Francisco Simões

   

A PAZ AMERICANA

Amigos, hoje não pretendo ser nada sutil na abordagem do assunto escolhido. Em pleno século 21, a humanidade corre o sério risco de ficar submetida aos interesses, aos anseios, aos objetivos, às regras, à extravagância, aos caprichos de apenas uma nação.

Pior, subjugada por apenas um grupo de pessoas, e pior ainda, por um único líder(?!) cujo histórico de vida, pelos aspectos familiar, escolar, empresarial e mesmo pela carreira política, pouco ou quase nada o recomenda para ter nas mãos tanto poder. Fruto de uma eleição mal explicada, e/ou mal auditada, fato que se acontecesse no terceiro mundo estaria até agora a merecer as mais severas críticas dos analistas internacionais.

Não me conformo, é inaceitável estarmos todos à mercê de quem se julga acima de qualquer lei, juiz supremo a impor idéias e decisões que deverão ser acatadas, sob pena de retaliações as mais variadas para além de ameaças de toda espécie de quem não demonstra equilíbrio, moderação, estabilidade mental ou emocional, imagina que seu dinheiro e suas armas comprarão e dominarão corações e mentes pelo mundo afora que quer ver a seus pés.

Já de algum tempo eu estava esperando uma reação dos povos e dos governos, especialmente da comunidade européia, contra esta visão curta de olhar os males do nosso mundo resumidos a terrorismo e terroristas. Como se não tivéssemos mais de um sexto da população mundial a viver de migalhas, quando as recebe, e a morrer de doenças, inanição, etc. Isto significa muito mais que 1 bilhão de seres humanos, em vários continentes.

Felizmente li, em matéria do jornalista português Jorge Almeida Fernandes, em ‘O Público’: "França critica unilateralismo norte-americano." Diz o artigo: "As relações euro-americanas estão em fase de turbulência, no momento em que se cava o fosso militar entre as duas margens do Atlântico", advertiu o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Hubert Védrine. Isto ocorreu logo após sérias divergências euro-americanas verificadas em recente Conferência Internacional realizada em Munique.

"Estamos ameaçados hoje por um novo simplismo que consiste em reconduzir todos os problemas do mundo à luta única contra o terrorismo, e isto não é sério". Foi o ministro francês, Véndrine, quem também fez esta afirmação numa entrevista à rádio França Internacional.

Diz mais a referida matéria: "Trata-se da tendência dos EUA abordarem os assuntos mundiais "de forma unilateral, sem consultar os outros, a partir da sua interpretação, dos seus interesses e de maneira utilitária, recusando comprometer-se em qualquer acordo internacional, em qualquer negociação multilateral que possa entravar as suas decisões, a sua soberania ou a sua liberdade de ação".

O ministro francês pediu aos europeus que expressem publicamente seu desacordo com a política exterior norte-americana: "Se nós não estamos de acordo com a política dos EUA, precisamos dizê-lo. Por exemplo, os europeus estão, unanimemente, em desacordo com a política da Casa Branca para o Oriente Médio, e acreditam ser um erro apoiar cegamente as políticas de Ariel Sharon de pura repressão."

Se alguns ardorosos defensores da política americana, que vêm nas críticas, uma atitude antiamericana, podem ainda imaginar que haja vozes isoladas nestes protestos, garanto que, muito ao contrário do que pensem, o governo americano é que está ficando solitário no processo de suas atitudes impositivas, impregnadas da velha arrogância, agora marcada também pelo unilateralismo.

"Os EUA devem identificar perigos reais em vez de imaginários", disse o primeiro-ministro da Rússia, há poucos dias, após reunir-se com o presidente Bush. E o vice-ministro do Exterior da Alemanha, Ludger Volmer, destacando que "os Estados Unidos têm velhas contas a acertar com o Iraque", advertiu que "esse argumento de terrorismo não pode ser usado para legtimar velhas inimizades".

Os EUA sabem que o Iraque nada tem a ver com os atentados de 11.09.2001, fatos que até hoje não foram bem explicados pelo lado da incompetência ou omissão dos serviços de segurança americanos. Estes não podem ser considerados totalmente inocentes naqueles episódios. Absolutamente.

Bagdá autorizou o retorno de inspetores para verificarem se o Iraque voltou ou não a fabricar armas mortíferas. O discurso do General Colin Powell, porém, é sempre de colocar o assunto como exigência americana. O Iraque rejeita esta forma de imposição que, segundo alega Saddam Hussein, fere a soberania de seu país. Neste ponto não podemos discordar dele.

A pergunta que faz o excelente jornalista Mario Augusto Jakobskind é: "qual seria o motivo das constantes ameaças norte-americanas contra o governo de Saddam Hussein?" Ele mesmo responde: "Nem é necessário grandes aprofundamentos para se concluir que se trata de uma jogada perigosa, com visível objetivo eleitoral".

Bush, em verdade, almeja recuperar a maioria no Congresso nas eleições legislativas de 4 de novembro, e para isso, dissimulando os fracassos internos de sua administração, só pensa naquilo: mais uma guerra. Julga poder manter a união em torno de seu nome e de suas decisões mantendo acesa a chama da tal "luta contra o terrorismo". Mas, o tiro deve lhe sair pela culatra.

Mario Jakobskind afirma que "desta vez, no plano político, o jogo é complicado. Aliados incondicionais dos Estados Unidos, como a Arábia Saudita e o Kuwait, não estão propensos a apoiar mais esta incursão. A Rússia e a China se opõem, da mesma forma que a França e a Alemanha colocam em dúvida uma eventual empreitada de natureza militar contra o Iraque." Outros países europeus já dão sinal da retirada de seu apoio anterior. Resta Tony Blair que, a esta altura, não representa a maioria do pensamento de seu povo sobre o assunto.

A lua-de-mel de Bush com o povo americano está seriamente ameaçada. Para além do imenso escândalo da falência da Enrom, que deu sérios prejuízos a muitos milhares de cidadãos americanos, e onde seu nome tem alguns envolvimentos comprometedores, dois novos fatos preocupam sua assessoria. Segundo informações da mídia americana o jornalista do "New York Times", Frank Bruni, lançará no próximo dia 05/março o livro "Ambling to power" que mostrará Bush como alguém distante da realidade de seu país.

A produtora da rede NBC, Alexandra Pelosi, lançará o documentário "Journeys with George" ("Viagens com George"). Livro e filme remeterão o país de volta ao primeiro semestre de 2001, quando a recessão crescente se refletia num baixo percentual de aprovação do início do governo Bush. A tragédia dos atentados, pelo lado emocional, colocou, a partir de então, o povo no seu colo. Uma coincidência aterradora, uma verdade que ainda exige muitas respostas.

No documentário, entre tantas gafes e mancadas desastradas, até a nível internacional, revelará Bush dizendo que "Talibã é o nome de uma banda de rock." E meses depois ele saiu a matar os "músicos" que, em verdade, governavam o Afeganistão, como milícia fundamentalista islâmica que são.

Outro grande apelo à galhofa, ao riso, inserida no livro, foi quando ocorreu um apagão na Califórnia. Bush teria explicado assim o fato: "…foi o resultado de não haver usinas geradoras de energia suficientes, e então, não haver energia suficiente para energizar as usinas de energia." Pois é.

Para tentar se manter no poder e alargar ainda mais o seu domínio pelo jardim de nossa humanidade, parece não se preocupar se vier a tocar fogo no mundo. Tem permanentemente se recusado a aderir ao Protocolo de Kioto, o tratado internacional que objetiva reduzir as emissões de gases que provocam o efeito estufa. Há dias atrás a União Européia classificou de insuficientes as propostas apresentadas como alternativa pelos EUA.

A comissária para o Meio Ambiente, Margot Wallstrom, segundo o noticiário internacional, afirmou que "as propostas de Bush não levam a uma diminuição dos gases, ao contrário, permitem um aumento." O Japão juntou sua voz a da União Européia contra a posição intransigente do Sr. Bush. Segundo cálculos do grupo Greenpeace, até o final da década, por essa proposta de Bush, os EUA aumentarão suas emissões de gases poluentes em 29%, em relação a 1990.

Comentando o assunto, Paul Krugman, colunista do "New York Times", afirmou: "Na verdade o governo Bush propôs fazer quase nada. Consistentemente com essa meta, ele também anunciou políticas específicas que virtualmente não terão efeito algum."

Em resumo, mentiras, empulhações, tapeações, que se somam ao desrespeito à soberania dos povos, ao autoritarismo de atitudes internas que promovem um processo de censura antes inimaginável num país como os EUA e ameaças externas em tons agressivos que felizmente começam a ser repudiadas pela Comunidade Européia, Japão, China, Rússia entre outros, antes, aliados.

O desprezo à seriedade anunciada pela manchete que correu o mundo esses dias: "New York Times: EUA planejam divulgar notícias falsas no exterior."A intenção de mentir, enganar, tripudiar com a verdade como tantas outras vezes já fizeram no passado, agora de forma mais acintosa e desavergonhada. Agora já se percebe claramente onde está o verdadeiro "império do mal". Não onde Bush o situou.

Como li no editorial do jornal espanhol "El Pais", de 17.02.2002: "Cabe dudar de un imperio que no parece dispuesto a aumentar su ayuda externa para construir Estados y economías, ni a fomentar valores como los derechos humanos. En solitario, la Pax Americana puede seguir siendo un mito."

Encerro com as palavras de Robert Bowman, americano, herói, condecorado da Guerra do Vietnã, tendo voado em 101 missões de combate, hoje Bispo da Igreja Católica e conferencista sobre assuntos de Segurança Nacional dos EUA. Bowman enviou esta carta ao presidente americano em 1998.

Este é apenas um trecho da mensagem e ela foi enviada pela amiga e escritora catarinense, Urda Alice Klueger, a todos de sua lista, por ocasião do Natal passado. Os que a leram, deverão reler, pois temos que a ter em mente, sempre:

"Sr. Presidente, o senhor não contou ao povo americano a verdade sobre o porquê de sermos alvo do terrorismo quando o senhor explicou porque bombardeamos o Afeganistão e o Sudão. O senhor disse que somos alvo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos no mundo. Que absurdo! Somos alvo dos terroristas porque, na maior parte do mundo, nosso governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana.

Somos alvo dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países, agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos, substituindo-os por militares ditadores, marionetes desejosas de vender seu próprio povo a corporações americanas multinacionais? Fizemos isso no Irã quando os Marines e a CIA depuseram Mossadegh porque ele tinha a intenção de nacionalizar a indústria de petróleo.

Nós o substituímos pela Shah e chamamos, treinamos e pagamos a sua odiada guarda nacional Savak, que escravizou e brutalizou o povo iraniano, tudo para proteger o interesse financeiro de nossas companhias de petróleo. Será possível imaginar que existem pessoas no Irã que nos odeiam? Fizemos isso no Chile. Fizemos isso no Vietnã. Mais recentemente, tentamos fazê-lo no Iraque. E, é claro, quantas vezes fizemos isso na Nicarágua e outras repúblicas na América Latina?

Uma vez atrás da outra temos desapossado líderes populares que desejam que as riquezas da sua terra sejam repartidas pelo povo.Nós os substituímos por tiranos assasinos que venderiam o seu próprio povo para que a riqueza da terra pudesse ser tomada por similares a Domino Sugar, United, Fruit Company, Folgers... De país em país, nosso governo obstruiu a democracia, sufocou a liberdade e pisoteou os direitos individuais. É por isso que somos odiados ao redor do mundo. E é por isso que somos alvo dos terroristas."

Sem mais comentários.


(março/2002)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro

fmsimoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm