ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

MEU PRIMEIRO ASSALTO

 

Era um começo de noite de outono. Eu trabalhava na PREVI do Banco do Brasil. Preparava-me para sair quando o amigo, Diretor Administrativo da Fundação, pediu-me carona, pois o seu carro estava na oficina passando por uma revisão geral.

Saímos enfrentando uma chuva fina intermitente e nos dirigimos ao estacionamento. Eu deixava meu veículo numa área paga localizada bem em volta do então Tribunal do Júri, por trás da igreja da Candelária.

Lá chegando cumprimentamos o vigia e rápido nos abrigamos no interior do carro. Tratei de abrir o vidro da porta ao meu lado enquanto escutava uma história que o amigo me contava. De imediato senti que algo era encostado no lado esquerdo de minha cabeça ao mesmo tempo em que ouvimos um anúncio: “Olha aí, isto é um assalto. Não tentem nada senão eu atiro, estou por tudo…”

No momento julguei ser brincadeira de um amigo do Banco Central que trabalhara num filme de curta-metragem que eu fizera anos antes (Lona Suja), no auge da bitola super-8. Ele tinha o hábito de às vezes me assustar anunciando também um assalto. Tive o impulso de me virar e xingá-lo. A atitude mais enérgica da mão que segurava a arma me desestimulou do intento.

Voltei-me então para meu carona e fui enfático: “Palhano, nada de atos de heroísmo que estou com um revólver encostado em minha cabeça.” A seguir o assaltante nos apresentou a sua “pauta de reivindicações”: -- “Vão me passando dinheiro, jóias, tudo de valor que tiverem, e rapidinho. Nada de gracinha que estou por tudo.” Senti então um forte bafo de cachaça e temi tratar-se de um…..amador.

Ouvira dizer que esses são inseguros, assustam-se mais facilmente e, se descontrolando, acionam a arma, muitas das vezes desnecessariamente. Sem hesitar retirei todo o dinheiro que tinha no bolso traseiro da calça e passei ao meliante. O amigo fez o mesmo e percebeu que a revisão do seu carro ia sair-lhe mais caro do que pensara.

Passando ao segundo item da pauta o ladrão exigiu o cordão que meu amigo exibia ao pescoço. Palhano decidiu argumentar com ele dizendo que aquilo era apenas uma bijuteria barata, nada de valor. Jurou que fora a mãe que lhe dera, que ela já morrera e que o valor era apenas estimativo.

Receei por uma reação irritada do gatuno mas, pasmem, ele olhou, examinou e calmamente disse: “Tá bem, tá bem, deixa p’ra lá cara.” Custei a crer no que via mas, o ladrão estava confiando no assaltado.

A mesma sorte não tive eu. Do meu relógio, barato, ele não abriu mão. E eu fiquei sem ver as horas. Naquele momento arrisquei uma pergunta: “Por que você entrou nessa, cara?” E ouvimos o que eu já desconfiava: ele era casado, tinha dois filhos, estava desempregado e bebera para criar coragem de roubar. Aí, nós acreditamos nele e sua declaração aguçou meu sentido crítico.

Passei a fazer um “discurso” contra os planos econômicos, contra a insensibilidade das autoridades para com o desemprego etc. Falei que o considerava uma vítima do quadro social meio caótico que o País enfrentava. Isto em 1985!

Perguntei se ele acreditava em Deus e me respondeu afirmativamente. Imaginei então de que lado Deus estaria naquele exato instante, pois também acredito. Uma decisão difícil até para Ele, com certeza.

Vocês poderiam me perguntar: “Bolas, como conseguir coragem numa circunstância daquelas?” Coragem nada amigos, autocontrole nada, era puro e automático instinto de conservação. Apenas isso. Em meu pensamento apenas a idéia de que aquilo acabasse logo e que pudéssemos ir para casa reencontrar nossas famílias. Foi a “eternidade” dos 15 minutos mais longos de nossas vidas.

E mais durou porque o assaltante percebeu uma sacola no banco traseiro. Disse-lhe que eram algumas bermudas e camisas esportes que eu comprara, pois ia sair de férias na semana seguinte e viajaria para o nordeste. Ele foi enfático: “Passa ela p’ra cá, cara. Nada de truques hein?!” Teria que me virar para trás, então pedi-lhe calma e cuidado com a arma enquanto eu faria aquele movimento.

Quando ia entregar-lhe a sacola meu cotovelo esbarrou justo na buzina e ela soou. Esqueci de dizer que o motor do carro esteve ligado o tempo todo. Tomei umas pancadas fortes na cabeça enquanto ele esbravejava: “Tá querendo morrer cara, tá?” Na fração de um segundo cheguei a me despedir mentalmente de minha esposa.

Pedi ao ladrão que se acalmasse pois aquilo acontecera sem querer. Felizmente ele deu ouvidos a um bom senso que poderia parecer impossível emergir num momento daqueles e numa pessoa transtornada e aflita como ele.

Por sorte o vigia nada ouviu nem viu, pois a última coisa que eu queria era que alguém fosse nos ajudar. Certamente ele dispararia antes de fugir. Retirei a chave da ignição e a ofereci ao meliante, mas ele não a quis. Seus planos de roubo não eram tão ambiciosos.

Para complicar, o amigo me avisou que vinham algumas pessoas conversando pela calçada e que poderiam perceber nossa situação. Outro momento de nervosismo. Rapidamente sugeri ao “amigo” gatuno que se colocasse numa postura mais natural a fim de que ninguém desconfiasse tratar-se de um assalto. Facilitei, recuando a cabeça, mas com a arma sempre colada a ela.

Antes de me chamar de covarde procure primeiro se imaginar na mesma situação, preso dentro do veículo, portas trancadas, arma em sua cabeça, os trunfos todos com o assaltante. Que jogada você faria? O suspense demorou pouco mais de um minuto enquanto as pessoas passavam ao largo.

Pedi-lhe que fosse embora, afinal já tinha tudo que queria. Mas ele viu minha pasta, meio encoberta por meu paletó, no banco de trás. Mandou-me pegá-la. Voltei-me com todo o cuidado e ao abri-la ele julgou que houvesse uma arma dentro. Ficou nervoso mas mostrei-lhe tratar-se de meus óculos de ler que, um pouco para fora da caixa e no escuro, pareciam ser uma pequena pistola.

Ele então descontraiu e chegou a soltar um sorriso nervoso. Tive que lhe dar mais algum dinheiro que ali estava. Falei que era para minha esposa, mas tive que reconhecer que a dele necessitava mais.

Finalmente ele encerrou aquela tragicomédia, não sem antes dizer palavras de ordem para nos assustar e não termos nenhuma reação a seguir. Virei minha cabeça para a esquerda e ainda o vi correndo na direção da Praça Quinze.

Percebi que era de pequena estatura e, como tenho 1,80m, logo deduzi que minhas bermudas e blusas não iam lhe servir.

Religuei o motor do carro e tentei… é, tentei sair, mas minhas pernas tremiam e eu não conseguia sequer controlar os pedais. O motor morreu. Engraçada essa reação de nosso sistema nervoso ao relaxarmos após um grande susto. No sufoco ele me segurou como um “bravo” e depois me desmontou como um lixo.

Como em certos filmes americanos, fechamos a última cena deste relato com duas boas gargalhadas que eu e Palhano demos. Só se chora quando se nasce a primeira vez. Nós havíamos renascido.

(A história é verídica e não desejo a ninguém o que passamos, nem a algum inimigo, se acaso o tiver.)





(dezembro/2001)
 


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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