquele encontro guardo uma foto grande, em ótimo estado, feita no palco da Marajoara. 

Um amigo me disse que Therezinha Morango mora perto de onde resido no Rio, em Ipanema. Ela nem tem porque se lembrar deste humilde vassalo que junto com o Brasil inteiro soube reverenciar sua beleza, como o fizéramos também com Marta Rocha e outras dignas representantes da beleza da mulher brasileira. Sei que ela continua bonita.

Minha primeira experiência como radioator foi um "sucesso". Eu era, na prisão, o vizinho de cela do Conde de Monte Cristo. Quem conhece a história sabe que eles só se comunicavam pelo código Morse, (telegráfico) batendo na parede. Minha "interpretação" foi notável! Depois fiz pequenos papéis em algumas novelas.

Tivemos, na Marajoara, diretores da estirpe de Mário Lago, um expoente máximo da arte e da cultura brasileiras, além de Hélio Thys, hoje na rádio Globo, Jotta Barroso entre outros. Trabalhei também na tradicional PRC-5, a Rádio Clube do Pará, do Dr. Edgar Proença e seu filho Edir. Lá produzi também um programa sério: "Duas vidas, dois destinos". Ia ao ar 3 vezes por semana. Usava apenas dois intérpretes e, como o título sugere, nunca terminavam a história juntos. Era difícil de escrever. Foi um bom desafio. 

Por gostar de improvisar e ser romântico convidaram-me para apresentador do programa "Música no Crepúsculo". Um piano, um contrabaixo, uma bateria e eu a dizer coisas que tocassem a emoção das pessoas, entre uma música e outra. Nada de textos adrede elaborados, não, eu abria o coração e libertava a poesia. Tudo ao vivo, à 18:05h, 3 vezes por semana.

Um dia rimos muito, eu e Jaime Bastos, na Marajoara. Lembrávamos que pouco mais de um ano antes, desafiando o preconceito de ser minha família bem situada socialmente na cidade, apresentei-me como calouro num programa de auditório, justamente na mesma rádio, sendo Jaime o animador do programa.

Fui até a final com testes de locutor. Para escolher o melhor calouro do dia contrapuseram-me a outro jovem que tocava gaita de boca, e muito bem. Nem eu votaria em mim. Claro que perdi. Mas, ríamos juntos, pela justiça daquela decisão e porque, como Deus escreve certo por linhas tortas, fora o mesmo Jaime Bastos, então meu colega de rádio, o "carrasco" que ajudou na minha eliminação como calouro.

Sabendo das incertezas da carreira de radialista, meu pai sugerira que fizesse concurso para o Banco do Brasil. Fiz e fui aprovado. Com o passar do tempo ficou difícil conciliar os dois empregos. Tive que deixar a rádio. Li, certa vez, em Langston Hughes: "Nunca largue mão dos seus sonhos, pois, se eles morrem, a vida se torna como um pássaro de asa quebrada que não pode voar." 

Felizmente eu não tinha apenas um sonho ao optar pela segurança. Se tive que fechar aquelas asas, abriram-se as da Arte Fotográfica, as do cinema da bitola pequena, as do professorado dentro e fora do Banco, as da literatura e assim pude continuar a voar e a sonhar. 


(setembro/2001)


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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