Francisco Simões

   

EXPRESSÃO DA ALMA

Amigos, na tarde de 15.11.2001, no Teatro da Galeria, aqui no Rio de Janeiro, ocorreu a bonita festa de entrega dos prêmios do VII Concurso de Poesia "Expressão da Alma". Este evento é uma idealização e produção do jovem Luis Marques.

Os 400 lugares do teatro estavam todos tomados. Ali iríamos ouvir poesia. Estavam presentes tanto a juventude brasileira quanto a terceira idade. Cabelos curtos, cabelos longos, pretos, louros, prateados, em cabeças talentosas. O imenso e bonito palco aguardava ansioso pelos artífices da palavra e da emoção. 

Fiquei feliz de ver o sucesso de mais um empreendimento daquele jovem brasileiro que tanto tem se empenhado pela divulgação de nossa cultura. Um ato verdadeiramente heróico em se tratando de Brasil. Não deveria ser assim, mas desmentir o óbvio é falsear a verdade. 

Há muitos concursos literários de norte a sul do país, a esmagadora maioria deles realizada pelo amor e a abnegação de uns poucos. Este, promovido pelo Luis Marques, traz, no próprio título, uma definição que alude, da forma mais perfeita, à enunciação do pensamento por meio de palavras: "Expressão da Alma". 

Quando as cortinas foram descerradas, junto com uma bonita melodia surgiu a figura do mestre de cerimônia: Cláudio José. Simpático, comunicativo, com um timbre de voz marcante, colocou toda a sua experiência de locutor profissional no abrilhantar de um evento que se prenunciava dos mais férteis no encantamento de um encontro de poetas sem barreiras de estilos ou de escolas.

Um a um foram sendo chamados os concorrentes aos quais estava destinada alguma premiação. Qual segredo bem guardado, o laurel, a cada um destinado, vinha fechado em um envelope. A surpresa ficava para mais tarde, afinal o importante era a participação de cada poeta. O Luis enfatizou bem isto. 

Começou um desfilar de pessoas das mais variadas idades, uns mais tímidos, outros mais extrovertidos. Alguns se expressavam através da poesia lírica, declamavam o amor, enquanto outros falavam da vida, ou então da ausência etc. Ouviu-se algumas poesias de crítica social e/ou política carregadas de uma plena consciência da realidade em que estamos mergulhados.

Entre estes agradou-me ver jovens, rapazes e moças, preocupados com o preconceito, com as diferenças sociais, com a hipocrisia dos discursos políticos. Esta temática foi tratada ora com o rigor de um juízo crítico, ora com um refinado humor temperado com deliciosa ironia que se mantinha para aquém dos limites do escárnio. A poesia se consagrava a pleno.

A certa altura uma moça lia o seu poema "Esperança do amanhã". Enquanto eu a observava e acompanhava a mensagem transmitida por seus versos minha mente mergulhou, por uma fração de tempo, no passado. Senti-me na idade dela e pulsando em mim uma esperança robustecida pela minha jovialidade. 

O meu amanhã era então algo muito distante, longínquo, apenas um sonho, um anseio, uma visão de futuro num tempo em que o amor dispensasse a esperança porque se tornara realidade, aliado à verdadeira paz duradoura. A jovem, no palco, falava da sua fé, da sua confiança, eu a escutava atentamente pousado no meu amanhã que traiu a minha esperança.

Retornando ao presente escutei o apresentador dizer o meu nome. Soltei a mão de minha esposa e caminhei rumo ao palco. Era o 30º prêmio em concursos literários neste ano de 2001, mas para mim é sempre como se fosse o primeiro. Declamei o meu poema ALELUIA. Ao ouvir os aplausos, pude associar-me à emoção que os demais poetas premiados certamente também sentiram.

Mais uma vez, como acontecera no "Expressão da Alma"- IV, eu ganhara o prêmio de Melhor Crítica Social. Daquela vez a poesia fora É NATAL. Aliás, foi justamente naquele evento, em dezº/1999, que, participando pela primeira vez de um concurso daquela natureza, logrei receber 3 belos prêmios. Eu tinha então "apenas" 63 anos.

Vejam só, inscrevi meus trabalhos e fui embora para Cabo Frio, como faço todo ano no começo de dezembro. Nem compareci à festa naquela oportunidade. Devia ter devolvido os 3 prêmios que me concederam. Fui um ingrato. 

Mas, a verdade é que eu, então escrevendo apenas para as minhas gavetas e para alguns bons amigos que me incentivavam, não acreditava que fosse merecedor de tanta distinção. Eles me abriram os olhos com aqueles prêmios. Afinal o que eu escrevia tinha algum valor, sim, teria sido o "recado" dos jurados.

Houve então um momento de se reverenciar grandes mestres da poesia brasileira. Foi chamada ao palco, como convidada, a poetisa Leila del Caro que nos brindou com 3 lindos poemas. Ela declamou obras de Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Os muitos aplausos premiaram a lembrança, o gesto, a declamação no ponto alto daquela récita.

O evento se encaminhava para o final. Foi chamado o jovem Júlio Ziegelmann. Ele obtivera, com seu poema, o 3º lugar no geral do concurso. Uma crítica bem humorada da sociedade, seus hábitos, costumes e problemas. Mais um jovem a provar, com a excelência de seu trabalho, o elevado grau de consciência que nossa juventude possui da realidade atual.

Juventude brasileira que desmente a pecha que, no dia 08.11.2001, a ela atribuiu certo órgão da imprensa americana, ao qualificá-la de "juventude anarquista"! Digamos que eles, por não estarem muito familiarizados com nossa língua e nem se interessarem por conhecê-la, devem ter errado na adjetivação. Deve ter sido isto.

O vencedor do 2º lugar trouxe outra evidência do que afirmo e defendo acima. Outro jovem leu e encantou a todos com seu talento expresso em versos magníficos. Seu nome: Leandro Tavares de Oliveira. 

A partir daquele momento as cortinas voltaram a ser fechadas. Um clima de suspense foi criado com a música escolhida e as mensagens que o brilhante mestre de cerimônia falava. Passou-se um minuto e logo reabriram as cortinas. O palco estava enfeitado de luzes e enevoado por longos jatos de gelo seco. 

Foi anunciado, com pompa e circunstância, o primeiro lugar, o grande vencedor. Subiu ao palco Olívio Valente Almeida, um poeta da terceira idade, como eu. Outro poema da melhor qualidade: "Ato de Contrição". Mereceu a distinção. Aliás, ele foi bi campeão no "Expressão da Alma." Pensei: que riqueza de literatura brasileira, quanto tesouro escondido, quantos poetas desconhecidos do grande público. 

Quantos países podem se orgulhar de ter uma seleção tão grande de autores, escritores, poetas, artífices da palavra e da emoção, esbanjando talento, como o nosso Brasil? Pena, muita pena mesmo que a grande maioria não possa sonhar com horizontes mais largos. A cultura não merece tanta atenção, não está entre as prioridades de nossos governantes, só nos discursos.

Ao encerramento daquele magnífico encontro de 400 pessoas, onde as que não eram poetas amavam porém a poesia, ficou a promessa emocionada do Luis Marques de que no próximo ano o "Expressão da Alma" será reeditado. Eu sei que será, porque acredito na tenacidade, na perseverança e no amor que movem as atitudes daquele jovem empreendedor.

Todos que buscam um espaço, que perseguem uma oportunidade de mostrar a outros a expressão de sua alma, através do encantamento da poesia, com certeza estarão novamente apoiando aquela iniciativa e trazendo para o concurso seus trabalhos. 

Que o eco da promessa do Luis alcance o Brasil de norte a sul e de leste a oeste, que surjam mais e mais poetas novos, que tragam a sua luz, a sua emoção, a sua palavra, fale ela de amor, de saudade, da vida enfim, ou mesmo da morte. 

Que soltem a sua voz pela paz, pela justiça social, pela solidariedade e contra a violência, a guerra, o preconceito, o ódio irracional a outras raças, credo e religiões. 

Poetas, jamais esmoreçam, acreditem sempre, escrevam sempre, ouçam e atendam sempre ao chamado da poesia que congrega, que aglutina, que nos enleva, nos arrebata. É através dela que nossa alma realmente se expressa, que nossos sentimentos se traduzem em emoção.

 (novembro/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm