Francisco Simões

   

E QUANTO A DAR A OUTRA FACE?

Perdoem-me se os decepciono, mas eu não sei odiar. Perdoem-me se os desaponto porque minhas lágrimas não sabem escolher o credo, a nacionalidade, a raça para chorar por vítimas inocentes. Desculpem-me se lhes provoco discordâncias, mas tenho as minhas convicções e respeito as de todos.

Eu fui criado e educado com amor e por amor. Não me ensinaram a ser um cristão que atira pedras em Madalenas, que cospe na miséria e na fome, que ignora os humildes, que aceita vendilhões nos templos, que justifica bombas porque não são de terroristas, que aplaude ardentes desejos de vingança no qual a impiedade é a tônica e o bom senso é crucificado.

Quando foram divulgadas, há poucos dias, duas matérias minhas com os títulos de "Momento de Reflexão" e "Eu queria falar de amor, mas…", a excelente escritora Sarita Barros dirigiu-me uma mensagem sobre a primeira delas que, em certo trecho, diz o seguinte:

"Os que enxergam e têm poder para mudar a situação, não o fazem por ganância e sede de poder. Os que não enxergam e têm poder para mudar a situação, não o fazem por imbecilidade e sede de poder. Os que não enxergam e não têm poder para mudar a situação, não o fazem por pura ignorância. Os que enxergam e não têm poder para mudar a situação, não o fazem por pura impotência para tal."

"Esses somos nós, poetas/escritores/pensadores. E quais loucos profetas bradamos no deserto. E quais desvairados penitentes choramos, sofremos e jogamos cinzas por sobre nossas cabeças. Sim, amigo, antes fôssemos cegos e imbecis. Dançaríamos felizes ao redor do abismo. Não saberíamos que "violência só gera violência" e não sentiríamos tanto viver em um mundo onde o amor fala fraquinho, sabendo que só o amor constrói".

Fiquei sensibilizado, porém dou a mesma importância para as discordâncias e até as estimulo, como sabem. Respeito-as, quando fundamentam suas razões. Entristeço-me, quando simplesmente discordam, mas não manifestam opinião, ou quando, pela irritação explícita, me estarrecem com um desabafo, às vezes, simplesmente rancoroso.

Quando escrevemos abrimos o nosso coração, ofertamos nossas idéias e conceitos à apreciação de quem nos presenteia e honra com a sua leitura. Expomo-nos, não nos omitimos, sem a pretensão de sermos donos da verdade. Certamente somos todos cristãos. A diferença está no preconceito humano que felizmente nem todos alimentam.

Há poucos dias eu ouvi o cineasta Arnaldo Jabor, com muita lucidez, ao comentar palavras do presidente americano, dizer isto: "Sr. Bush, entre o bem e o mal existe a razão e a paz." Ele foi muito feliz na colocação. No caso atual o bem e o mal estão nos extremos. E o Sr. Bush está preferindo extremos, o que é sempre perigoso, ainda mais quando se começa a ver, nas decisões tomadas, prevalecer a velha e terrível máxima: " Os fins justificam os meios."

Não se encaminham soluções pelo centro, pelo equilíbrio, onde diz Jabor estar a razão e a paz. E ele está certo. Entristeço-me e me amedronto com a insanidade dominando mentes e corações até de altos dirigentes de importantes nações. Onde foi parar a sensatez, o equilíbrio, a prudência, o comedimento, a moderação, além das recentes promessas de paz mundial feitas por esses mesmos dirigentes? 

Quando ouço o presidente americano proferir que: "Quem não está conosco, está contra nós" ocorre-me logo o tão repetido lema da ditadura militar em nosso país, lembram? Dizia: "Brasil, ame-o ou deixe-o." A mensagem é a mesma, as palavras é que são outras. O diálogo foi abolido, proibido, o bom senso sufocado. Pensar diferente é ser inimigo. Que raio de democracia é essa? 

Os duelos nos filmes de faroeste, americanos, eram mais leais que esta "guerra". Os adversários se olhavam nos olhos e se enfrentavam geralmente em igualdade de condições. Nesta guerra não há igualdade, e a condição é uma só: matar, destruir, bombardear, eliminar… mas quem e o quê, se o próprio FBI descobre que se enganou ao divulgar foto e nome de um "terrorista" ao mundo inteiro?! 

Já se sabe que no meio do caminho não haverá pedras, mas gente, muita gente, pessoas inocentes como as vítimas do WTC, em Nova York. A raça e o credo serão diferentes, mas o sangue é o mesmo. Quantos minutos de silêncio terá o mundo que fazer outra vez?

Relatório da ONU acaba de informar que cerca de um milhão de afegãos deverão morrer nos próximos meses, de fome e de doenças várias, pelas condições de extrema precariedade em que vivem atualmente. Este cálculo não alude a quantos deverão ser sacrificados se houver mesmo guerra. E existem cristãos que aprovam o massacre de um povo tão debilitado porque por lá se escondem alguns terroristas. 

Meu temor tem a ver com exemplo recente. O Iraque foi bombardeado dia e noite, hospitais e escolas foram derrubados junto com objetivos militares. Morreram muitos inocentes. Saddan Hussein, o alvo, não sofreu nenhum arranhão. Alcançarão bin Ladden? Terroristas não têm a minha compaixão, os povos sim.

Certa vez o grande Nelson Rodrigues disse: "A humanidade não deu certo." Os críticos impiedosamente não o pouparam. Hoje, entretanto, por dever de justiça, devemos tirar-lhe o chapéu. Está cada vez mais difícil acreditar no futuro de nossa "humanidade". Começamos, na era cristã, mandando para a morte Aquele que veio como nosso Salvador. 

Não saciados, matamos Ghandi, Mather Luther King, Chico Mendes e tantos outros líderes que, desarmados em todos os sentidos, só pediam paz, amor e justiça. Uma covardia inominável. Triste humanidade onde o mal consegue fazer mais estragos do que o quanto o bem, pela mão e pela voz de tantos, consegue consertar. 

A essa altura que escrevo, 23/setembro, já vejo manifestações por toda a Europa contra a "guerra". Expressão popular, de todas as classes sociais, de gente que já sofreu demais com guerras no passado. O Papa vai à região ameaçada em visita e clama também ao bom senso, apela pela paz. Serão ouvidos? Afinal quem manifesta um espírito belicista, agora, nunca sofrera antes os efeitos do terror em suas próprias entranhas. Seus filhos e maridos morriam em terras longínquas.

Li em Luis Fernando Veríssimo ( O Globo de 23/setembro): …"E, de repente, nos descobrimos obsoletos, inocentes e impotentes, os verdadeiros exóticos num mundo que retoma sua imbecilidade básica." 

O jornal "El País", de Madri - Espanha, um dos periódicos de maior circulação no mundo, em extensa matéria de primeira página, diz: "
"Estados Unidos se está lanzando a una locura. Sus ideólogos hablan de esto como si fuese un ataque a la "civilización", pero qué tipo de civilización es la que piensa en una venganza com derramamiento de sangre? 

Durante los últimos sesenta años y más, Estados Unidos ha hecho caer a dirigentes democráticos, ha bombardeado países de tres continentes, ha utilizado armas atómicas contra civiles japoneses, pero nunca supo qué se siente cuando las propias ciudades de uno son atacadas. Ahora lo sabe. 

E por aqui, entre nós, há quem faça veladas censuras a "críticos brasileiros", como se fôssemos os únicos a condenar a insanidade que ameaça a todos nós, ao mundo. Falam como se constituíssemos um bando de alienados subdesenvolvidos e antiamericanos, a escrever bobagens, o que não é verdade. Esquecem-se que estão concedendo um precedente altamente perigoso. 

Amanhã poderemos ser nós, sim nós, o próximo alvo? Como não? E os interesses internacionais pela Amazônia, por nossas riquezas ainda não exploradas? Os assassinos terroristas estão mostrando que os aliados de hoje podem perfeitamente ser os terríveis inimigos do futuro. Não nos iludamos. Daqui para a frente poderá ser novamente como no tempo das cavernas: a lei do mais forte.

Diz a história que um só homem, ensandecido, Nero, incendiou Roma. Parece que teremos, a partir deste século XXI, uma legião de "Neros", com propósitos vários, inclusive religiosos, e armas as mais poderosas, para incendiar o mundo. Dominar sem colonizar, porque os derrotados deverão ser sempre exterminados. 

Repito: voltará a valer o princípio de que "os fins justificam os meios?" É isso que alguns estão desejando? Se não pudermos impedir pois que seja, pois que a insanidade predomine, que a loucura dite regras e logo não sobrará ninguém para chorar também por nós. Só não gostaria de viver para presenciar esta catástrofe. 

Repito: somos todos cristãos, oramos, falamos em Deus, visitamos os templos, mas infelizmente o ódio e o preconceito separam amizades, jogam irmãos contra irmãos. Será que ainda somos todos filhos de Deus? E quanto a dar a outra face?


 
(setembro/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm