Francisco Simões

   

OTÍLIA, MULHER PARA ALÉM DO SEU TEMPO

Na crônica VOLTA A SALREU falei do meu retorno à parte do meu passado plantado naquela aldeia portuguesa. Voltei lá 42 anos depois. Hoje quero lhes falar apenas de uma pessoa, uma encantadora mulher.

Em 1947 levaram-nos, a mim e a minha família, da cidade do Porto, onde chegáramos de navio, até a aldeia de Salreu em dois automóveis. Eu tinha então apenas 10 anos de idade. Lembro-me de ter sido o primeiro a sair do veículo e logo percebi aquela figura feminina, bonita, de pequena estatura, a fazer-nos uma imensa festa do alto de um pátio, à entrada da Quinta.

Ela desceu rápido os degraus até um dos portões de entrada e veio direto me abraçar e beijar. Estava mesmo feliz. Ela repetia: "São os primos do Brasil". Ia a um e a outro e envolvia a todos com uma carinhosa e esfusiante recepção. Seu nome: Otília, a prima Otília, portuguesa. À época ela tinha pouco mais de 30 anos e exibia um bonito corpo e um cativante sorriso. 

Durante nossa permanência de um ano, morando naquela imensa e maravilhosa Quinta, construída pelo meu bisavô materno, Otília vinha nos visitar amiúde. Oferecia-se para nos levar a passear, perguntava sempre se nada nos faltava, encantando a todos com uma simpatia, uma lhaneza realmente contagiante. Ela era solteira.

Lembro-me bem de que comemoramos meus 11 anos na praia de Espinho. Ela dista uns 30 km de Salreu, indo para o norte. Naquele dia ela estava presente e regeu a alegria das horas felizes que lá passamos. Hoje Espinho é uma cidade bastante progressista mas, àquela época, pouco havia para além da extensa praia. 

Eu, meus pais, a madrinha Carmita, além dos meus 5 irmãos ( outros 4 nasceram posteriormente), Otília e mais uns 3 parentes portugueses, éramos os "donos da praia". Com o movimento que há lá atualmente teria sido impossível ficarmos sozinhos, como aconteceu em 1947.

Em um certo sábado, ela nos levou a uma deliciosa e reservada recepção na casa, ou melhor, no palacete do Visconde de Salreu. Foi uma reunião de nossas famílias, com direito a um lauto almoço regado a vinho com a marca registrada da Quinta do Visconde. Eu era criança e a mim não cabia sequer provar do que diziam ser um néctar dos deuses. A recepção só terminou já ao começo da noite. Voltamos para casa como fôramos, a pé, já que a distância era pouco mais de um quarteirão.

Otília esteve presente muitas vezes em nossos melhores e mais alegres momentos daquela longa estada em Portugal. Ela também morava em Salreu, não muito distante de nossa Quinta. Ao final de 1947, quando nos despedimos, ao partir, ela estava mesmo emocionada. Nós a trouxemos em nossos corações, a bonita, charmosa, comunicativa e sempre prestativa prima Otília.

Em 1989, ao retornar a Salreu, 42 anos depois, um dia perguntei aos atuais donos daquela propriedade se ela ainda estava viva. D. Mª Elisa, que vem a ser minha parente pelo lado da família de meu avô materno, respondeu afirmativamente. Falei-lhes então da presença dela em minhas lembranças e disse que gostaria de revê-la. Eles arrumaram este encontro e ele se daria onde estávamos, justo onde morei aos 10 anos de idade, em 1947. 

Dias antes, conversando sobre o passado, interessei-me por saber detalhes, que eu desconhecia, da vida da encantadora Otília. Eu sabia que quando a conheci ela era ainda solteira aos trinta e tantos anos e eles revelaram que ela continuava solteiríssima. Otília nunca se casara. Em 1989 ela estava então com setenta e tal anos. Causou-me surpresa que uma mulher bonita, inteligente, expansiva não tivesse se casado. Logo dei-me conta de que estava falando o meu convencionalismo. 

Eles deixaram bem claro que não foi por falta de candidatos, não, pois ela os teve em bom número. Otília, porém, sempre foi muito independente, gostava de ter somente em suas mãos as rédeas de sua vida. Como estamos falando de tantas décadas passadas percebe-se que ela não se submeteu às regras da convenção social então vigentes. Num povoado pequeno era comum a garota, a partir de certa idade, arrumar um marido ou este até lhe ser, digamos, imposto pela família. Para a mulher não sobrava outra escolha: casamento, filhos e uma casa para cuidar.

Mas, Otília rompeu esses grilhões. Consta que ela teve muitos amores, consentidos, proibidos, tolerados, ela deve ter amado muito, vivido intensamente, convivido com a felicidade sempre, mas sem aceitar aprisioná-la. Segundo nos contaram, ela não admitia abrir mão de sua liberdade de pensar, de agir, de se locomover, de levar a vida como melhor lhe apetecesse. 

Ela detestava gaiolas e jaulas. Disseram-nos que ela chegou a escandalizar parte da pequena sociedade local com seus romances, nem sempre bem vistos por olhares convencionalistas e preconceituosos. Mas, Otília jamais admitiu levantar a bandeira branca e render-se à intolerância dos costumes sociais de então. 

Minha admiração aumentou ainda mais. Minha ansiedade atingiu seu apogeu quando bateram à porta e D. Mª Elisa anunciou a chegada da prima. Logo meus olhos alcançaram a imagem daquela mulher de pequena estatura física, ainda bonita, mostrando o zelo em cuidar da aparência, a vaidade feminina presente no vestir, no pentear-se, oferecendo um sorriso que vencia as poucas rugas que o tempo lhe desenhara na face. Entreolhamo-nos por alguns segundos e ela rompeu o silêncio falando: "Francisco, tu cresceste muito menino." 

Um longo abraço transportou-me para 1947. A seguir beijei respeitosamente o seu rosto em retribuição ao beijo que eu dela ganhara, tão festivo, aos 10 anos de idade. 

Nossos futuros finalmente se encontravam. Sentei-me ao lado dela. As palavras me abandonaram sozinho na emoção do momento. Havia entre nós uma cumplicidade de lembranças da qual não partilhavam os donos da casa nem minha esposa, ali também presentes. Tomei suas mãos nas minhas e finalmente balbuciei: "Obrigado prima, por ter guardado este momento por longos 42 anos."

Vencidos os primeiros minutos do reencontro logo passamos a conversar descontraidamente. Recordamos histórias alegres, momentos emocionantes como quando fomos a Fátima, de caminhão, e lá dormimos todos, ao relento. No dia seguinte, 13 de maio, assistiríamos a mais uma celebração do Dia de N. Sra. de Fátima. 

Hoje há toda uma infra-estrutura de hotéis, pousadas, pensões etc, naquele tempo não. Enquanto Otília falava eu mirava seu rosto. A idade não lhe roubara totalmente o fascínio que encantara tantos corações, apenas lhe reduzira o viço da juventude, sendo porém bastante condescendente com ela. 

Sua majestosa altivez de uma "rainha plebéia" que se opôs a hábitos e costumes, escrevendo sua história, desenhando seu caminho com uma personalidade marcante e independente que a distinguia da mulher comum do seu mundo, da sua sociedade, do seu tempo, ainda se revelava nos seus gestos, no seu olhar, na sua postura, nas suas palavras. Como foi bom revê-la. O encontro durou cerca de 5 horas. 

Quando nos despedimos, havia implícito em nosso "até breve" um "adeus" que só o destino conhecia. Após a saída de Otília, D. Mª Elisa nos revelou que, embora ela não demonstrasse, seu coração vinha fraquejando já há algum tempo. Um enfarte já ocorrera, mas ela não se intimidava. Quem amava tanto a vida e enfrentara tantos desafios, certamente olhava para o desconhecido como uma proposta, um novo estímulo, um encarar, um olhar de frente ao se confrontar com uma, quem sabe, outra realidade.

Alguns meses depois de termos regressado ao Brasil fomos informados de seu falecimento. O cansado coração de Otília parara de bater, aliás, de bater sim, mas de amar, jamais. Sua estrela se apagou, mas o seu brilho não, pois assim como no cosmo, a luz de sua existência permanecerá atravessando o tempo, marcando seu novo caminho. A estrela companheira continuará espargindo o amor, eternizando-o na imortalidade de sua alma. 


 (setembro/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm