Francisco Simões

   

BARATA TONTA ?!

Cidadão brasileiro, aposentado, que acredita estarmos numa democracia, com muitos defeitos, mas democracia, quero me dirigir a S. Excia. o Sr. Presidente da República. Dessa República que tem sido tão maltratada, injuriada, castigada por tantos que já ocuparam esse cargo, antes, durante e depois da ditadura militar, de triste memória. 

Há uns poucos anos atrás fui tratado, assim como todos os aposentados, de "vagabundo" por V. Excia. Talvez não fosse essa a sua intenção, mas disse. Segundo o dicionário, vagabundo quer dizer, por exemplo, um indivíduo que seja "vadio, desocupado, ocioso etc." 

Desculpe, Excelência, mas trabalhei 32 anos e comecei aos 17. Para ter uma vida mais digna, como aposentado, pago e pagarei até o fim dos meus dias, uma aposentadoria complementar. Graças a Deus a posso pagar. 

Se não pudesse eu passaria necessidades, como a grande maioria do povo brasileiro, que tenta sobreviver só com o que lhe paga a Previdência Oficial. Essa mesma que o senhor diz estar falida, mas que tantos têm conseguido roubar muitos e muitos milhões de reais de seus cofres. E não costumam devolver nada!

Agora, aos 65 anos, eu não paro de trabalhar. Faço o que mais gosto: escrever e escrever muito, em prosa e em verso. O trabalho me ajuda a viver e não deixa dúvidas de que, nem como aposentado, Excelência, tenho vocação para "ocioso".

Diz ainda o dicionário que vagabundo é também: "velhaco, pelintra, canalha, biltre, etc". Perdoe-me senhor, mas quando viajamos, eu e minha esposa, pagamos as despesas com nossas economias, não com dinheiro público. 

Pequenas e eventuais mordomias que possamos nos conceder, o fazemos com nossos salários. Ela também é aposentada. Não temos nem queremos ter qualquer aproximação ou favorecimento do poder.

Já suportamos vários planos econômicos, mirabolantes, mágicos, ardilosos, capciosos, que sempre começam com festa e beijinhos e terminam com chicotadas em nossas esperanças. Na hora do desmonte de cada um deles, nós, como trabalhadores, como eleitores, como povo, somos sempre soterrados. Os que os patrocinaram é que merecem as qualificações especificadas no dicionário.

Excelência, a mão que o senhor mantém fechada para necessidades da saúde, da educação, dos salários congelados dos funcionários públicos, há 7 anos, do vergonhoso salário mínimo, das miseráveis aposentadorias e pensões desta mesma gente que o reelegeu, o senhor abre, generosa e rotineiramente, à única categoria deste país que nunca sentiu o gosto amargo de qualquer dos falidos planos econômicos: os senhores banqueiros. É justo?

No seu passado político, V. Excia. sempre teve posição contrária a muita coisa que posteriormente veio a adotar. Lembro-lhe o recorde de medidas provisórias que já assinou, os valores atuais de nossas dívidas externa e interna, esta, então, chegando à estratosfera, e tantas outras. O senhor foi crítico severo de governos anteriores, mas acabou por vencer a todos nesses recordes negativos.

Estas contradições devem fazer parte de uma antevisão que o levou a nos pedir: "Esqueçam tudo que eu disse e escrevi sobre política e economia." Disso o senhor se lembra, não? Por sinal, com toda franqueza, este foi um dos motivos que me levaram a não votar no senhor. Mas houve outros.

Decepcionou-me também vê-lo um dia, quando, apenas candidato à prefeitura de S. Paulo, sentar-se à cadeira do prefeito, com ares de vitorioso e um sorriso que arranhava a raia do deboche, posando para toda a imprensa. Isto também o senhor se lembra, não? No final teve que amargar uma derrota para Jânio Quadros, que já se preparava para a aposentadoria política. 

Outro forte motivo que me desviou de sua candidatura foram certos apoios políticos que V. Excia. buscou com empenho. O senhor se aliou a tudo aquilo que antes criticava nessa política brasileira. Olhe que nem precisava tanto, acredito que venceria mesmo sem eles, mas faltou-lhe autoconfiança. Que fazer?!

Como eu não pretendia esquecer meus princípios e ideais de política para este país, não consegui dar-lhe o meu voto. Apenas, eu me mantive na coerência. Também não votei no senhor, por ocasião da reeleição, por outros motivos. Por exemplo, não me agradavam os rumos que tomavam suas políticas econômica e social.

Desagradou-me ainda que tenha usufruído da modificação do dispositivo constitucional que veio a permitir a reeleição. Aplaudi sua iniciativa em trabalhar por ela, mas, desculpe-me, não achei nada elegante valer-se dos seus efeitos. Talvez eu esteja errado ou meu velho pai, português, não me tenha ensinado direito as noções de ética e afins.

Mas, agora o senhor chama os seus opositores de "baratas tontas"?! Na Sorbonne não usavam estes termos, pois não? Eu disse não ter votado em V. Excia. e o justifiquei. Sinto-me portanto também atingido com mais esta expressão nada própria para um estadista da sua envergadura. Atingido, mas não ofendido.

"Barata tonta" é uma pessoa atônita, desarvorada. Realmente às vezes eu fico atônito, mas muito consciente. Fico, porque não entendo como mantemos tantos brasileiros vivendo abaixo da linha da miséria, a educação à míngua, os professores pessimamente remunerados, a saúde pública nos colocando em um dos últimos lugares do mundo neste modelo de assistência.

Fico mesmo atônito, Excelência, ao ver como os discursos são tão bonitos, mas tão fora da nossa realidade. As baratas, as que não são tontas, estas fazem festa nos locais onde "habitam" tantos brasileiros e brasileiras que não têm teto. Homens, mulheres, idosos, crianças que permanecem ao desamparo de tudo e não têm onde se socorrer? E os milhões de desempregados? Não é para ficar atônito, senhor? 

V. Excia certamente não deve nem ter tempo de sentir fome, afinal são tantas as reuniões, tantos os banquetes, os convescotes, aqui e lá fora, que fome fica até difícil de lembrar do que é, não? Pois é.

Tenho observado que, de reforma agrária seu governo, como os anteriores, só lembram de falar quando o trabalhador sem terra se levanta, faz manifestações, protestos, etc. Aí logo aparece alguém para dizer que "só trataremos do assunto se pararem as manifestações". Curioso que se eles param mesmo, até o Ministro esquece a promessa. Então começa tudo de novo. Não parece de propósito? Sei que não é, mas parece, não Excelência?

Nem vou me referir às borrachadas, tiros e outras "prendas" que a polícia distribui com fartura para eles. Os estudantes, professores, trabalhadores, quando se manifestam, invariavelmente também as têm recebido. Parece até que estou falando de "direitos iguais", não? Desculpe meu senso de humor, não pude evitar. 

Tenho também estado atônito com a insensibilidade e o grau de injustiça de V. Excelência no que tange a não correção da tabela do imposto de renda já por 7 anos. O senhor sabe que está promovendo um verdadeiro massacre, não nas rendas, mas nos salários da classe média. Desculpe a sinceridade, mas isto é uma vergonha e um descalabro.

Fico também atônito quando vejo o Diretor da Receita Federal, sorridente, anunciar o "crescimento da arrecadação"!! Bolas, Excelência, assim é muito fácil. Providências para incentivar de verdade a produção brasileira, isto nem pensar não é? Governar, criando e aumentando constantemente impostos, para além das tarifas de serviços públicos, sempre acima da inflação, é fácil, não?

Achei muito bonito seus discursos na França e na Inglaterra, outro dia. Em Paris V. Excia caprichou com aquele "Vive la France", ao final. Quanta erudição. Mas, permita-me uma pergunta, sem querer ser impertinente: o senhor já viu alguma autoridade, ao seu nível, da Alemanha, da Inglaterra, dos EEUU, da França e outros, ao visitar o Brasil, se empenhar para discursar em português? 

Engraçado, a recíproca nunca é verdadeira, não? Talvez a culpa seja mesmo nossa. 
Costumamos valorizar mais o idioma dos outros do que o nosso. Ou então estou errado e passando um atestado de idiota a mim mesmo. É, desculpe Excelência. 

Mas, voltemos às "baratas tontas". Embora eu esteja atualmente com um pé atrás em relação ao Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, devo admitir que ele foi feliz ao dizer, outro dia: "Barata tonta é quem disse que não sabia que o Brasil estava à beira de uma crise energética." Vi e ouvi nos noticiários das TVs. 

Achei mesmo que o Lula acertou na mosca... ou seria na... ora, deixemos para lá. Mais atônito tenho motivo para estar ao ver o seu Governo autorizar aumentos de tarifas, acima da inflação. Recentemente corrigiram, e bem, a da LIGHT! Excelência, consta que ela compra a energia de Furnas por R$0,047 o kw e revende para nós, consumidores, a R$0,25 o kw. 

Faça as contas junto comigo: a LIGHT já sobrepõe no preço, ao consumidor, um aumento de quase 500%... e ainda diz ter prejuízo? E o governo acredita? Talvez esteja sendo mal administrada, aí é outro problema. Mas nós é que temos que pagar por isso, Excelência? O senhor nos convocou para poupar energia, nos fez restringir hábitos, e agora nos impõe pagar mais pelo que gastamos menos?

Temos muitos motivos, como vê, para ficarmos atônitos, desarvorados, atordoados. Todavia, as "baratas tontas", Excelência, essas eu devolvo. Destinatário equivocado.

 (novembro/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm