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Francisco Simões

   

EU QUERIA FALAR DE AMOR, MAS…

Está cada vez mais difícil se falar de amor. Está cada vez mais difícil se falar de paz. Por outro lado, só falar, só rezar, só cantar, fazer passeatas, de nada tem adiantado. A verdade é que a violência, em todas as suas formas, vem numa escalada aterradora. Incluo aí também a fome, o estupro, o analfabetismo, o tráfico de drogas, o desrespeito aos direitos humanos etc.

Enquanto falamos, rezamos, cantamos, caminhamos pela paz e pelo amor os ouvidos moucos da insolência, da arrogância, desprezam nossos apelos, nossos anseios. A verdade é que a humanidade tem convivido com a hipocrisia através de toda a sua história. 

Afinal, no ano 33 da era cristã, foi o povo quem optou por mandar para a morte Aquele que viera como seu Salvador, em troca da liberdade do ladrão reles e vulgar que era Barrabás. Começamos muito mal.

Sei que a esmagadora maioria das pessoas no mundo desejam a paz, a paz verdadeira, total, global, que a globalização jamais nos dará porque é mentirosa na essência de seus preceitos. Mas e daí? O poder para decidir pelo bem ou pelo mal encontra-se concentrado em poucas mãos, em poucas cabeças e essas estão muito mais preocupadas em manter o status quo vigente, em preservá-lo, do que em repensar tudo, da economia à política, em termos mundiais. 

Hoje o governo americano declara ao mundo que os senhores Osama bin Laden e Saddan Hussein são os maiores inimigos do seu povo. Seria cômico se não fosse tão trágico, tão sinistro. Quem os treinou? Quem os armou com poderosos artefatos? Quem os apoiou para chegarem ao poder em seus países em troca de interesses políticos internacionais? Todo mundo sabe quem foi. 

Se rebuscarmos na História alguns acontecimentos mais recentes, principalmente dos anos 60 para cá, veremos que não apenas o comunismo foi um câncer para a humanidade. As armas e o poder de intimidação, também muito usadas pelo capitalismo, jogaram Fidel Castro nos braços da Rússia. Sua quase eterna ditadura poderia ter sido evitada, certamente não se sustentaria. 

O Sr. Fidel derrubara um governo sanguinário, uma outra ditadura também cruel de Fulgêncio Batista, é verdade. Mas quem a este apoiava não perdoou o barbudo, virou-lhe as costas, e deu no que deu. E alguém pensou ou chorou pelo povo cubano antes e depois do ditador Batista? 

Em nome da luta contra o então comunismo, com sede em Moscou, matou-se muito, torturou-se demais por quase toda a América do Sul, com o apoio e incentivo do capitalismo internacional. Um ato de terrorismo oficial chegou a ser perpetrado quando bombardearam covarde e traiçoeiramente o palácio do governo, em Santiago do Chile. 

Assassinato a sangue frio onde morreram, para além do presidente, muitas outras pessoas. Tão covarde e ignominioso quanto os agora ocorridos em New York e Washington. Também muitas vítimas inocentes e também não havia guerra. 
Cito aqui Wiliam Shakespere: "Mas o homem, investido de breve e vã autoridade, sem saber sequer do que tem por certo, sua vítrea essência, faz, ante os céus, esgares tão incríveis que arranca lágrimas aos anjos."

Não me move a pretensão de ficar a dar aula de História nem de ficar a repetir inúmeros exemplos negativos, desastrosos e mesmo repulsivos de política externa de grandes nações. Mas, muitos desses procedimentos são responsáveis, com certeza, por certas retaliações e revanchismos. O lamentável é que as vítimas são sempre civis e inocentes. Exceção dos fanáticos e sanguinários terroristas suicidas.

Lembro ainda que dignitários de grandes potências econômicas vivem a se reunir periodicamente, em ambientes nababescos, querendo fazer crer ao mundo que estão muito preocupados com os milhões que morrem de fome, ou por doenças as mais variadas, algumas geradas no bojo de experiências fracassadas. 

O chamado primeiro mundo sempre tratou aos do terceiro como quem olha para um primo mais pobre, ora com certo ar de comiseração, ora com desdém. 

Poucos têm sido os verdadeiros gestos de um apoio mais efetivo que nos permitisse crescer como nação. Esmolas não ajudam efetivamente, quando muito amenizam. Empréstimos são aquela mentira que nos sai sempre muito mais cara. Os governos nunca os pagam porque não têm recursos, a nação perde suas riquezas, o povo já nasce devendo muito e cada dia mais pobre. 

O presidente americano, há dias atrás, retirou-se irritado de uma cimeira com outros dirigentes de grandes potências econômicas, porque não aprovaram sua intenção de colocar no espaço um escudo antimíssil. Mesmo tendo a informação, tão repetida, de que existiriam alguns milhares de potenciais terroristas suicidas vivendo nos Estados Unidos, nem o governo nem seu serviço de inteligência pensou num "escudo antiterror", interno. 

A tragédia que todos lamentamos e condenamos acabou por ser provocada por "mísseis humanos" que partiram de aeroportos americanos, e não lançados de milhares de quilômetros de distância. Foi imperdoável o erro fatal de julgamento e a imprevidência de quem se julga exemplo para o mundo. 

Quando estou escrevendo, neste dia 17/setembro, acabo de saber que o apoio do povo americano a uma retaliação pelas armas, inicialmente em 97%, despencou e muito agora que a sensatez retornou com o passar do primeiro choque emocional muito forte. 

Infelizmente o presidente americano ainda não foi alcançado por esse sentimento de maior equilíbrio. Eu lamento, mas vamos lamentar muito mais quando tudo começar. Ninguém conseguirá parar a nova escalada da violência. 

O que o Sr. Bush diz, impensadamente, de que eles saberão quando começar e quando terminar esta nova guerra demonstra mais uma arrogância injustificável. Ele poderá estar arrastando o seu povo, e talvez o resto do mundo, para um caos sem precedentes. 

Será assim que pretendem acabar com o terrorismo mundial? Será assim que levarão a humanidade à paz tão pretendida por todos? Ou optamos pela barbárie? Voltamos ao método do "olho por olho, dente por dente"? Eu temo muito que acabem concretizando as previsões de Nostradamus, que tantos ridiculizaram.

Hoje assinei um documento que me foi enviado pelo amigo Marc Fortuna, de Londres, já com mais de 15.000 assinaturas. Repassei-o também a vários amigos. Ele é dirigido ao presidente americano. Um derradeiro apelo internacional ao seu bom senso, um apoio na solidariedade, mas que repudia a prática bélica. 

Que Deus o ilumine e desperte nele a cautela, a prudência, o desejo de ouvir outras opiniões, de dialogar e buscar o combate ao terrorismo internacional e não instiga-lo ainda mais a práticas de horror como as que assistimos no dia 11/setembro. Se houver guerra, certamente não haverá vencedores, seremos todos derrotados.

Até a próxima semana… se Bush quiser.

Francisco Simões.


 (setembro/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm