Francisco Simões

   

UM OSCAR PARA OSCAR

Amigos, aconteceu hoje, quando estou escrevendo esta crônica, neste sábado, dia 27.10.2001. O palco foi a quadra esportiva do Maracanãzinho. O jogo era um Fla x Flu, de basquete, claro. 

A torcida brasileira esperava o grande momento para comemorar. As cores dos clubes cederam lugar às cores que compõem a bandeira do Brasil. Todos torciam por Oscar Schmidt, pelo menos no começo do jogo.

O fato: o nosso atleta Oscar estava há apenas 3 pontos de bater o recorde mundial que pertencia ao jogador norte-americano Kareem Abdul-Jabar, ou seja, 46.725 pontos. Durante o primeiro quarto do jogo o time do Flamengo parecia mais uma "ansiedade S/A". 

Tentavam dar a bola ao Oscar, mas ela não chegava e quando chegou, em duas oportunidades, ele a lançou de fora do garrafão. Era a tentativa dos 3 pontos com uma só cesta. O aro da cesta, porém, estava de mau humor e recusava aceitar o que todos sabiam que seria inevitável. 

Finalmente, no começo do segundo quarto de jogo, a mão santa de Oscar esculpiu a sua obra de arte maior: o 46.727º ponto. Até o tempo parou para assistir.

Oscar Schmidt, brasileiro, nascido em Natal (RN), nordestino bravo e talentoso, acabara de se consagrar como o maior cestinha do mundo, de todos os tempos. Era apenas uma confirmação do que já se esperava. As regras do basquete foram quebradas para que o novo rei recebesse as muitas e justas homenagens. 

Lembrei do milésimo gol de Pelé, feito bem ali ao lado, no Maracanã, há muitos anos atrás. O gramado e a quadra, do mesmo complexo esportivo, foram eleitos pelos deuses do esporte, para serem os cenários de dois dos maiores feitos esportivos, a nível mundial.

Mas, os reis também choram e Oscar deixou explodir sua emoção que se irradiou por corações e mentes e que, através da TV, chegou até mim. Confesso que também chorei, não só porque sou emotivo, mas porque, para além de vascaíno, sou esportista e acima de tudo, brasileiro.

A camiseta rubro-negra que ele vestia banhou-se também de glória. Seu número: 14. Agora ela faz parte não só da história do Flamengo como também do esporte brasileiro e do basquete mundial. 

Oscar Schmidt, 33 anos, apresentado a uma bola de basquete aos 13 anos de idade, você é a imagem do Brasil que trabalha, que acredita, que persiste, que faz do sucesso sua meta. 

Você honra e dignifica o nosso esporte e a nossa nação. Você soergue a nossa fé, a nossa esperança neste país tantas vezes vilipendiado por maus brasileiros. Você reacende o nosso orgulho e dá o melhor de seus exemplos para nossa juventude. 

Eu tive a honra de trabalhar com seu tio, entre os anos de 1980/82, num Departamento da Direção Geral do Banco do Brasil, no Andaraí, aqui no Rio de Janeiro. Ele me contava muitas histórias de sua infância e juventude, sentia-se orgulhoso do seu sucesso, já naquele tempo. Chamava-o de "o meu menino". Ele também se emocionava facilmente e, falar sobre você, enchia-o de felicidade.

Você sempre diz que considera sua maior vitória a participação que teve naquele campeonato Pan-Americano, realizado nos Estados Unidos, em 1987. Concordo com você, Oscar. Eu também assisti à partida final, ao vivo, pela TV. Que façanha memorável. 

O jogo colocava o Brasil contra os donos da casa, os americanos. Em 100 anos de basquete eles jamais haviam perdido uma partida sequer dentro de casa.

Lembro como se fosse agora. O domínio do jogo pertencia à equipe americana, embora a seleção brasileira não se apresentasse muito mal. Chegamos a estar perdendo por 22 pontos. A derrota parecia inevitável. Tudo conspirava a favor deles, principalmente a invencibilidade histórica. 

Os jogadores americanos passaram então a subestimar a nossa seleção. Lançavam sorrisos irônicos, falavam coisas, davam cotoveladas provocativas entre outros recursos não muito esportivos. Eles tinham todos os motivos para se considerarem superiores tecnicamente, imbatíveis, inexpugnáveis, mas se excediam. Isso era imperdoável.

A nós, torcedores, causava irritação o comportamento daqueles atletas que, de certa forma, estavam maculando sua natural superioridade, com atitudes pouco dignas e mesmo antiesportivas. Parecia, entretanto, que teríamos que "engolir" tanta arrogância pela excelência do basquete que praticavam.

Foi quando, de repente, você, Oscar, e seus bravos companheiros de time, embora extenuados, como que reagruparam suas reservas de energia, buscaram no brio, na raça, na garra, dar uma resposta ao sentimento de sua própria dignidade que estava sendo desafiado, injuriado. 

A partir daquele momento vocês acertaram todas, encestaram todas, como se os papéis houvessem se invertido. Os jogadores americanos não acreditavam no que viam e começaram a errar e a fazer faltas em excesso, tentando barrar a avassaladora reação de vocês. 

O nervosismo deles tomou posse onde antes reinava a ironia, o desdém, a insolência. Pouco a pouco a diferença de pontos foi encolhendo, desaparecendo. Sua mão esteve mais santa e benta do que nunca, Oscar Schmidt. Os invencíveis jogadores americanos, eles sim, de repente pareciam "baratas tontas" dentro da quadra. 

Quando o placar esteve empatado nós começamos a acreditar no milagre. Torcíamos de mãos juntas aqui em casa, apelávamos para a seleção de santos conhecidos, pulávamos a cada cesta da "vingança" contra a intimidação que estava a nos ser imposta antes. Vocês viraram o placar a nosso favor.

Ignorando a invencibilidade secular do basquete americano, vocês atropelaram os campeões mundiais e olímpicos. Foi uma batalha inesquecível. Quando o jogo terminou nós (sim, porque nós "ajudamos" também com a torcida, pois) havíamos vencido por 8 pontos de diferença. A gente gritava, se abraçava e chorava.

A sua imagem, caído ao chão da quadra, ao final da partida, e a expressão de raiva e despeito estampada no rosto dos jogadores norte-americanos, ficaram guardadas em nossa memória. 

Foi a primeira vez que vi alguns atletas americanos chorando, na derrota. Eles não eram mais invictos. Nós éramos Campeões Pan-Americanos de basquete, na casa deles. No ano de 1987.

Naquele dia os americanos ficaram devendo um "Oscar" a você, OSCAR, gigante, Schmidt. Parabéns, grande campeão, parabéns, recordista mundial. O Brasil ganhou mais uma, graças a você. Que Deus o abençoe e a sua bonita família, e mantenha a santidade de suas mãos, eternamente.


 
(novembro/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm