Francisco Simões

   

O ORGULHO DE SER PARAENSE

Amanhã, domingo, estará acontecendo em Belém uma das maiores demonstrações de religiosidade do mundo: o Círio de Nazaré. Gente de todos os cantos para lá acorre. É realmente um tocante espetáculo de fé pelo qual o povo paraense homenageia a sua padroeira todos os anos.

A cidade de Belém, e o Estado do Pará, estarão sendo vistos pelo país inteiro, e talvez pelo mundo, por uma razão muito diferente daquela pela qual vêm sendo referidos nos noticiários ultimamente. 

Uma pausa para mostrar a nossa gente, das mais variadas classes sociais, enleada com o mesmo propósito. Nossa gente, o que temos de bom e que nos ufana em sermos também paraense. 

Todos os que me lêem e conhecem minha biografia sabem que nasci em Belém do Pará. Tenho muita honra de ser paraense, sinto muito orgulho da brava gente da minha terra. Este orgulho se estende aos pais e avós que tive, portugueses e brasileiros, a toda a minha família, e a muitos amigos que lá deixei quando vim morar no Rio de Janeiro. 

Da minha infância e da juventude guardo as melhores lembranças, inclusive dos professores que tiveram sua parcela importante, não só na minha formação escolar, como no amoldar do meu caráter. 

Mas, há dias, eu vi e ouvi o ex-senador pelo Pará, então renunciante, em entrevista a uma emissora de TV, de Belém, de sua propriedade, dizer: "Voltarei sim ao cenário político brasileiro. Quem dirá, se como governador ou senador, será o povo paraense." 

Parece que o ex-Excelência está julgando muito mal o seu próprio povo. Estaria querendo lhe passar atestado de burrice? Imperdoável. Elucidemos. O dicionário define assim a palavra privilégio: "vantagem que se concede a alguém com exclusão de outrem e contra o direito comum." Sobre renunciar, ele diz: "deixar voluntariamente a posse de."

O que no Senado vem sendo definido como renúncia, em verdade é um privilégio inaceitável já que é contra o direito comum e exclui de igual "direito" todos os demais cidadãos brasileiros. Quem inflija uma lei e vá a julgamento, jamais poderá, pouco antes de ouvir sua sentença condenatória, renunciar à sombra de sua culpa e ver -se livre da pena a lhe ser imputada.

Por outro lado, o político que foge do seu delito, da sua falta, por esta porta que eles mesmos deixam permanentemente aberta, como o fez o ex-senador pelo meu Estado, não está saindo "voluntariamente" no sentido mais reto, mais íntegro, mais escorreito desse vocábulo, absolutamente. 

Ele a usou, como outros já o fizeram, para escapar a uma punição quando ela já se declarava iminente. Não existe portanto espontaneidade nesta voluntariedade. Trata-se sim de uma fuga nada honrosa, nada dignificante, muito ao contrário, apenas e tão somente uma vil escapadela, com o beneplácito de uma regra que quem foge ajudou a escrever e/ou a manter.

Por isso fico pasmo ao ver e ouvir senadores da República, até mesmo de partidos da chamada oposição ao governo, defenderem com garra essa excrescência, que é mais uma ofensa à inteligência dos brasileiros de bem. Um dos maiores exemplos do "legal que é imoral". 

Chama-se a isto, em outros termos, legislar em causa própria, já que os favorecidos são, sempre e somente, os mentores, os autores, deste dispositivo, mais ninguém. 

Uma vergonha que devia corá-los, enrubescer suas faces e não desenhar-lhes no rosto sorrisos impudicos, como habitualmente o fazem ao tentar justificá-lo. E sua ex-Excelência se valeu deste recurso. Que mal exemplo para nossos jovens que anseiem seguir a carreira política. 

Outro dia uma amiga tentava me consolar e disse: "Olhe, não só paraenses ou baianos sofrem, não, o brasileiro, em geral, tem sido um sofredor nesta conjuntura política." 

É verdade, mas quando tanta lama, tanta decomposição, tanta peita mancha o nosso chão natal, dói ainda mais fundo e parece que queimam a nossa bandeira, que cospem em nossa face, que vilipendiam nossa tradição, que passa ao largo de tanta bandalhice.

Diz o ditado que errar é humano, mas persistir no erro é burrice. Não acredito que a nossa gente vá usar ou abusar do direito de errar, outra vez. O povo é inteligente. 

É verdade que todo político tem e sustenta os seus redutos, costuma manipular parte da opinião pública, desinformada e carente. O Brasil ainda tem esse processo de cabresto, pelo interior também chamado de "coronelismo". Não é à-toa que a educação do povo avança tão lentamente.

Mesmo assim eu confio que a gente paraense, nas eleições do próximo ano, dará um exemplo de civismo, de consciência da importância do seu papel no cenário nacional. Ela mostrará o seu repúdio a quem usa o povo para se sustentar no poder, usufruindo dele em benefício próprio. 

O povo haverá de se lembrar que se não houve uma cassação de mandato, se ela não se concretizou, foi porque a escapada pela renúncia permitiu a fuga à responsabilidade. E quem foge a ela, no mínimo, admite a culpa. 

Não creio que os paraenses voltarão a incorrer em falta, a cair em culpa, a cometer um "pecado" desses que seria uma transgressão de seus preceitos morais e religiosos ante o olhar atento de sua padroeira, Nossa Senhora de Nazaré, que amanhã todos estarão reverenciando, por ocasião do Círio. 

A boa gente do Pará não há de querer ficar à margem desse clamor nacional, desse processo em que tantos já tentam realmente passar o Brasil a limpo. E isso não será jamais possível enquanto ficarmos a jogar o lixo para debaixo de nossos tapetes.

Que dêem a seus descendentes, no futuro, o orgulho de aprender, nos livros de História, que a nossa gente, em momento tão importante da vida do Brasil, não se embeveceu com sorrisos de impudência, não se deixou atrair pelo canto de sereia de algum aliciador, nem se curvou ou se rendeu a qualquer tipo de ameaça. 

Que os paraenses reflitam bem, que se empenhem de corpo e alma nesta campanha nacional pela moralização política desse país, que dêem o melhor de seus exemplos, e atirem o nosso lixo caseiro para onde lhe fica mais apropriado: para a lixeira do ostracismo, do banimento, do repúdio consciente. 

 
(outubro/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm