Francisco Simões

   

OS "ANTIAMERICANOS" ?

De repente, nas informações e contra-informações que têm origem nos próprios Estados Unidos, surgiu, em forma de versão oficial, esta notícia sobre os ataques com o tal de antraz em cidades americanas: "FBI e CIA suspeitam de grupos radicais americanos."

Os jornais do mundo inteiro divulgaram com destaque o que foi dito por agentes, tanto do FBI quanto da CIA, em entrevista a jornalistas da imprensa internacional e americana.

O Sr. Rabbi Abraham Cooper, que é diretor associado do Simon Wiesenthal Center, em Los Angeles, teria também declarado que "as mensagens anti-Israel, presentes nas cartas de antraz e em declarações de Bin Laden, são geralmente utilizadas por grupos extremistas americanos".

Mais adiante, pelas declarações daquelas autoridades, salienta a imprensa internacional que elas acreditam terem as ações, repetidas já por dezenas de vezes utilizando o pó branco, antraz, origem "nas associações de extrema direita radical americana e de pessoas simpatizantes do fundamentalismo islâmico." 

Como se trata de informações oficiais, passadas por pessoas insuspeitas, não temos porque duvidar. Parece, enfim, que a verdade não chegou a ser morta de todo com o início da insana guerra promovida pela "Vingança S/A", como habitualmente acontece. Ainda bem, melhor assim.

Alguns jornais europeus e americanos atribuem ao presidente Bush a declaração de que ele acredita numa possível ligação entre a bactéria, antraz, e os presumíveis autores dos criminosos atentados de 11/setembro passado. Bem, até o momento, os "presumíveis autores", para eles, seriam os talibãs, sob o comando de Bin Laden. Assim não fosse não teriam iniciado os pesados bombardeios sobre o Afeganistão.

Por outro lado, não precisa ser muito inteligente para mergulharmos em nossas idéias e, puxando pelo raciocínio carregado de lógica, conclamando a voz da razão, fazermos alguns questionamentos que se justificam plenamente. Quando se fala de "extrema direita radical", ou ainda que fosse "extrema esquerda radical", tem-se, no mínimo, que admitir intenções autoritárias.

Pessoas que não sabem, que não conseguem conviver, com democracia. Pessoas que anseiam sempre pelo arbítrio, ou que são despóticas, discricionárias, que não respeitam leis ou regras, apenas as que elas mesmas façam e imponham em forma de ditadura. Já sentimos o amargo sabor desse despotismo, desse regime tirano.

E quem é o tirano? É o indivíduo ou o grupo que usurpa o poder e o exerce com as próprias mãos, geralmente impiedoso e cruel. Em termo de grupo, um exemplo é o da Klux Klux Klan, organização inspirada no ódio racial que já torturou e matou, através da história americana, milhares de pessoas negras, tanto homens, como mulheres e crianças. Criada logo após 1800 age até hoje, em menor escala. Eles aplicam sua própria "lei".

Sabermos, pelas declarações daquelas autoridades americanas, que grupos radicais e de extrema direita estariam na origem da disseminação do pânico faz-nos pensar: estariam eles se valendo da insegurança que impera entre a população para tentar implantar um clima anárquico, buscando a negação do princípio da autoridade para atingirem seus objetivos? A tradicional democracia americana correria riscos? 

Ora, se agem agora semeando terror, não seria lícito fazermos conjeturas do tipo de supor o envolvimento deles também na raiz dos atentados em 11/setembro? Faz sentido. Por que agiriam apenas neste momento? E se de alguma forma participaram, o fizeram sozinhos ou escorados em algum tipo de apoio? Qual? Apenas o dos próprios terroristas fanáticos? Pode até ser.

Considerando a agressividade dos ataques com o pó de antraz não parece que objetivem somente "assustar". Estão atacando pessoas comuns, mas também autoridades, e já provocaram algumas mortes. São atentados a domicílio. Os executores seriam, portanto, americanos aliados a terroristas. É o que se conclui das informações dos agentes do FBI e da CIA, na entrevista de 26.10.2001.

O discurso, tanto do presidente americano quanto dos demais líderes mundiais que participam da "Vingança S/A", se apoiou em perseguir e acabar com o terrorismo onde ele estiver. Li esses dias na imprensa que os americanos pretenderiam instalar bases, ou grupos antiterror, inclusive aqui pela América do Sul. 

A esta altura, não seria melhor primeiro, digamos, "dedetizar" sua própria casa para depois, se for mesmo o caso, ajudar amigos e/ou vizinhos? Pelo menos é mais lógico. 

Não seria o caso de atirarem as bombas sobre suas próprias cabeças, claro que não, mas será perigoso demais se as autoridades americanas não se voltarem, com a seriedade necessária, para este "terror caseiro" agora que admitiram a sua existência e atuação nestes muitos casos de ataques com antraz.

E quanto ao Afeganistão, vão continuar os bombardeios? E se não pegarem o tal do Bin Laden não vão acabar tornando o fanático milionário num herói ainda mais carismático para os seguidores dele? Não será muito pior? Não há risco de a situação fugir do controle, se é que há algum no momento, e a humanidade ficar exposta a um terrorismo, em nível mundial, dos mais cruéis? 

Não esqueçamos que o Sr. Bush, há pouco tempo, contrariou os esforços internacionais para conter ameaças de guerra biológica. Ele próprio decidiu não assinar o protocolo que se destinava a fortalecer a chamada Convenção de Armas Biológicas. Esta continha dispositivos para monitorar e fiscalizar o seu cumprimento.

A decisão equivocada do Sr. Bush gerou severas críticas no plano internacional das nações. Quase ao mesmo tempo era lançado o livro "Germes: as armas biológicas e a guerra secreta dos Estados Unidos". Ele foi escrito por 3 jornalistas americanos, do "New York Times", que relatam os "constantes esforços do governo americano com o objetivo de ocultar sua atividade nessa área." 

Aliás, essa história vem de longe, pelo menos desde o governo Nixon à época da guerra do Vietnã, e tem sido lembrada pelos jornais do mundo inteiro. Há fatos que, mesmo conhecidos, precisam ser repetidos, ser lembrados, para a melhor compreensão do que se passa agora. O "feitiço" a se virar contra o "feiticeiro"? Talvez.

A ameaça de ataques por bactérias letais, é mais grave do que se possa imaginar. Sobre este assunto, a imprensa internacional, sem alarmismos desnecessários, tem porém informado melhor e de forma mais precisa do que a nossa, com raras exceções. 

Todos sabemos que apenas a Rússia, o Iraque e os Estados Unidos produzem, ou podem produzir o tal antraz em laboratório. E não apenas ele. O mundo inteiro fica então a mercê de loucos, com instintos assassinos, extremistas radicais, de direita ou de esquerda, fanáticos religiosos entre outros, de qualquer nacionalidade. 

Acrescentemos o movimento, também radical de direita, que já há alguns anos vem atuando em muitos países da Europa, mas não só lá: o neo-nazismo. Parece que o mundo sonhado e cantado por John Lennon, na linda canção "Imagine", tende a ser só uma utopia. Mesmo assim eu insisto em não deixar morrer minha esperança, como humanista, que me considero, e pacifista também. Quem sabe?

A propósito dessas revelações agora feitas por autoridades da CIA e do FBI, conto com que o bom senso prevaleça e ilumine as idéias de alguns severos críticos tupiniquins. Os mesmos que se arrogaram em donos da verdade, até em nossa imprensa escrita, (embora poucos fizeram algum barulho) tachando de "antiamericanos" quem condena a insanidade desta guerra atual.

Condenamos esta e todas as guerras promovidas pelos homens através da história do mundo. Não me venham com a lenga-lenga de que "sempre foi assim e jamais será diferente." Este é um pretexto para apenas justificar a violência humana. Além de simplista é inaceitável.

Os senhores vêm agora que afinal o "antiamericanismo" parece estar muito mais dentro das fronteiras americanas do que para além delas. É lamentável, mas irrefutável.

Amigos, solidários estamos todos nós, mas contra a violência, sempre, seja quem for o agressor. 

 (outubro/2001)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm