Francisco Simões

   

O MEU PAI NOSSO

Senhor, Tu tens certeza de que criaste o homem a Tua imagem e semelhança? Perdoa-me, Senhor, o atrevimento da pergunta, eu jamais Te poria em dúvida, mas nos homens começo a perder a confiança. Sei que Tu nos deste o livre arbítrio para agirmos libertos de qualquer jugo e somos responsáveis únicos por nossos atos. Sei disso. Também nos deste ensinamentos e leis para seguirmos.

Mas, Senhor, o homem que fala contigo, que reza para Ti, que crê em Ti, que conhece Teus ensinamentos tem sido tão hipócrita. Confesso-Te que também sou um pecador. 

De que adianta falar em Teu nome, professar Tua Doutrina, receber Teu Sacramento, mas agir como insanos, com desumanidade, contrariando tudo que nos ensinaste? 

Dirás que há homens incapazes de matar uma formiga, mas, Senhor, eu Te lembro dos que matam cruel e covardemente milhares, às vezes milhões de irmãos, pelos motivos mais sórdidos, pelas justificativas mais repugnantes. 

Algumas vezes o fazem pela simples sede de domínio, de expandir seus limites materiais, outras vezes pelo absurdo orgulho de vingança, ou mesmo por um objetivo que dizem levá-los ao paraíso prometido por um deus, que não és Tu, e que por isso não o reconheço. 

Em Teu nome e para ensinar Tua Doutrina os homens fundaram várias igrejas. Isso não é mal, não, desde que seja feito, como a maioria o faz, semeando o amor que Tu ensinaste, espalhando bondade, socorrendo os que se perderam no caminho. 

O Deus de todas essas religiões certamente és Tu, o único e verdadeiro, não obstante Te atribuírem nomes diferentes. Isso não importa, vale a Fé e a crença em Ti e o bem que praticam. 

Os que se dizem ateus, que posam de ímpios, não Te aceitam, Te renegam, Te abjuram. Alguns chegam a afirmar que a religião, que a crença em Ti, Senhor, é que leva o homem a tantos desatinos e insatisfações. Esta semana mesmo eu ouvi alguém dizer isto. Para ser coerente com meus princípios e com Teus ensinamentos eu não posso odiá-los, tenho é que aceitá-los e perdoá-los como Tu o farias. Estão usando o livre arbítrio como julgam que devam fazê-lo, e eu não posso julgá-los. 

Sei que me dirás que a esmagadora maioria dos seres humanos é de boa índole, vive, trabalha, se empenha por um mundo melhor. Mas Senhor, mesmo sendo a maioria, temos apenas o poder da Fé, do amor, da fraternidade, alicerçados no que aprendemos Contigo. Não quero com isso, longe de mim, contestar o valor daquelas virtudes, daqueles sentimentos, não, Senhor. 

Te lembro, entretanto, que poucos, realmente muito poucos de nós, têm efetivamente o poder para decidir pelo bem ou pelo mal. E esses, muitas das vezes, têm usado esse poder para intimidar, para destruir, para aniquilar a maioria desprotegida, desamparada. E já o fizeram tantas vezes. São os senhores da morte. 

Eles atropelam tudo, esmagam tudo, pisam em nossas flores, jogam veneno em nossos jardins, deixam que a miséria, a fome, as doenças matem, exterminem tantos seres inocentes, adultos, velhos, crianças, sem piedade, sem compaixão. 

Falam numa tal de globalização, mas a professam no sentido maior de seus interesses, de sua ganância, pois enquanto falam, enquanto discursam, milhões de seres humanos continuam a morrer nas mais precárias condições, em vários continentes. Como podem se dizer cristãos? Mas eles se dizem, Senhor. 

Te confesso que estou confuso, desorientado, e preciso de Ti, mais do que nunca, neste momento. O mundo que Tu criaste volta a correr sérios riscos de uma catástrofe mais destruidora do que tantas outras desgraças que, essa mesma minoria, com poder absoluto, já nos infligiu no correr dos tempos. Pode ser o fim, Senhor. Talvez não queiras ou não devas interferir, mas Te digo, sem receio de parecer ridículo: ainda assim acredito em milagres.

Afinal por que não podemos ter o mundo que John Lennon imaginou? Por que não conseguimos a Paz pela qual morreu Ghandi? Por que não somos capazes de banir o preconceito que assassinou Martin Luther King? 

Por que continuamos insensíveis ao amor e à solidariedade pelo que dedicaram sua vida a nossa Irmã Dulce e Madre Teresa de Calcutá? Por que insistimos de forma tão cruel a ignorar uma justiça social ampla, global, que realmente reduzisse ou eliminasse o abismo de diferenças que separam os seres humanos, pelo que perdeu a vida Chico Mendes?

Senhor, sei que tens o direito de me devolver as perguntas, pois nós é que temos que respondê-las. Infelizmente não sei explicá-las, e graças a Deus, ou a Ti, não o sei. Se eu soubesse também me sentiria culpado. 

Pertenço à maioria que pensa, que fala, que clama, que se veste de branco, que faz passeatas, que critica atitudes belicistas, que implora pela paz, que ora, mas, só podemos fazer isso.

Senhor, quando levantei a questão sobre "dar a outra face", alguns bons e leais amigos me disseram que não era bem assim, que eu não levasse isso ao pé da letra, ou mesmo que talvez ninguém, até hoje, tivesse realmente dado a outra face. Eu gosto muito deles e respeito suas convicções, claro, mas julgo ter uma razão muito forte para acreditar que aquilo é possível sim.

Citei os nomes de 6 pessoas que se empenharam a fundo pelo amor, pela justiça, pela fraternidade, por uma humanidade melhor. Por acreditarem tanto nas causas que defenderam, por julgarem ser possível sim mudar o mundo, deram por elas muito mais do que a outra face, eles deram… a própria vida. Então eu tenho que crer no que eles acreditavam, tenho que achar que é possível sim. 

Porque, Senhor, se não me for dado crer neles, nem nas razões pelas quais tanto lutaram, nem que se sacrificaram por amor a causas tão nobres, eu serei obrigado a descrer de tudo, do homem que Tu criaste, da humanidade, de mim, de Teus ensinamentos e, por conseqüência, teria também que não acreditar em Ti. 

Tudo então se resumiria a uma grande mentira. Eu jamais cometeria esta blasfêmia. Sei que, no anonimato, há muito, mas muito mais pessoas que deram e que dão a outra face, ou a própria vida também, pelas mesmas causas.

Por isso me questiono, porém deixo acesa essa luz da minha derradeira esperança de que poderemos ainda ver um dia "… nossos amanheceres se fazerem, sempre e só, de sorrisos de felicidade, e todos os seres se reconhecerem satisfeitos por serem, no amanhã, melhores do que conseguiram ser no ontem." (trecho de mensagem da poetisa Leyla Gomes a mim) 


 
(outubro/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm