Francisco Simões

   

PAPAI NOEL EXISTE

Quando eu era criança acreditava em Papai Noel, mas quem não acreditava? A diferença é que hoje eu continuo acreditando. Sobre a razão desta minha crença é que falarei hoje com vocês.

Conheço Papai Noel desde que ele tinha uns 2 anos. Eu não sou tão antigo quanto estejam imaginando, não, afinal o Papai Noel a que me refiro tem hoje 40 anos. 

Quando criança ele também ganhava presentes no Natal. Depois ele foi crescendo, crescendo e quando jovem já demonstrava ter um coração onde só cabiam amor e bondade. Jamais presenciei qualquer atitude, qualquer gesto dele, que fosse desenhado com traços de egoísmo. Sempre foi solidário.

Papai Noel tem mais 4 irmãos. O mais velho casou e teve uma filha, Roberta. Quando ela ainda era bem pequenina, o nosso "bom velhinho", então com uns 17 anos, começou a revelar sua vocação solidária e humanista. Vestido a caráter, todo ano, pelo Natal, ele visitava a sobrinha e levava-lhe alegria e presentes. Ali nascia, em verdade, o nosso Papai Noel, de carne, osso e uma alma angelical.

Enquanto Roberta crescia Papai Noel também casou, constituiu família e teve uma filha, a Mariana. Esta passou a ter igualmente a atenção do nosso "bom velhinho" pelos natais que se seguiram. Roberta já ultrapassara a faixa dos 8 anos e o olhava com aquela indecisa desconfiança própria da idade. Para Mariana ele representava o deslumbramento, o fascínio, a fantasia.

Através dos anos seguintes, nosso Noel foi aos poucos alargando suas atividades e levando a alegria a inúmeros corações pequeninos em várias comunidades carentes. 

Este Papai Noel compra os presentes com seu próprio e pouco salário. Alguns poucos amigos também colaboram em suas empreitadas natalinas. Não é do tipo que usa a solidariedade para usufruir vantagens, como candidatar-se a cargos eletivos. 

Escrevi para ele um poema cujo título é o mesmo desta crônica. Começa assim: 

"Lá vai ele outra vez / Levando nas costas a alegria / Doando a todos o seu dia / Sem renas, sem trenó / Cumprindo um destino só / Um D. Quixote natalino / Sem cavalo, sem Sancho Pança / Sua lança é a esperança / Seu amor são as crianças / Pois ele sente em cada menino / Quem sabe, um Jesus pequenino / Que não quer ver crucificado."

Ano passado ele promoveu uma festa das mais bonitas e emocionantes em Austin, Nova Iguaçu. Junto com mais umas 5 pessoas reuniu, na escolinha da sua amiga Cristina, no quintal da casa dela, umas 100 crianças carentes e suas genitoras. 

Os alunos são tão pobres que quando podem colaboram com uma quantia bem modesta para a escola, à guisa de mensalidade, quando não podem continuam estudando, pois ninguém é prejudicado por não poder contribuir.

A colaboração pedida se de ao fato de que a professora mantém sua escolinha com um amor imenso, mas parcos recursos financeiros. Um exemplo raro no setor de ensino deste país, do qual alguns fazem mais um grande negócio, do que um devotamento a uma causa nobre, um sacerdócio.

Enquanto a ansiedade de tantas crianças, algumas doentinhas, era contida pela boa Cristina que as fazia cantar músicas de Natal, o nosso Noel se aproximava por um corredor lateral com um imenso saco vermelho às costas. Sua entrada foi triunfal, o ambiente se encheu da felicidade daquela garotada e da luz da bondade que irradiava dos corações dos que organizaram a festa. 

As crianças gritavam seu nome: "Papai Noel". Eu não estava lá, vi tudo por fotos e cenas de vídeo feitas por dois dos amigos do "bom velhinho". Emocionei-me e decidi produzir um vídeo, semi profissional, sobre o evento. Assim o fiz. 

Aproveitei algumas cenas que haviam filmado, algumas fotos, montei com músicas escolhidas com carinho, mas não natalinas. Inseri bonequinhos falantes, cujas vozes eu mesmo faço, e não escrevi o texto. Queria dizê-lo de improviso, na gravação, deixando que a emoção falasse por mim naquele momento. 

Quando comecei a mixar tudo na fita matriz tive que interromper o trabalho por várias vezes. Eu não conseguia dizer o texto pensado, a emoção me derrubava. As cenas, o som ambiente, as lembranças de que o nosso tão querido Noel havia, dias antes, nos dado um tremendo susto com sua saúde, me impediam. 

Poucos amigos, em janeiro, tomaram conhecimento deste fato, o do susto, quando os incomodei, pela madrugada, na internet, buscando uma palavra de conforto. 

O meu poema acima referido segue assim: "No peito ele carrega um cofre / E nele um tesouro: bondade / Que transmite num sorriso de luz / Que enxuga lágrimas, limpa o pus / Que adota tanta orfandade / Que mente para a verdade do mundo / Plantando em minutos, em segundos / O que a vida nem sempre dá: felicidade."

Mas, lá pela quinta ou sexta tentativa, finalmente consegui produzir o vídeo como o havia idealizado. Até hoje, ao revê-lo, me emociono. Talvez eu seja mesmo um tolo emotivo, mas pelo menos não nego meu lado de humano. Presenteei com cópias ao nosso Noel e aos seus amigos que o exibiram também à garotada e suas famílias. 

Tenho mesmo fortes razões para acreditar em Papai Noel, porque ele me faz crer na vida, no amor, na bondade e na paz que tantas vezes tem sido derrotada pela insensatez dos homens. Quando fraquejo me socorro naquelas imagens. 

Este ano ele se ofereceu para vir trazer o seu Natal também a muitas crianças carentes aqui de Cabo Frio. Algumas terão um Natal pela primeira vez.

A ele se juntará o espírito de luz de D. Geralda, nossa amiga, uma senhora espírita, daqueles seres que foram postos no mundo para só fazer o bem, para semear o amor, para curar e consertar o que a maldade de outros, ou o destino, impõem a tantas almas desprotegidas. 

Muitas outras crianças daqui terão o seu Natal e a presença do nosso "bom velhinho". Quem sabe possam elas então também acreditar em Papai Noel, em felicidade, pois fica muito difícil crer nisso tudo quando, a cada ano, seus pais têm que ter sempre uma desculpa para justificar por que Noel nunca encontra os seus endereços.

Meu poema, para o nosso "bom velhinho" termina assim: "Ele confia no amor / Ele acredita no céu. / Seu nome? Bem, seu nome é Márcio / Mas o que isso importa / Se quando lhe abrem as portas / Ele é o Papai Noel?"

 (dezembro/2001)
     


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@vento.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm