Francisco Simões

   

DO SUBSOLO PARA AS ENTRELINHAS

Há verdades que nos parecem mentiras, mas, por outro lado, há mentiras que assumem o papel de verdade de forma tão convincente que acabamos por acreditar nelas como tal. Porém, consideremos ainda as chamadas meias- verdades. Essas costumam ser muito dissimuladas.

Imaginem se quiséssemos acabar com uma praga de baratas em nossa casa, por exemplo, e decidíssemos, para isso, pôr a casa em baixo, ou derrubar todo o quarteirão, ou destruir a cidade, ou mesmo arrasar com o país. Acabaríamos com quase tudo, mas as baratas, estas continuariam no seu hábitat e retornariam.

A menos que, a pretexto de exterminar as inconvenientes baratas, visássemos algo mais que nos impelisse a tanta força, tanta destruição, mas não declarado. Seguindo este raciocínio quero chegar à excelente matéria de autoria de George Monbiot, analista do jornal inglês "The Guardian". O título é: "A rota até o petróleo".

Muitos de nossos leitores, no Brasil, nem devem ter tomado conhecimento desse artigo, daí justificar-se comentar a análise do Sr. Monbiot. Ele diz não restar dúvida de que a invasão do Afeganistão seja uma campanha contra o terrorismo. E acrescenta: "mas, talvez se trate também de uma tardia aventura colonial."

Justificando ele afirma: "O Afeganistão possui reservas de petróleo e gás, porém não suficientes para que o país alcance a categoria de importante preocupação estratégica. Entretanto, seus vizinhos mais ao norte possuem reservas que poderiam vir a ser vitais para o futuro abastecimento mundial." 

Ele quis dizer que os países Azerbaijão, Cazaquistão, Irã, Rússia e Turcomenistão, todos localizados na bacia do mar Cáspio, possuem reservas que são calculadas em 200 bilhões de barris de petróleo. Quem estiver interessado no controle mundial deste combustível talvez tenha que pôr seus olhos, pés e talvez armas, no golfo Pérsico e na Ásia Central. 

Segundo Monbiot, todo o petróleo e o gás que ali existem não valem nada se ninguém os tirar de lá. E sabem qual é o país que está justamente na rota entre o Oriente Médio e a Ásia Central? Quem disse Afeganistão, acertou. 

Ele acrescenta que "um sistema de oleodutos através do Afeganistão permitiria a qualquer nação apossar-se das preciosas reservas, bem como conseguir sua penetração pelos mercados mais lucrativos do mundo." 

Para terem uma idéia mais aproximada de tal riqueza, somente Azerbaijão, Cazaquistão e Turcomenistão possuem mais petróleo do que toda a região do Golfo. Não é à-toa que cinco das maiores empresas de petróleo do mundo fecharam acordos bilionários com aqueles países com o objetivo de explorar suas reservas. 

Em sua narrativa, Monbiot recorda que quando os talibãs tomaram Kabul, em setembro/1996, o jornal "Daily Telegraph" informava que os entendidos do setor de petróleo afirmavam que o sonho de se conseguir um oleoduto através do Afeganistão era a razão fundamental para que o Paquistão, um firme aliado dos americanos, tivesse apoiado decididamente os talibãs, embora não simpatizasse com eles, e que houvesse permitido a conquista do Afeganistão pelos mesmos. Isto em 1996.

Não esqueçamos ainda que o general que governa o Paquistão tomou o poder num golpe de estado, logo o regime é ditatorial. 

Aliás, na China, ainda persiste a cruel ditadura comunista que promove execuções em público, às centenas. Mas, elas são aceitas com tolerância, compreensão e complacência pelas maiores lideranças políticas mundiais. Elas abraçam esses ditadores, sorriem juntos e deixam-se fotografar com eles, agora como "aliados". 

É curiosa a conveniente miopia da visão política internacional atual, que só consegue enxergar e condenar como ditadura, neste planeta, a que o Sr. Fidel Castro sustenta em Cuba. Dois pesos, duas medidas.

Voltando às gigantescas reservas de petróleo naquela parte da Ásia, idênticos interesses explicam também a guerra da Rússia com a Chechênia e a tentativa, em 1988, de dominar o próprio Afeganistão. A Rússia foi derrotada pelos talibãs, sob o comando de Osama bin Laden, que teve então o apoio integral dos Estados Unidos. 

A Rússia ainda era comunista. O "muro de Berlim" caiu no ano seguinte, em 1989. Eu morava então na Europa.

Sobre o Sr. Osama, a imprensa do mundo inteiro já contou a história de seu recrutamento e treinamento em órgão da inteligência americana para aquele fim. Mas, a matéria do Sr. George Monbiot mergulha muito mais profundamente neste jogo de interesses desfilando fatos que vêm de longe. 

Ele lembra, a certa altura, que o atual vice-presidente americano, Richard Cheney, quando era o executivo máximo de uma importante empresa de petróleo, teria feito esta declaração: "Não me ocorre nenhum outro momento em que tenhamos assistido ao surgimento de uma zona tão importante, pelo ponto-de-vista estratégico, como o mar Cáspio." Isto em 1998.

Monbiot afirma crer que o governo americano, e por conseguinte, os demais países que colaboram nesta guerra, não mentem quando proclamam sua intenção de acabar com o terrorismo naquela região. Mas, acrescenta ele que não seria ingênuo de acreditar que também não estejam planejando algo mais. 

Monbiot chega a lembrar, em sua matéria no "The Guardian", que os atuais dirigentes americanos já foram executivos de empresas de petróleo.

Sugiro a leitura de um excelente artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, de 31.10.2001, que traz a assinatura de Frei Beto. O título é "Laços de Família".

Por ele chega-se a uma melhor compreensão sobre o mundo de negócios que envolve o petróleo, e a participação nele de famílias cujos nomes estão em evidência no cenário político internacional atual.

Frei Beto apóia sua narrativa desde o ano de 1918, ou seja, desde Prescott Bush, avô do atual presidente, passando por personagens como Muhammad Bin Laden, que teve 52 filhos. Ele é pai do Osama, hoje inimigo nº 1 dos EUA. Interesses comerciais na área do petróleo, à época, aproximaram as duas famílias. 

O irmão mais velho de Osama, chamava-se Salem Bin Laden. Este e o pai, Muhammad, morreram em desastres aéreos. 

Frei Beto cita como fonte, da qual extraiu os dados constantes de seu excelente artigo, o analista italiano Francesco Piccioni. Alude também ao escritor americano Steve Hatfield, autor do livro "A Fortunate Son: George W. Bush and the Making of an American President." 

Por todas essas informações, colhidas em fontes da maior credibilidade, somos levados a entender melhor, e a perceber com mais clareza outros aspectos, ainda que em segundo plano, mas que tenham ressurgido a partir dos terríveis atentados terroristas de 11.09.2001 e da necessidade de uma reação rápida e maiúscula. 

É inevitável ficarmos com uma ponta de desconfiança de que o ouro negro, que é o petróleo, deve mesmo se encontrar tanto no subsolo da Ásia quanto nas entrelinhas dos discursos das principais lideranças mundiais no episódio desta guerra, cuja finalidade primeira é, sem dúvida alguma, tentar exterminar o terrorismo comandado por Osama.

(Agradeço ao amigo e meu "correspondente" na Europa, Manuel A. Santos, a contínua remessa do noticiário da imprensa da Comunidade Européia)


 (novembro/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm