ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A ÚLTIMA ESSÊNCIA

 

Este é o título de um dos filmes de curta-metragem que produzi no auge da bitola super-8. A história da produção dele já dava uma crônica, ou talvez uma novela. Quero porém lhes contar a aventura que foi ir e voltar, ileso, de um Festival em que o inscrevi. Ele aconteceu em S. Bernardo do Campo (SP).

Comunicaram-me que “A Última Essência” tirara o segundo lugar e me convidaram para a festa de exibição dos filmes vencedores. Fomos para S. Paulo e nos hospedamos no Hotel onde costumava ficar o Velho Guerreiro, “O Chacrinha”.
Eu, minha esposa e Reinaldo Campos, colega do Banco do Brasil que interpretara o papel central do filme. Lá encontramo-nos com outro colega e grande amigo de Sampa, o Esmeraldo, mais conhecido como Balasco, também do BB.

Balasco é outro que merece uma crônica especial sobre ele. Morreu logo ao se aposentar, ainda novo. Mas, a aventura já começou na ida. Decidimos tomar um ônibus que ia direto a S. Bernardo. Entramos e nos sentamos. Fomos os primeiros passageiros a entrar no final de linha.

Rapidamente veio gente de tudo que era lado. Nós estávamos encasacados, pois fazia bastante frio. Tanta gente entrou no ônibus que passamos a sentir calor. Já havia uma superlotação e o motorista nada. A viagem seria demorada. Era começo de noite, hora do rush.

De repente nos levantamos e saímos enfrentando todo mundo para poder saltar antes que a viatura partisse. Aquilo estava um inferno. Finalmente conseguimos. Agora estava frio de novo. Fomos para o metrô. Foi a melhor opção. Saltamos mais à frente e aí tomamos outro ônibus, este porém tranqüilo. Chegamos ao clube onde se realizaria o festival, ainda bem antes da hora. Logo descobri que meu filme só perdera para um excelente documentário produzido por estudantes de medicina.

O filme vencedor mostrava uma operação na cabeça de um sujeito. Eu não me dou bem com cenas de sangue. Quando começaram a cortar a tal cabeça a minha começou a girar. Urgia uma providência: fechei os olhos. Os amigos divertiam-se as minhas custas. Não me importei. Só abri os olhos quando ia começar a exibição do meu filme. Terminada a sessão subi ao palco para receber meu prêmio. Aplausos, fotos, rápida entrevista e a seguir houve um congraçamento geral.

Encerrada a festa percebemos que era já bem mais de meia-noite e o retorno seria complicado. Felizmente um simpático casal ofereceu-nos carona até a capital. Embora bem apertados no pequeno carro, agradecemos a Deus aquela chance. Eles não iam para o centro, então nos deixaram no bairro do Ipiranga.

Ainda estávamos bem distantes do hotel e já passava de uma hora da madrugada. O Reinaldo preferiu hospedar-se num motel que ficava bem em frente porque pela manhã ia visitar um parente que morava ali perto.

Nosso grupo se reduzira a três. Ficamos alguns minutos à espera de um táxi. Havia pouco movimento na rua. Veio um fusca com 3 homens dentro, reduziu a velocidade e parou alguns metros para além de onde estávamos. Lá ficaram, com a lanterna acesa, sem qualquer atitude. Começamos a perceber que, encasacados e parados no meio do nada, de madrugada, éramos os próprios otários ou vítimas à espera do assalto.

Enquanto nossos algozes não se decidiam a dar o bote surgiu outro fusca, este era um táxi. Não só acenamos, lançamo-nos à pista para que parasse. Felizmente estava vazio. Entramos e logo fui pondo o motorista a par do que se passava. O digníssimo era grande, com uma toca de lã enfiada na cabeça, luvas nas mãos, claro, e cheio de gíria.

Aliás, pelo odor que dele exalava, o frio o fizera encher-se de álcool. Virou-se e disse: “Dexe comigo patrão. Eu tiro vocês desta. Meu fusca tá envenenado.” Parecia que ele também. Partimos, rezando.

O outro fusca saiu logo e passou a nos seguir a pouca distância. Nosso bravo herói pisava fundo e o velho fusca correspondia. Mas, os presumíveis bandidos não desistiam da perseguição. Parávamos em algum sinal vermelho e eles se mantinham sempre atrás de nós.

Perguntei por que então eles não nos tinham ainda abordado e foi o digníssimo piloto Joca quem explicou: “Lá os caras deviam tá pra tomar a decisão quando eu cheguei. Agora eles esperam uma rua mais deserta pra facilitar o bote.” Senti um frio na espinha, este vinha de dentro para fora .

Outro sinal e eles bem atrás, de forma que dava até para ver a expressão do que estava ao volante. Não era de muitos amigos. O nosso taxista, movido a álcool, tentou nos tranqüilizar: “Tejam calmos, amigos, cês tão em boas mãos. Conheço uns caminhos e vou despistar esses caras.”

Ocorreu-me uma idéia apavorante: e se nosso motorista estivesse mais a serviço deles do que nosso? Se, na verdade, nós houvéssemos entrado, não na carruagem de fogo salvadora, mas na ratoeira bem montada pelos assaltantes? Voltei à prece.

Momentos angustiantes de expectativa, de medo, mas de alguma fé nas palavras do nosso motorista. Mais um sinal vermelho e neste o outro fusca ficou um pouco mais para trás. Não fazíamos a menor idéia de onde estávamos.

Falou o Joca, o nosso salvador: “Todo mundo se segura forte. Vou arrancar antes do sinal abrir e pegar eles de surpresa. Segura que vou pisar mais fundo. Vou tentar uma jogada com umas ruas que conheço por aqui e enganar os caras. Segura firme gente.” Afundamo-nos nos bancos. Os pneus rolaram cantando alto e ele avançou o sinal.

Virava à direita, virava à esquerda, não havia mais sinal vermelho para o Joca. O pé sempre bem fundo no acelerador. Eu e minha mulher abraçados e abaixados, o Balasco todo encolhido ao lado do motorista. De repente entramos à direita e o Joca tirou o pé, foi no freio devagar, até parar e apagou as luzes do carro.

Era uma zona bem escura, em frente a um prédio velho. Na nossa trazeira um enorme depósito de lixo nos protegia. Sussurrou o Joca: “Abaixa todo mundo até eu mandar levantar.” Silêncio absoluto invadido apenas por um certo odor familiar. Ninguém perguntou quem foi. Todos tinham cara de culpados.

Os primeiros 5 minutos nos pareceram horas. Os vidros estavam fechados por causa do frio. Não passava nenhum veículo. Assustamo-nos com um ruído, mas era só um gato revirando lixo. Foi quando o nosso digníssimo salvador decidiu religar o motor e saímos com pouca velocidade.

Cada rua que cruzávamos provocava um suspiro de alívio. Nada dos assaltantes. Após a sétima esquina o Joca anunciou: “É isso aí gente, estamos salvos.” Entramos numa das principais avenidas paulistas.

Poucos minutos depois estávamos no hotel, na avenida Ipiranga. Demos um viva ao Joca, nosso herói, e uma caixinha bem gorda para além do taxímetro.

Convidei o Balasco para irmos até o bar do hotel. Mergulhamos em duas doses de uísque para relaxar da aventura. Naquele tempo eu ainda bebia socialmente, hoje evito, inteligentemente. Rimos bastante, relembrando o sufoco de que havíamos saído.

A certa altura, o bom Balasco, com seu senso de humor sempre bem afiado, falou: “Oh Simões, aquele odor, dentro do carro, partiu do escapamento do Joca, podes crer.” Perguntei se se referia ao veículo, e ele: “Não amigo, falo do motorista mesmo. Cara, eu nunca sentira cheiro de gás sulfídrico fermentado com álcool etílico…”
 



(setembro/2001)


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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